quinta-feira, março 23, 2023

De populismo em populismo, um país à deriva



Enquanto elegermos populistas, o Brasil seguirá se distanciando da prosperidade econômica, da plena democracia e de um futuro melhor para os nossos filhos e netos. 

Por Luiz Felipe D'Avila (foto)

O populismo é um câncer que debilita o funcionamento da democracia, corrói a credibilidade das instituições e destrói a confiança nas regras do jogo. A estratégia dos populistas é fomentar a discórdia política – a rivalidade entre “nós e eles” – para se manter no poder, aparelhar o Estado e submeter as instituições aos seus caprichos, que consideram a única expressão legítima da vontade popular.

Lula seguiu à risca o roteiro populista nos primeiros meses de governo. Em quase toda fala, culpou o seu antecessor pelos males da Nação e optou por agradar apenas o cercadinho da militância petista. Atacou a independência do Banco Central, sabotou a Lei das Estatais, gerou apreensão no mercado ao criar um imposto sobre exportação de petróleo e permaneceu mudo diante da aberração de invasões de terras produtivas. Aliás, nada enfurece mais o governo petista do que empresas que têm sucesso na economia de mercado. O lucro recorde da Petrobras, o sucesso do agronegócio e as empresas de aplicativo que se tornaram fonte de emprego e de renda para muitas pessoas que estavam fora do mercado de trabalho recebem a condenação e o opróbrio do governo. Na política externa, Lula rechaçou o apoio do presidente Joe Biden para o Brasil ingressar na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e recusou assinar um documento de mais de 50 países condenando as barbaridades humanitárias cometidas pelo ditador da Nicarágua.

Infelizmente, os sinais são claros de que Lula vai priorizar o corporativismo público e privado em detrimento dos interesses nacionais. Em nome da preservação da governabilidade, o governo abriu os cofres públicos e a distribuição de cargos para o corporativismo, que avança como piranhas esfomeadas para devorar as verbas públicas, as sinecuras e os subsídios que são distribuídos para conquistar apoio político no Congresso e na sociedade. Causa indignação ver o governo empenhado em reavivar empresas estatais – como as famigeradas estatais do trem-bala e outra que fabrica chip para bovinos – no momento crucial em que é imperativo cortar gastos com pessoal, benefícios e privilégios da máquina estatal.

A imoralidade pública reina sem nenhum constrangimento. Ministros usam avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para ir a leilão de cavalo de raça e trabalham como lobistas para empregar familiares nos tribunais de contas estaduais a fim de lhes garantir uma renda mensal no topo da pirâmide dos salários e privilégios da República.

O Brasil está à deriva. Desde o término da eleição presidencial, Lula não apresentou um único projeto ou ideia que trata dos temas prementes do País. Até o momento, o presidente da República cultiva um silêncio sepulcral sobre o crescimento econômico, a abertura comercial e o meio ambiente como alavancas da retomada do investimento, da renda e do emprego. Não mencionou uma única palavra sobre a redução do gasto público e as reformas administrativa e tributária. Um governo que se diz preocupado com os mais pobres não se comprometeu com nenhuma meta para erradicar a pobreza extrema que nos envergonha; tampouco deu alguma declaração sobre a melhoria da qualidade do ensino básico e o aprendizado das crianças e jovens como a grande alavanca de ascensão econômica e social.

Essa agenda de prioridades deveria ser tratada como política de Estado por todos os governos, não importa o partido que esteja no poder. Temos de dar continuidade às reformas iniciadas por governos passados, como é o caso do marco do saneamento básico. Mas, ao ignorar o tema nos seus pronunciamentos e não se empenhar na aprovação da regulamentação do marco do saneamento, Lula dá sinais preocupantes de que os interesses corporativistas (dos sindicatos e das estatais do saneamento) terão preferência sobre os interesses da população. A aprovação do marco do saneamento foi uma lufada de bom senso no governo passado. Deveria ser prioridade do atual governo livrar o Brasil de uma herança vergonhosa de 100 milhões de brasileiros que não têm acesso ao esgoto tratado. A regulamentação do marco do saneamento é vital para dar aos investidores a segurança jurídica necessária e permitir que o setor privado invista R$ 45 bilhões/ano para atingirmos a meta da universalização do saneamento em 2033.

Como dizia o grande dramaturgo Nelson Rodrigues, “o subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos”. No caso do Brasil, é obra de duas décadas de governos populistas e incompetentes, que não têm compromisso com dar continuidade a um projeto de país e às reformas capazes de garantir os pilares essenciais para o progresso de uma nação: abertura econômica e crescimento sustentável; Estado eficiente e disciplina fiscal; educação pública de qualidade e mobilidade social. Essa agenda mínima só se torna realidade quando os cidadãos valorizam a meritocracia, o liberalismo e a igualdade de oportunidade.

Nós somos frutos das nossas escolhas. Enquanto elegermos populistas, o Brasil continuará à deriva e se distanciando da prosperidade econômica, da democracia plena e de um futuro melhor para os nossos filhos e netos.

O Estado de São Paulo

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