sexta-feira, maio 12, 2023

Entenda por que Anderson Torres foi solto, mas Daniel Silveira vai mofar na cadeia

Publicado em 12 de maio de 2023 por Tribuna da Internet

Supremo mantém prisão do deputado Daniel Silveira - ISTOÉ Independente

Silveira acreditou na imunidade parlamentar e se deu mal

Carlos Newton

Há diversas acusações atingindo o delegado federal Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, que estão sendo apuradas. Foi preso preventivamente, a pretexto de não interferir nas investigações e não destruir provas. Depois da busca e apreensão em sua residência, portanto, não mais havia motivos para prisão, porque o investigado tem bons antecedentes, residência fixa, é servidor público e não tentou se evadir.

Não importa o que tenha feito, Anderson Campos juridicamente tinha direito claro e pacífico de responder a inquérito em liberdade, mas a lei foi descumprida até esta quinta-feira, dia 11, quando o relator Alexandre de Moraes enfim mandou soltá-lo.

SILVEIRA É UM IMBECIL – O caso de Anderson Torres é muito diferente da situação do ex-deputado Daniel Silveira, que está preso pelo simples fato de ser imbecil e se portar de forma inconveniente.

Foi denunciado e agora está condenado pelos crimes de coação no curso do processo (artigo 344 do Código Penal), por três vezes, e incitação da prática de tentar impedir ou restringir, com emprego de violência ou grave ameaça, o exercício dos Poderes constitucionais (artigo 359-L, parágrafo único), por duas vezes.

Seus crimes se limitaram à divulgação de três vídeos em suas redes sociais, assim intitulados: “Na ditadura você é livre, na democracia é preso!”; “Convoquei as Forças Armadas para intervir no STF”; “Fachin chora a respeito da fala do General Villas Boas. Toma vergonha nessa maldita cara, Fachin!”.

CRIME DE COAÇÃO – Para os ministros do Supremo, o deputado imbecil os coagiu ao estimular seguidores a jogar o relator Moraes numa lixeira, atacando sua dignidade e o descartando como ser humano.

No segundo vídeo, Silveira voltou a coagi-los ao dizer que “o STF e a Justiça Eleitoral não vão mais existir porque nós não permitiremos”. Por fim, na terceira postagem, sugere dar uma “surra bem dada” no ministro Fachin.

O outro crime (Impedimento de exercício de Poderes) teria se configurado duas vezes. A primeira, quando disse: “Eu quero que o povo entre dentro do STF; agarre o Alexandre de Moraes pelo colarinho dele”. E o segundo crime quando  afirmou “e o que nós queremos [convocar as Forças Armadas a intervir no STF]”, dizendo que o órgão “deveria ser extinto”.

DUAS CONSTATAÇÕES – A condenação de Silveira traz duas evidências. Indica que os ministros são muito sensíveis/suscetíveis e não conseguiram distinguir entre a bravata de um idiota e uma ameaça verdadeira, pois na prática nenhum deles sofreu qualquer intimidação pelos seguidores do então parlamentar. Alguém lhe disse que tive imunidade, podia falar à vontade, e ele acreditou.

A segunda constatação é de que a liberdade de expressão tem limites e nenhum parlamentar pode se comportar de maneira inconveniente, dizendo asneiras, porque pode ser preso, multado e perder o mandato.

Lembro então o deputado constituinte João Cunha (MDB-SP), que viajou a Santiago para dar uma palestra e disse que o general Augusto Pinochet deveria subir de joelhos a escadaria do Palácio de La Moneda, pedindo perdão pelo que fez ao povo chinelo. Foi um escândalo. Pinochet queria prender João Cunha, mas o Brasil já tinha se democratizado, o ditador chileno acabou deixando para lá e o deputado voltou incólume ao Brasil.

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P.S. 1
 – Pelos disparates que postou nas redes sociais, Silveira pegou 8 anos e 9 meses de reclusão em regime fechado, com pagamento de 35 dias-multa no valor unitário de 5 salários mínimos, no total de R$ 231 mil. Com todo o respeito aos ilustres e doutos ministros, acredito que a condenação foi exagerada, ao atingir um representante de outro poder que à época dos crimes hipoteticamente gozava de imunidade parlamentar.

P.S. 2 – Notem que o então deputado João Cunha teve a audácia de colocar à prova em outro país o direito de expressão e a imunidade parlamentar. E nada lhe aconteceu. Certamente, porque João Cunha era tão audacioso como Daniel Silveira, mas nada tinha de imbecil. Foi um grande parlamentar, do chamado MDB Autêntico, eleito quatro vezes para a Câmara Federal.  

P.S. 3 – Nesta quinta-feira houve um evento na Câmara, com a presença de dezenas de deputados bolsonaristas, em que o Supremo foi esculhambado para valer, com transmissão ao vivo pela TV Câmara. O Delegado Caveira (PL-PA) falou que haverá o momento de “empunhar espadas” e ir às ruas. “Devemos imediatamente fazer uma chamada nacional e convocarmos o verdadeiro Supremo para as ruas, que é o povo. Não podemos negociar as nossas liberdades. Conto com todo o povo patriota, todo o povo brasileiro para juntos empunharmos as nossas espadas e irmos para as ruas”, afirmou. Será que o Supremo também vai prendê-lo, igual a Daniel Silveira?   (C.N.)

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