quarta-feira, fevereiro 02, 2022

O xadrez de Bolsonaro




Presidente joga a bomba no ar, a Federação e as instituições que se virem para desarmar

Por Eliane Cantânhede* (foto)

Bem que alguns ministros queriam tirar o protagonismo do Supremo no ano eleitoral, mas a realidade não permite. Tão vilipendiada nestes novos tempos, ela, a realidade, perde daqui e dali para as fake news, mas, no geral, ainda se sobrepõe às vontades e maquinações.

A nova crise com o Planalto é pelo “direito ao silêncio” do presidente Jair Bolsonaro sobre o vazamento ilegal de um processo sigiloso da Polícia Federal, mas não é única. A pauta do Supremo é recheada de temas ligados direta ou indiretamente a Bolsonaro.

São cinco inquéritos contra ele: vazamento ilegal do inquérito da PF, prevaricação nas vacinas da Covaxin, ataques às urnas eletrônicas, fake news associando vacinas contra a covid à aids e o primeiro deles, por interferência política na PF. São graves, mas não devem dar em nada, porque a eleição está bem aí à frente e o Supremo não vai incendiar o País, com economia patinando e miséria grassando.

Há ainda casos que envolvem interesses conflitantes do governo, da sociedade e do País, como o marco regulatório das terras indígenas, a ferrovia Ferrogrão e as rachadinhas – o alvo é outro, mas qualquer decisão resvalará para o 01, senador Flávio Bolsonaro.

E há uma sucessão de provocações de Bolsonaro para cutucar adversários, jogar governadores, prefeitos e os próprios ministros do STF contra a parede e só ele se dar bem. Esse jogo de xadrez não sai da cabeça de Bolsonaro, mas de filhos e articuladores de fake news, ataques baixos e contrainformação. Tudo bem calculado e amplificado pelas redes bolsonaristas.

Exemplo fresquinho e didático: Bolsonaro, que se esbaldou de jet ski enquanto a Bahia afundava em tragédia, anunciou ontem que visitará São Paulo. A armadilha é que João Doria e os críticos do presidente não podem elogiar nem condenar. Seria fazer o jogo dele em qualquer hipótese.

Bolsonaro nunca tem nada a ver com preços, tragédias, crise social, ambiental, da educação, da saúde... Joga sempre para governadores, adversários, mídia, Supremo. Ele fez tudo errado na pandemia? A culpa é deles. Denunciou a urna eletrônica? Eles reagiram. Lutou pelo marco temporal? Eles vetam.

Bolsonaro teve de recuar da intervenção nos preços da Petrobras e pôs a culpa no ICMS, logo, nos governadores. E, depois de jogar a bomba dos 33,24% no piso salarial dos professores, diverte-se com a reação de governadores e prefeitos e a saia-justa do Supremo. Todo mundo defende os professores, mas sem explodir as contas públicas. Bolsonaro cria o problema, a Federação e as instituições que se virem para consertar e explicar o óbvio.

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA

O Estado de São Paulo

Em destaque

Financial Times diz que crise no Supremo será fator decisivo nesta eleição

Publicado em 15 de setembro de 2026 por Tribuna da Internet Facebook Twitter WhatsApp Email Jornal britânico ressalta ‘crise sem precedentes...

Mais visitadas