* Paulo Baía
Escrevo como quem tateia no escuro de uma madrugada que não termina, buscando palavras para dar forma ao que muitas vezes se recusa a ser dito porque dói, porque assombra, porque fere. Há anos caminho por favelas e bairros periféricos do Rio de Janeiro, lugares onde a vida pulsa com uma intensidade que o asfalto não compreende, mas onde também se acumulam horrores que o olhar humano deveria ser incapaz de suportar. Ali presenciei o inimaginável, vi o inefável abrir cicatrizes na carne do cotidiano, percebi a ordem do mundo ser engolida por um caos que não nasceu ao acaso, mas cresceu alimentado pela omissão contínua do Estado e pela naturalização de um destino que nunca deveria ser aceito. É desse abismo que escrevo, com a convicção de que certas verdades não podem permanecer silenciosas.
A cidade que se anuncia nos cartões-postais jamais alcança essas colinas. Aqui impera a tirania brutal dos grupos armados que disputam corpos, territórios e rotinas. Não se trata apenas de uma presença hostil. É uma força que rege a vida diária, que controla a circulação dos moradores, que impõe regras, castigos e sentenças. O fuzil não é metáfora. É objeto concreto, visível, cotidiano. É instrumento que define limites, horários, trajetórias. Vi crianças crescerem aprendendo a diferenciar estampidos de calibres antes mesmo de aprender a ler. Vi mães se tornarem estrategistas da sobrevivência. Vi trabalhadores moldarem horários de deslocamento conforme os humores do poder paralelo. Nada disso se explica pela simples palavra violência. A violência é apenas a superfície. O subterrâneo é ainda mais devastador.
O que torna tudo mais cruel é que a população vive encurralada entre duas forças que deveriam se excluir mutuamente, mas que, na prática, reproduzem lógicas semelhantes de descontrole, corrupção e medo. De um lado, a bandidagem, com seu domínio armado, sua pedagogia do terror, sua capacidade de determinar o que pode ou não ser feito, dito, visto. De outro, forças policiais que deveriam proteger, mas que frequentemente chegam como tempestades, com desprezo pelos moradores, com arbitrariedades que fragilizam ainda mais quem já vive à margem. É uma tragédia de dupla face. O morador se vê espremido entre o risco de viver e o risco de ser salvo. Em muitas madrugadas, ouvi relatos de idosos que dormem calçados porque aprenderam que talvez precisem correr. Vi mães ensinando os filhos a identificar esconderijos nos becos. Vi trabalhadores que chegaram a celebrar a troca de turno de determinado grupo armado porque isso significava algumas horas a mais de circulação sem conflito. É um cotidiano de sobressalto e improviso. Uma coreografia da resistência.
Nesse cenário, as mulheres e meninas ocupam o centro mais profundo da vulnerabilidade. O corpo feminino, nesses territórios, é moeda, alvo, propriedade, instrumento. As violações são tantas e tão inacreditáveis que a própria linguagem se estreita. Não há sintaxe capaz de suportar o peso do que testemunhei. Não há teoria suficiente para traduzir o desamparo dessas vidas. Quando um território é comandado pela força da arma, cada viela se torna campo minado, cada casa se torna fragilizada, cada sonho se torna risco. E é justamente nessa fragilidade que se instala o medo, que alimenta, por sua vez, o poder dos criminosos. Eles sabem que no vácuo do Estado se ergue um domínio absoluto. Eles sabem que o silêncio é a primeira derrota de uma comunidade. E eles calculam, com precisão cirúrgica, cada fração dessa paralisia.
É preciso dizer, com rigor e honestidade: não haverá retomada pacífica desses territórios. Não existe solução romântica para estruturas armadas que se sustentam pela violência e pela opressão. Não há negociação capaz de desmontar arsenais de guerra. Não há diálogo possível com grupos que se alimentam do medo coletivo. A realidade é dura e inescapável: onde o Estado recua, o crime avança. Onde o Estado silencia, o crime ocupa. Onde o Estado se fragmenta, o crime se reorganiza. E, por isso, a retomada das favelas e bairros periféricos exigirá uma ação muito bem preparada das forças policiais e de segurança. A verdade é amarga, mas necessária: fuzil se enfrenta com fuzil. O poder armado só retrocede diante de outro poder armado. E qualquer tentativa de negar essa evidência corre o risco de entregar ainda mais vidas à morte lenta que se instalou nessas regiões.
Mas a força bruta, por si só, não basta. O enfrentamento ao crime só terá sentido se for acompanhado de uma transformação institucional profunda. Não há combate eficaz se as próprias estruturas estatais continuarem contaminadas por corrupção e brutalidade. Não se pode exigir que a população confie em forças que muitas vezes se comportam de maneira semelhante ao inimigo. É preciso que a responsabilidade republicana caminhe junto com a ação policial. O Estado não pode enfrentar criminosos permitindo que seus agentes se afastem da lei. Um projeto de retomada desses territórios exige uma polícia que seja capaz de representar proteção e não ameaça. Caso contrário, o ciclo de desconfiança se perpetua. De um lado, o medo do crime. De outro, o medo de quem deveria guardar a cidadania. É o duplo terror que aprisiona a cidade e corrói qualquer sensação de futuro.
Houve um momento no passado recente em que uma porção desses territórios parecia ter sido retomada. Naquele breve interstício, muitos acreditaram que o Rio de Janeiro finalmente encontrara um caminho possível. Mas a revelação de que o próprio governante que conduzia esse processo atuava como um criminoso sofisticado, capaz de saquear o Estado com precisão empresarial, destruiu não apenas a política pública, mas a esperança que vinha sendo construída. Quando a confiança é quebrada no alto da estrutura, ela se estilhaça por toda a sociedade. A população, que já vivia cercada pela violência do crime, descobriu que estava também submetida à violência das instituições. E, mais uma vez, ficou sem exemplos, sem modelos, sem referências concretas. Ficou à deriva em um mar de promessas vazias.
Em meu convívio com moradores dessas favelas e desses bairros periféricos, confirmei que o desespero tem muitas faces. Vi famílias destroçadas. Vi comunidades sitiadas. Vi crianças que jamais conheceram o significado pleno da palavra brincar. Vi adolescentes que naturalizaram a morte antes de compreenderem o sentido da vida. Vi trabalhadores que não se permitem sonhar porque sabem que o sonho pode se tornar motivo de ameaça. Tudo isso produz uma melancolia difícil de descrever. É como se a cidade, em certos pontos, respirasse com dificuldade. É como se a esperança tivesse sido sequestrada.
Ainda assim, há algo na experiência de escrever que resiste ao desalento. Talvez seja a necessidade humana de buscar sentido, mesmo quando nada parece fazer sentido. Talvez seja a insistência em acreditar que a palavra, quando usada com rigor, pode ser o início de um gesto transformador. Ou talvez seja apenas a teimosia que faz parte da alma de quem se recusa a aceitar a escuridão como destino final. Apesar de tudo, encontro algum alento na ideia de que, ao iluminar essas sombras, ainda podemos revelar frestas de luz. A cidade insiste em sobreviver. Insiste em respirar. Insiste em não se entregar por completo ao abismo que a ronda.
E é nessa insistência que deposito a possibilidade de futuro. Não o futuro fácil. Não o futuro imediato. Mas o futuro que nasce quando a verdade é dita sem ornamentos, quando a violência é enfrentada sem hipocrisia, quando a corrupção é combatida sem seletividade, quando a polícia é reformada com coragem, quando o Estado deixa de ser ausência e passa a ser presença efetiva, contínua, protetora. É nesse futuro que imagino meninas caminhando sem medo. Meninos crescendo sem aprender antes a se esconder. Mulheres vivendo sem a sombra constante da ameaça. Idosos dormindo em paz. Trabalhadores circulando sem mapas mentais de risco. Comunidades respirando sem o cheiro metálico da guerra.
Escrevo, portanto, como quem testemunha a dor, mas também como quem recusa a desistência. Porque o horror que vi não pode ser naturalizado. Porque o inefável que presenciei não pode ser silenciado. Porque o inimaginável que testemunhei não pode ser tratado como destino. A cidade ferida ainda pulsa. E enquanto pulsar haverá quem a defenda. Haverá quem a narre. Haverá quem acredite na sua possibilidade de renascer.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ