Por: Tribuna da Imprensa
Dois dias depois de ter suas reservas de gás natural na Bolívia confiscadas pelo governo local, a Petrobras endureceu o discurso e anunciou ontem a suspensão de qualquer novo investimento naquele país. Mais: afirmou que não vai aceitar aumento dos preços do gás.
A empresa desistiu até da ampliação do Gasoduto Brasil-Bolívia, que elevaria em pelo menos 50% a capacidade atual transporte, de 30 milhões de metros cúbicos por dia. No caso dos preços, o presidente da estatal, José Sergio Gabrielli, afirmou que a empresa não foi informada sobre essa possibilidade e prometeu que, "se isso acontecer (reajuste), vamos recorrer à arbitragem internacional".
Segundo o executivo, depois de a YPFB (estatal perolífera boliviana) notificar a Petrobras seu interesse em elevar os preços, "abre-se um processo negocial que tem prazo de 45 dias para se encerrar. Se não houver consenso, recorreremos a arbitragem internacional, como está previsto no contrato", afirmou.
Gabrielli descartou a possibilidade de apagão ou racionamento de gás. "O abastecimento de todas as distribuidoras e indústrias que têm contratos de fornecimento está absolutamente garantido. Qualquer questionamento desta hipótese é um oportunismo político", disse.
Para ele, "a Bolívia quer e precisa manter o fornecimento de gás para o Brasil". O principal motivo é que, explicou, o gás produzido lá é associado ao óleo condensado, usado na fabricação de derivados consumidos no mercado interno boliviano, como gasolina e diesel. "Se parar de enviar gás para o Brasil, a Bolívia suspende também o atendimento ao mercado interno, porque não tem para onde escoar este gás".
Gabrielli disse ainda que existem dois tipos de contrato da Petrobras com a Bolívia. O de fornecimento de gás até 2019, a Petrobras quer manter "sob qualquer circunstância". Um segundo, que se refere à produção da estatal naquele País, é que foi profundamente alterado pelo decreto de Evo Morales.
Pelo decreto, a Petrobras passa a ter como remuneração pela atividade de exploração das reservas bolivianas apenas 18% do valor do combustível negociado. "Isso, certamente, vai apertar nossa margem (de lucro) e pode inviabilizar as operações", admitiu o diretor financeiro da Petrobrás, Almir Barbassa. Por ora, entretanto, a Petrobras descartou a possibilidade de sair da Bolívia.
Déficit
Com a decisão de suspender os futuros investimentos que faria na Bolívia, a Petrobras deverá correr contra o tempo para substituir 15 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia que atenderiam a demanda interna com o aumento da capacidade do Gasbol. Entre as alternativas possíveis, a principal é a instalação de fábricas de regaseificação, que seriam responsáveis por processar Gás Natural Liquefeito (GNL) importado. As fábricas poderiam ser viabilizadas em cerca de dois anos, disse o diretor de Gás e Energia da estatal, Ildo Sauer.
Segundo ele, este combustível teria um preço mais elevado do que o atual, mas as fábricas atuariam apenas emergencialmente para atender usinas termelétricas. "É melhor termos uma planta deste tipo, ativada a um custo elevado momentaneamente, do que manter um custo fixo mais baixo para atender térmicas que dificilmente são acionadas", disse Sauer.
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