segunda-feira, maio 15, 2023

14 Trump e os demagogos que fazem da mentira uma forma de vida




Eles são derrotados pela razão, não pelo silêncio ou pela histeria. 

Por João Pereira Coutinho (foto)

Sempre gostei daquelas crianças que fecham os olhos para não verem a realidade. Muitas das reações à sabatina de Donald Trump transmitida pela CNN me fazem lembrar essas crianças. Teria sido melhor não transmitir; cancelar; fazer de conta que ele não existe, disseram as crianças.

Pensamento bizarro: o Donald lidera as pesquisas para vencer a indicação republicana para as presidenciais de 2024. Pode voltar a ser presidente dos Estados Unidos, atendendo ao estado pavoroso da economia do país e à fraca popularidade de Joe Biden.

Mas o "establishment" progressista desejava um cordão sanitário para impedir a peste de entrar na cidade. Não aprenderam nada e não esqueceram nada.

O caso não é novo. É até bem velho. Como lidar com demagogos que fazem da mentira e da manipulação uma forma de vida?

Existem duas formas, péssimas, de responder a essa pergunta. A primeira é pelo silêncio; a segunda é pela histeria. Ambas são aliadas objetivas de um demagogo, que reforça entre os fiéis o seu estatuto de herói contra o sistema.

Depois dos fiéis, virão os outros: os indecisos, igualmente conquistados pela "injustiça" do tratamento.

E, no entanto, a forma correta de lidar com um demagogo já foi explicada há 2.500 anos por um tal de Sócrates numa Atenas que estava infestada deles. É pela razão, e pelo inquérito racional, que os demagogos são vencidos, mostrou o filósofo. Se optamos pela emoção, estamos em desvantagem porque esse é o território dele.

A jornalista Kaitlan Collins da CNN optou pela razão. Nem sempre foi eficaz, admito, e os aplausos de uma plateia pró-Trump não ajudaram.

Mas, pelo menos, a jornalista fez perguntas (sérias) e, perante as mentiras de Donald Trump, fez um esforço (sério) para rebatê-las, sem estados de alma infantis.

A eleição de 2020 foi roubada? Trump diz que sim. A jornalista explicou que não, citando os tribunais e todas as instituições independentes que analisaram o assunto.

Trump tentou impedir a invasão do Capitólio? Trump diz que sim. A jornalista explicou que não: enquanto a violência e o saque decorriam, Trump nada disse e nada fez. E o seu secretário de Estado da Defesa, Chris Miller, negou que o então presidente tenha mobilizado a Guarda Nacional para impedir a insurreição.

O mesmo método –mentira primeiro, correção depois– foi aplicado em todas as matérias relevantes, mostrando que o muro com o México não foi "finalizado" pelo ex-presidente; que a Ucrânia não será apoiada com ele na Casa Branca; e que os documentos classificados que levou para a sua casa de Mar-a-Lago, na Flórida, são uma violação do Presidential Records Act (no mínimo).

Aliás, a frustração de Trump ficou expressa no insulto "pessoa horrível" que ele lançou contra a jornalista já no final da sabatina.

É um bom elogio. E também uma certeza: a viagem de Donald Trump para a Casa Branca será mais difícil se ele encontrar "pessoas horríveis" dessas pelo caminho.

Folha de São Paulo

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