Publicado em 17 de junho de 2023 por Tribuna da Internet
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O celular era uma espécie de” arquivo ambulante” do golpe
Pedro do Coutto
Diálogos entre o tenente-coronel Mauro Cid e o coronel Jean Lawand Junior, subchefe do Estado Maior do Exército, comprovam que o ex-presidente Jair Bolsonaro vacilou e somente não deu a ordem para o golpe militar por temer a reação contrária do Alto Comando do Exército. Reportagem de O Globo, edição desta sexta-feira, com base nos diálogos obtidos através do celular de Mauro Cid revela o comprometimento do ex-presidente da República e de uma facção militar com o projeto de um golpe de Estado contra a democracia e o resultado das urnas.
O tenente-coronel Mauro Cid transforma-se assim num personagem negativamente importante na história do país; e também o coronel Jean Lawand Junior que afirmou textualmente na gravação descoberta pela Polícia Federal o seguinte: ” “Cidão, pelo amor de Deus, cara. Ele dê a ordem, que o povo está com ele. Acaba o Exército Brasileiro se esses caras não cumprirem a ordem do Comandante Supremo”, completou, referindo-se aos generais que chefiavam a Forças Armadas e ao próprio Bolsonaro
DESCONFIANÇA – Na mesma conversa, Lawand vislumbra uma prisão do ex-presidente: “Ele não pode recuar agora. Não tem nada a perder e vai acabar sendo preso”, afirmou. Mauro Cid respondeu: “Mas o presidente não pode dar uma ordem se não confia no Alto Comando do Exército”. No dia seguinte, em outro telefonema para Mauro Cid, Lawand voltou ao assunto e relatou o encontro de um amigo (não disse quem) com o general Edson Skora Rosty, subcomandante de operações terrestres que teria concordado com a investida subversiva. “Se o Exército receber ordem, cumpre prontamente”, afirmou Rosty.
A reportagem expõe a trama, incluindo a participação clara do ex-ministro Anderson Torres e a omissão calculada de diversas pessoas que tinham a seu cargo a defesa da Praça dos Três Poderes. Inclusive, a concordância com o acampamento em frente ao Quartel General de Brasília. Com as revelações contidas na reportagem, verifica-se que se aprofunda a intenção golpista do tenente-coronel Mauro Cid e dos militares com quem ele se comunicava.
Tornou-se ainda mais importante assim, a convocação de Mauro Cid pela CPI que investiga a tentativa de golpe e sua evidente vinculação com as depredações do Palácio do Planalto, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal.
ABSURDOS – O projeto da deputada Dani Cunha, incrivelmente aprovado pela Câmara Federal, bate o recorde de absurdos praticados no Brasil. Ela propõe, por exemplo, que políticos expostos às críticas públicas consigam crédito junto aos bancos. A matéria ameaça com prisão se o crédito for negado, mas não diz (ridículo) quem será preso. O gerente, o diretor ou o próprio presidente do banco?
Não vale a pena nem comentar as demais linhas que foram aprovadas. O texto não faz o menor sentido. O Senado deverá rejeitá-lo sob pena de desmoralização do próprio Congresso Nacional. Se chegar até Lula, será vetado.
MARCOS DO VAL – Outro fato negativo para o parlamento do país foi a busca e a apreensão da Polícia Federal realizada no gabinete do senador Marcos do Val em Brasília e até em sua residência em Vitória. O senador apresentou-se para uma entrevista na GloboNews, misturando versões e dizendo praticamente que o ministro Alexandre de Moraes, em conversa com ele, o estimulou para participar de uma reunião golpista com Jair Bolsonaro para se transformar em testemunha da tentativa de golpe.
As suas versões sobre o fato, diferentes entre si, foram refutadas firme e diretamente pela jornalista Natuza Nery no programa Jornal das 18h, apresentado por César Tralli. Os desencontros do senador até com os locais da reunião com Bolsonaro são diversos. O senador Marcos do Val, entretanto, aparentava bom humor e tranquilidade.
LOTERIAS – Rafael Soares, em reportagem na edição de ontem de O Globo, destaca que a corrupção no futebol em função das loterias esportivas está revelando uma dimensão bem maior do que o esperado. Investigações da Polícia Federal estão se desenvolvendo em cinco estados, envolvendo jogadores de diversos clubes.
O sistema colocado em prática pelas loterias proporciona as mais diversas apostas, o que facilita o desencadeamento da corrupção. Em matéria de jogo bancado e de corrupção, a consequência é que recursos que se destinariam ao consumo são transferidos para as apostas. Eu falei em jogo bancado, isso porque os prêmios não são decorrentes de rateio como no Jóquei Clube. São pagos de acordo com a escala oferecida pelas próprias loterias. Então, um pênalti vale tanto, uma falta perto da área vale menos, um gol em determinada faixa de tempo pode ter uma cotação maior.
INFLAÇÃO – Manuel Ventura e Renan Monteiro, O Globo desta sexta-feira, focalizam divergências que surgiram quanto ao período do cálculo de inflação para efeito de gastos públicos dentro do projeto da nova âncora fiscal do país. Fernando Haddad e Simone Tebet defendem que o cálculo da inflação para efeitos dos gastos públicos seja baseado no IPCA do IBGE.
Fica estabelecido um período de comparação trimestral e com base nas diferenças são fixados os limites das despesas. É só definir a partir de qual trimestre passa a valer a comparação. Mas aproveito o fato para destacar um ponto que julgo importante. Muitas pessoas dizem que se a inflação no segundo trimestre foi de 4% e no primeiro de 5%, houve uma redução. Nada disso. Ao contrário, houve uma adição.
Há pouco falei no Jóquei Clube. Vamos dar um exemplo. Se alguém vai às corridas no domingo e perde R$ 100 nas apostas, se no domingo seguinte retorna e perde R$ 50, sua perda não baixou, mas sim subiu. Era de R$ 100 e passou a ser de R$ 150. A perda só seria zerada se o apostador nos segundo domingo obtivesse um lucro de R$ 100 que anularia o prejuízo do primeiro domingo. Assim, a inflação não é substituível, mas aditiva. Os preços sobem sem parar e se somam-se uns aos outros.