
Lindbergh e Gleisi consideram negativo o arcabouço fiscal
Carlos Newton
A excelente jornalista Vera Rosa, do Estadão, mostrou a ponta do iceberg dessa crise, ao divulgar que o projeto do arcabouço fiscal expôs as divergências no PT sobre os rumos do governo comandado por Lula da Silva. A crise é grave e vem corroendo os bastidores do poder antes mesmo da apresentação inicial do projeto da nova âncora fiscal pelos ministros Fernando Haddad (Fazenda) e Simone Tebet (Planejamento), dia 30 de março.
De lá para cá, a cúpula do PT se dividiu em duas alas – uma delas defende a proposta da equipe econômica e a outra não aceita qualquer teto de gastos, sob alegação de que irá imobilizar o governo.
GLEISI DISSIDENTE – Por incrível que pareça, a dissidência é comandada pela própria presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), que colocou à frente do movimento seu próprio novo marido, o deputado Lindbergh Farias (RJ), da ala Democracia Socialista.
Em 6 de abril, o parlamentar deu uma explosiva entrevista à Folha, afirmando que “o arcabouço fiscal é um pacto com o diabo”, porque vai engessar o governo e impedir os investimentos necessários á retomada do desenvolvimento econômico e social.
“Essa proposta é uma camisa de força”, disse Lindbergh Farias. “Para fazer déficit primário zero vai ser necessário cortar investimentos e políticas sociais. Com a desaceleração da economia, haverá crise política e isso será uma bomba que explodirá dentro do governo Lula”.
DISSE O MINISTRO – Haddad respondeu não ser possível “agradar 100% das pessoas” e pediu que se formasse um “núcleo hegemônico” no governo para recolocar o Brasil “numa trilha de desenvolvimento sustentável“.
“Manifestações críticas e elogiosas vão acontecer em qualquer agremiação. Agora quem fala pelo Partido dos Trabalhadores é a sua Executiva, com todo respeito a vozes internas. Nada obsta a um deputado em exercício de seu mandato apresentar seu projeto”, declarou Haddad, dando uma indireta a Gleisi Hoffmann, que preside a Executiva.
Lula e o resto da cúpula do governo se mantiveram num silêncio constrangedor, compartilhado por Gleisi Hoffmann, que finge não ter nada a ver com as declarações do atual marido.
AGORA, A REVANCHE – A divisão continua corroendo as relações internas do PT e somente agora o Planalto reage, através do líder na Câmara, Zeca Dirceu (PR), que excluiu Lindbergh Farias da CPI dos Atos Golpistas, sem consultar a presidente Gleisi Hoffmann.
Nesta sexta-feira (dia 12), Lindbergh afirmou que foi surpreendido com a decisão e que está muito por dentro dos assuntos que serão tratados. “Estava querendo muito participar da CPI, acho que a gente vai conseguir comprovar a autoria intelectual daquela tentativa de golpe em cima do nome de Jair Messias Bolsonaro”, salientou.
Disse esperar que os chamados partidos do “centrão” não amordacem o presidente Lula, assinalando que desde o início tem faltado articulação política e assim o governo permitiu ficar dependente de Arthur Lira, sem formar uma base aliada sólida.
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P.S 1 – Lindbergh Farias tem razão em muitas coisas que diz. O presidente Lula acha (?) que o arcabouço vai lhe permitir gastar à vontade, mas isso não é verdade. Gleisi Hoffmann está uma arara com a decisão de Zeca Dirceu. A briga não vai parar por aqui, até porque há muita coisa por trás. A divisão no PT é bem mais grave do que aparenta. Com toda certeza, Gleisi e Lindbergh vão querer mudar o arcabouço fiscal na Câmara. Vamos voltar ao assunto com outros detalhes importantíssimos. (C.N.)