
Boulos tem a tarefa de divulgar as ações do governo
Guilherme Caetano
Vera Rosa
Estadão
Há três meses no cargo, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, levou um tom mais político para o núcleo do governo. Na lista de suas missões neste ano eleitoral de 2026 está a de dar uma “chacoalhada” na base social da esquerda que foi perdida para a direita e atrair trabalhadores que hoje flertam com o bolsonarismo, como os das plataformas de aplicativos, além dos pequenos empreendedores.
Ex-líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Boulos tem a tarefa de divulgar as ações do governo não só nas ruas como nas redes sociais e virou um dos principais atacantes do Palácio do Planalto para enfrentar a artilharia bolsonarista.
BOLSOANRISMO ENVERNIZADO – “O time da Faria Lima adora um bolsonarismo envernizado”, disse o ministro ao Estadão, numa referência ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). “Tudo o que eles querem é um bolsonarismo que coma de garfo e faca. Mas a Faria Lima não tem voto. Na direita, quem tem voto é o Bolsonaro”, completou, ao falar sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso por tentativa de golpe.
Boulos tem dúvidas sobre a manutenção da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Planalto e, diante desse cenário incerto, Tarcísio também está na sua mira. “Tratar um País como se fosse a gestão de uma empresa privada mostra falta de um projeto nacional”, criticou o ministro, em alusão à frase de Cristiane de Freitas, mulher do governador, para quem o Brasil precisa de um “novo CEO”. “Se o presidente é CEO, ele (Tarcísio) deve enxergar a população como seus empregados”, fustigou Boulos.
Fanático pelo Corinthians, o titular da Secretaria-Geral tem à sua direita, no gabinete do Planalto, um uniforme do time de 1990, ano em que o clube foi campeão brasileiro com atuação de gala do meia-atacante Neto. À sua esquerda, pendurado na parede, um brasão com a frase “Madeira que Cupim não Rói”, homenagem ao escritor paraibano Ariano Suassuna, conterrâneo de sua mãe.
O presidente Lula pediu para o sr. pôr o governo na rua. A que o sr. atribui o fato de a avaliação negativa do governo ter superado a positiva na última pesquisa Genial/Quaest?
A mesma pesquisa mostrou o presidente favorito para a reeleição em todos os cenários. Hoje tem uma situação da polarização no Brasil e no mundo. O eleitor que se define como de direita vai desaprovar o governo do presidente, por mais que possa sentir melhora na vida dele, por uma razão da polarização ideológica. Acabou a era do consenso.
O mesmo levantamento diz que 51% dos brasileiros acham que Lula errou ao condenar as ações do presidente dos EUA, Donald Trump, na Venezuela. Esse tema pode desgastar o presidente na campanha?
Não acho. O que o presidente fez foi defender a paz no continente e dizer que nem o Brasil nem a América Latina devem admitir nenhum tipo de colonialismo, de imperialismo. O presidente Lula não reconheceu a legitimidade da eleição do (Nicolás) Maduro, o Brasil questionou a entrada da Venezuela no Brics – e (a Venezuela) não entrou por causa disso. Mas no dia seguinte o Trump foi lá e sequestrou o Maduro e fez um ataque militar numa República soberana. Ele (Trump) disse que faria (a mesma coisa) na Colômbia, que tomaria a Groenlândia. Então, para defender esse tipo de política tem que ser muito vira-lata. Patriotismo não é só na hora de levantar a bandeira em manifestação.
De que forma o governo tratará do assunto?
A eleição vai ser marcada por três grandes temas. Primeiro: soberania nacional. Haverá uma discussão com a sociedade se a gente quer um Brasil soberano ou o Brasil como uma colônia dos Estados Unidos. Quem usou o bonezinho do MAGA (sigla em inglês para “Faça a América Grande de Novo”, slogan de Trump) vai ter que se explicar. Segundo tema: justiça tributária. Esse é o governo que pela primeira vez mexeu no vespeiro de taxar super rico no Brasil e zerar o Imposto de Renda (para quem ganha até R$ 5 mil). Qual é a posição daqueles que vão ser nossos adversários? Terceiro: defesa dos trabalhadores. Este governo defende o fim da escala 6×1.
Mas é possível aprovar esse projeto até a eleição?
Nós queremos aprovar dois projetos importantes ainda neste ano. Um deles é o fim da escala 6×1, com redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem diminuição de salário. O segundo é garantir direitos para os trabalhadores de aplicativos. Pega um motorista de aplicativo (de exemplo): o carro é dele, o trabalho é dele, a gasolina é dele. Se fura o pneu, ele é quem tem que trocar; se sofre um acidente, é problema dele. E a cada viagem que ele faz, a empresa fica com uma fatia que, às vezes, passa de 40%, 50%. A mesma coisa em relação às empresas de entrega.
Há muitas resistências. Como o governo pretende driblar isso?
No caso do fim da escala 6×1 tem PEC (Proposta de Emenda à Constituição) e projetos de lei. Nós vamos chegar a um entendimento do caminho que seja mais rápido e mais fácil de aprovar. Isso vai ser um diálogo junto do presidente Hugo Motta, na Câmara; com o presidente Davi Alcolumbre, no Senado, e com as bancadas. No caso dos trabalhadores de aplicativos, o relatório do deputado Augusto Coutinho já incorporou demandas importantes.
Que medidas o projeto da regulamentação trará?
No caso dos motoristas, a taxa de retenção (do valor ganho pelo trabalhador) pode chegar a 50%. O texto do projeto de lei coloca um limite de 30%. No caso dos entregadores, a ideia é garantir um ganho mínimo por entrega. O iFood já trabalha com taxa mínima de R$ 7,50, em entregas até 3 quilômetros, e R$ 1,50 por quilômetro adicional. A demanda deles é que isso chegue a R$ 10 (fixos) e R$ 2,50 por quilômetro adicional. O projeto chegou a R$ 8,50. Outro ponto é a transparência do algoritmo. É inadmissível que um motorista não saiba o quanto o cliente está pagando; só saiba o quanto ele recebe. E que um motoboy, ao não aceitar uma corrida, receba uma punição algorítmica e fique duas horas sem receber outra chamada. Além disso, é preciso ter uma contribuição majoritária das empresas para o INSS e uma minoritária dos trabalhadores.
Lula vetou cerca de R$ 400 milhões em emendas parlamentares no Orçamento. Isso não agrava ainda mais a difícil relação entre o Planalto e o Congresso?
Acho que não. Nós estamos vivendo um negócio do rabo abanando o cachorro. R$ 61 bilhões em emenda aprovados no Orçamento? Gente, isso é uma esculhambação. Como é que você vai governar o Brasil desse jeito? Você perde a noção de projeto de país. Isso é o mais grave da captura orçamentária pelo Congresso. Nesse estágio, em algum momento, nós vamos ter que fazer um freio de arrumação.
Como o governo vai lidar na campanha com acusações de que o presidente chamou para o Palácio do Planalto alguém que coordenou a invasão?
Eu não participei de orçamento secreto, nunca usei mal a coisa pública, não tenho qualquer acusação dessa natureza. A minha história foi dedicar o meu tempo e a minha energia para lutar junto das pessoas que precisam de casa. Existe um preconceito tremendo contra o movimento social. O Movimento Sem-Teto nunca invadiu a casa de ninguém. O que o movimento fez foi identificar imóveis em situação ilegal, com dívidas muitas vezes maior que o valor do próprio terreno, e pressionar para que se cumpra a lei, o Estatuto da Cidade, de 2001, para que esses imóveis sejam desapropriados para utilidade pública e construção de moradia popular.
A segurança pública não deve ser o carro-chefe da campanha de Lula, mas os adversários vão focar nisso. O que o governo propõe?
Eu estou doido para o Flávio Bolsonaro, se for o candidato, falar de segurança pública porque daí a gente vai falar de milícia do Rio de Janeiro, de Rio das Pedras, de Adriano da Nóbrega, que teve familiar assessor no gabinete dele, de Escritório do Crime. Qual é a autoridade moral do Flávio Bolsonaro para falar de segurança? Nós estamos preparados para fazer debate com qualquer um. Foi Lula que teve a coragem de mandar uma PEC (ao Congresso). Por que os governadores de direita e o Centrão são contra o governo assumir mais responsabilidade na segurança pública? Eles estão dando conta sozinhos? Não me parece.
O sr. acha que o senador Flávio Bolsonaro irá até o fim da disputa pela Presidência ou o governador Tarcísio deve entrar?
O time da Faria Lima adora um bolsonarismo envernizado. Tudo o que eles querem é um Bolsonaro que coma de garfo e faca, que é o Tarcísio. Mas a Faria Lima não tem voto. Na direita, quem tem voto é o Bolsonaro. Então, na prática, quem o Bolsonaro indicar como candidato, será o candidato.
Na eleição de 2024 para a Prefeitura, o sr. concorreu com um candidato (Pablo Marçal) que tinha ao lado dele parte do eleitorado que o governo quer trazer, os trabalhadores informais. Que experiência daquela disputa o sr. levará para a mobilização nesta campanha?
A gente aprende mais na derrota do que na vitória. Quando a gente ganha uma eleição, você não vai ficar analisando o que foi errado, o que deixou de fazer. Você ganhou a eleição, você vai governar. Quando você perde uma eleição, o que leva a algum lugar é refletir: “Por que as pessoas não votaram (em mim)?”. Você não pode culpar o povo porque não ganhou uma eleição. Tem gente que depois que perde a eleição tenta dar golpe. Um aprendizado que eu tive foi da importância de a esquerda se abrir para um diálogo franco com a nova classe trabalhadora. Nós precisamos aprender a dialogar com esses segmentos, não só a partir daquilo que a esquerda propõe para eles, mas a partir daquilo que eles querem. No mundo, a esquerda lida com esse mesmo dilema porque tem uma mudança social e econômica do perfil dos trabalhadores.
E o que fazer para se aproximar dos evangélicos, já que boa parte desse segmento é refratária ao governo Lula e apoia o ex-presidente Jair Bolsonaro?
Nós temos que repensar, inclusive, a relação de resistência que se construiu, dos dois lados, entre a esquerda e o povo evangélico. Nem sempre foi assim. Houve grandes igrejas que apoiaram o presidente Lula, a presidenta Dilma, e hoje há quase que um obstáculo para o diálogo. Quem é o povo evangélico, majoritariamente? São mulheres das periferias que usam o SUS, que têm seus filhos na escola pública, muitos beneficiários de programas sociais criados por Lula. Nós não queremos fazer o diálogo em torno de pautas que o bolsonarismo usa de uma maneira, aliás, muito canalha, para envenenar o debate. Nós queremos discutir as questões de como o governo pode melhorar a vida do povo que está nas periferias. Se vai dar tempo de fazer para este processo eleitoral, não sei. Mas isso é um processo contínuo.
O sr. vai deixar o governo para disputar as eleições?
Eu pretendo ficar, porque entrei no governo em outubro. O presidente me fez pedidos, me deu missões, e eu não largo missão no meio do caminho. Mas, lógico, tenho o compromisso de ajudar a construir o palanque em São Paulo.
O PT ainda não tem um candidato ao Palácio dos Bandeirantes. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, pode ser esse nome?
Eu vou te devolver com uma pergunta: a direita tem candidato para o Palácio dos Bandeirantes? O Tarcísio vez ou outra flerta (com a ideia de) ser candidato à Presidência da República. A esposa dele esses dias publicou uma nota na rede social dizendo que era o marido dela que deveria ser o novo CEO do Brasil. Tratar um país como se fosse a gestão de uma empresa privada? Isso mostra a cabeça tacanha, a falta de projeto nacional e de projeto popular porque, se o presidente é CEO, ele (Tarcísio) deve enxergar a população como seus empregados. É algo triste até de se ver. Por mais que o Bolsonaro tenha lançado o Flávio, me parece que o grupo do Tarcísio não ficou muito contente com isso. Então, vamos esperar o que eles vão fazer.