sexta-feira, outubro 17, 2025

O preço da lealdade entre a governabilidade e o clientelismo no poder


Gleisi diz que devem permanecer os que apoiam o governo

Pedro do Coutto

Em entrevista concedida ao Globo, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, afirmou que é “um fenômeno natural” permanecer no governo apenas aqueles que apoiam o projeto político em curso — em especial, a reeleição do presidente da República. A declaração, aparentemente pragmática, acende um debate antigo e incômodo sobre o equilíbrio entre fidelidade política e o princípio republicano de impessoalidade na administração pública.

Em outras palavras, até que ponto a lealdade pode ser usada como critério para manter cargos e funções dentro do Estado? Na prática, o que a ministra defende é a coerência de base: quem foi indicado por parlamentares aliados deve agir de forma alinhada ao governo, votando e se manifestando em favor das medidas do Executivo.

SEM SENTIDO – Caso contrário, a permanência desses indicados — especialmente em postos estratégicos, como diretorias de estatais e autarquias — perde sentido. Há uma lógica interna nesse argumento: governos democráticos dependem de maioria no Congresso para aprovar projetos e garantir estabilidade. No entanto, o discurso de Gleisi vai além do realismo político e se aproxima perigosamente da naturalização de uma prática que há décadas corrói o sistema brasileiro — a troca de cargos e favores por votos.

A história política do país é repleta de exemplos em que a lealdade pessoal ou partidária se sobrepôs à competência técnica. O fisiologismo, disfarçado sob o nome elegante de “governabilidade”, transformou-se em norma tácita. Cargos comissionados, nomeações estratégicas e verbas orçamentárias tornaram-se moedas de troca na construção de maiorias.

O problema não é novo, mas o que preocupa é a tentativa de apresentá-lo como “natural”, como se fosse inerente à política. O uso dessa palavra revela uma visão de poder que confunde o Estado com o projeto partidário e a lealdade política com virtude cívica.

AUMENTO DO TETO – A ministra cita como exemplo o recente aumento do teto de financiamento habitacional para a classe média, de até R$ 2,2 milhões — uma medida vista como estratégica para reforçar o apoio popular. Ao vincular políticas públicas à sustentação política, Gleisi traduz o dilema central dos governos de coalizão: a necessidade de equilibrar resultados de gestão com recompensas políticas.

Mas, ao mesmo tempo, expõe o risco de que políticas públicas sejam moldadas por conveniências eleitorais e não por critérios técnicos ou sociais. O afastamento de indicados por parlamentares que votaram contra o governo — inclusive em órgãos como a Caixa Econômica Federal e o INSS — ilustra essa estratégia de depuração interna.

Trata-se de uma forma de disciplinar a base, punindo a “infidelidade” e premiando a submissão. Em tese, o objetivo seria garantir coesão. Na prática, porém, o efeito colateral é a centralização do poder e o esvaziamento do debate democrático. O Estado se transforma em um instrumento de controle político, e não em uma estrutura de serviço público.

MÉRITO ADMINISTRATIVO –  Dizer que é “natural” demitir quem não vota com o governo é, no fundo, admitir que o mérito administrativo se subordina ao cálculo eleitoral. É aceitar que o Estado funcione como uma extensão do partido, e que a máquina pública sirva à sobrevivência política de quem está no poder.

A naturalização desse raciocínio é perigosa: ela legitima a substituição da técnica pela fidelidade, da competência pela conveniência. A política deixa de ser espaço de pluralidade e se transforma em um campo de obediência, onde a divergência é vista como traição.

Há, claro, uma dose de realismo na fala da ministra. Nenhum governo sobrevive sem base parlamentar sólida. Mas também é verdade que, ao transformar o apoio em moeda de permanência, o Executivo arrisca perder sua legitimidade institucional.

DESGASTE – O preço dessa “lealdade” é o desgaste dos princípios republicanos e a consolidação de uma cultura de dependência política que enfraquece o próprio Estado. Governabilidade não pode ser sinônimo de clientelismo, e coerência política não deve significar submissão cega.

O episódio expõe, mais uma vez, o dilema que assombra o presidencialismo brasileiro: como construir uma base de apoio sem sucumbir à lógica da barganha. É possível cobrar fidelidade política, mas não às custas da autonomia institucional. A democracia exige cooperação, não servidão. Um governo que precisa ameaçar para garantir apoio talvez precise, antes, repensar suas formas de diálogo e convencimento.


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