Efraim Rodrigues
Há alguns dias, a pergunta de uma repórter pegou-me totalmente desprevenido.
– Qual a sua opinião sobre a campanha do ONG SOS Mata Atlântica para que as pessoas façam xixi no banho e economizem água do vaso sanitário?
Escrevo, aqui, justamente sobre o que passou pela minha cabeça nos poucos segundos disponíveis. De cara me veio o óbvio: crise da água e cidadãos alienados. Cada descarga gasta doze litros de água. O Brasil tem quase 200 milhões de habitantes. Não havia tempo para fazer a conta, mas deve ser muita água. Eu próprio pratico isso, mas quantas pessoas querem fazer xixi justamente durante o banho? Lembrei de um ambientalista que me apontou o jardim quando perguntei onde ficava o banheiro.
– Só se o assunto não for sério – disse-me, mostrando os limites de seu comprometimento ambiental.
O desperdício de água nas residências afronta a ética ambiental, mas não é onde mora o perigo. A agricultura consome 32% da água do mundo e as cidades 6%. Você economiza muito mais água comprando alimentos de época (que não precisam de irrigação) do que fechando a torneira enquanto escova o dente. É ainda melhor se fizer ambos.
Nosso problema com a água não é de falta. É de excesso. A América Latina tem 28% da água doce do planeta e somente 6% da população. Esta bonança nos faz usar a solução primitiva de usar água limpa para diluir cocô. Dados divulgados recentemente pelo Instituto Trata Brasil mostram que lançamos 5,4 bilhões de litros de esgoto por dia em nossos rios: 85% do xixi que o país faz, seja no banho ou no vaso, são lançados in natura.
A campanha da ONG enfoca uma questão válida, mas menor. Trataria com respeito um aluno que dissesse isso em uma sala de aula, mas mesmo ali tentaria conduzir seu entusiasmo para causas mais relevantes.
A SOS Mata Atlântica é uma organização de abrangência e respeito nacionais que está usando seu prestígio para falar de algo pequeno, deixando o importante de lado. Será que além de já termos uma mídia que evita falar mal de seu principal anunciante (o governo), também agora as ONGs não colocarão o dedo na ferida para evitar magoar suas fontes governamentais de recursos?
A única força das ONGs é serem um poder paralelo, eficiente e próximo ao cidadão. Se não cumprirem esse papel, estão fazendo xixi no próprio pé.
Efraim Rodrigues é professor de Recursos Naturais da UEL e consultor de um programa de conservação da FAO/ONU.
Fonte: Gazeta do Povo
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