Por: Renato Andrade (Primeira Leitura)
O Congresso resolveu absolver a maioria dos mensaleiros. O Congresso resolveu não investigar os parlamentares suspeitos de participação no esquema de desvio de verbas do Orçamento da União. São dois bons motivos para defender uma renovação maciça do quadro de deputados e senadores da República. Mas estes processos de mudanças bruscas são propícios para a entrada de novos aventureiros. Abre-se espaço para o ingresso de despreparados ou – o que é mais perigoso – daqueles com interesses nada republicanos. É sob este manto que as eleições de outubro se darão.
César Felício, do jornal Valor Econômico, assinou na edição desta sexta-feira uma reportagem que merece atenção. Entre os políticos e especialistas consultados, um prognóstico praticamente unânime surgiu: é muito alto o risco de elegerem-se em outubro parlamentares com alguma vinculação ao crime organizado ou a esquemas clandestinos.
O alerta é preocupante. Felício mostra que em São Paulo, por exemplo, é concreta a possibilidade de candidatos com algum tipo de vinculação com o transporte clandestino de passageiros serem eleitos. Parlamentares e policiais afirmam que alguns desses “perueiros” podem ter ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC), a organização criminosa que barbarizou os paulistas entre os dias 12 e 19 de maio.
A formação de uma “bancada” de representantes de grupos criminosos ou de esquemas clandestinos no Congresso não será um golpe apenas no Legislativo, mas em toda a estrutura do Estado. Se já há dificuldades em se combater a evolução do crime organizado no país, imaginem o que acontecerá se a casa das leis estiver composta por lobistas de facções criminosas.
Mas, se não houver renovação radical, estaremos numa situação não menos pior. E não somente porque teremos os mensaleiros – que em sua maioria são réus confessos de um crime – de volta aos corredores do Congresso. Teremos os demais deputados que absolveram tais corruptos. No caso dos suspeitos de participação na fraude orçamentária, o problema é ainda maior, dado que a lista de possíveis beneficiados é de 283 parlamentares.
Uma coisa é certa: não haverá a depuração necessária, e o número de parlamentares honestos e com respeito à instituição será, infelizmente, muito menor do que os oportunistas de ocasião. Basta esperar o resultado das eleições para fazermos as contas. Os mensaleiros estarão de volta. As sanguessugas também.
Vale lembrar que cabeças coroadas do Congresso estão praticamente reeleitas e foram estas mesmas cabeças que absolveram os beneficiados pelo mensalão ou participaram – ou apoiaram – da “operação Pilatos”, que jogou para a Procuradoria-Geral da República a responsabilidade de investigar os parlamentares suspeitos de participação na fraude orçamentária.
A imagem do Congresso nunca foi das melhores, mas corremos o risco de abrir 2007 com a nova Casa já desmoralizada. E mais: corremos o risco de, em meio a uma enxurrada de votos nulos e brancos, vermos eleita uma série de descomprometidos. Se não forem ligados ao crime organizado, será um alívio, mas não uma solução. A falta de compromisso de parlamentares com o Congresso é diretamente proporcional ao desrespeito do Executivo para com o Legislativo. É em um ambiente como esse que esquemas como o mensalão e o desvio de recursos públicos se dão sem maiores preocupações.
Já disse neste espaço e peço desculpas por repetir: caberá ao eleitor o penoso trabalho de evitar que os corruptos de hoje continuem vagando livres, leves e soltos sob o manto da imunidade parlamentar. Caberá também a esse mesmo eleitor evitar que os corruptos de amanhã sejam beneficiados por tal imunidade.
Por maior que seja a descrença com a política brasileira, é imperativo garimpar entre os postulantes a congressistas aqueles que podem aumentar a minoria dos honestos.
[renatoandrade@primeiraleitura.com.br]
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