O contrato previa um gasto de mais de R$ 500 milhões por ano com o produto de uma fabricante do Paraguai, sem histórico de participação em licitações no Brasil. Para efeito de comparação, esse valor é equivalente ao orçamento anual de alguns órgãos da prefeitura, como a Procuradoria-Geral do Município.
Passei semanas estudando o edital, conversando com pesquisadores e procurando literatura especializada. Em setembro, publicamos a reportagem que revelou que a administração de Ricardo Nunes (MDB) estava pagando oito vezes o preço de mercado pelo CBD. E que isso só foi possível por um direcionamento do edital, que exigia componentes na composição do óleo que não traziam nenhum benefício para o produto, mas resultou na eliminação das outras concorrentes da licitação.
A Agência Pública foi a primeira a noticiar os problemas dessa compra.
A partir da reportagem, o Ministério Público de São Paulo e o Tribunal de Contas do Município abriram investigações. A Anvisa interditou lotes do produto. Na semana passada, a prefeitura mandou os médicos suspenderem a prescrição e cancelou o contrato.
Foi um grande impacto para uma reportagem, que evitou um rombo gigantesco no caixa do município. Fiscalizar o poder público e lançar luz sobre irregularidades é uma das funções do jornalismo em que acreditamos – e que só é possível por causa dos leitores que sustentam nosso trabalho.
Depois da Pública, outros veículos também publicaram matérias sobre o assunto – muitas vezes sem citar quem descobriu a história. Pode parecer frescura nossa querer reivindicar autoria. Mas não é questão de ego. Somos um veículo independente, sem anunciantes e sem rabo preso com ninguém. Fazemos nosso trabalho bem feito, apesar das dificuldades, e por isso é tão importante que os leitores saibam quem investigou e quem revelou fatos que os poderosos queriam deixar escondidos.
É importante dizer que essa não era a notícia que gostaríamos de dar. Reportagens anteriores da Pública já mostraram que o acesso ao canabidiol ainda é bastante difícil no Brasil: cada frasquinho pode custar mais de R$ 1 mil e mais de 80% dos pedidos de acesso gratuito ao produto são negados pela Justiça.
Irregularidades como a que revelamos atrasam ainda mais o acesso de quem precisa. Isso é grave, mas não pode ser justificativa para malfeitos.
Seguimos fazendo jornalismo para defender o direito à saúde, mas sem abrir mão da moralidade pública. E isso só é possível porque temos apoio de nossos leitores. Considere ser nosso Aliado para que mais investigações como essa vejam a luz do dia.