Por: Carlos Chagas
BRASÍLIA - Reúnem-se esta semana, em Brasília, o PMDB da Câmara e o PMDB do Senado, por sugestão de José Sarney e com o apoio de Michel Temer. Será mais uma demonstração de força do partido, igual ao daqueles orangotangos que batem no peito e berram para que a floresta inteira trema de medo. Só que tem um problema: esses nossos ancestrais não estão na floresta, mas no jardim zoológico. Na jaula.
Seria bom que o PMDB tomasse algumas cápsulas de humildade e abandonasse a postura de dono do Congresso e chave da sucessão presidencial. Porque se o partido detém maioria parlamentar e maior número de governadores, prefeitos e vereadores, sentindo-se desde já cortejado pelo governo, de um lado, e pela oposição de outro, nada garante que para onde se inclinar abrirá as portas do palácio do Planalto. É claro que tanto Dilma Rousseff quanto José Serra, e até Aécio Neves, clamam pelo seu apoio. Mas o PMDB arrisca-se a quebrar a cara se ficar desde já posando de Miss Universo, exigindo compensações prévias, chefia da Casa Civil, para uma, e ministérios sem conta, para outro.
Existe uma carta de alforria para o governo livrar-se dessa tutela antecipada, tanto quanto para os tucanos voarem alto, livres dos petardos peemedebistas. Chama-se voto presidencial direto, ironicamente capaz de ser usado contra a legenda que comandou uma das mais bonitas campanhas de nossa história política, as "diretas já". Porque votos para a presidência da República o PMDB não tem. Nem candidatos. Perdeu com seu maior ícone, o dr. Ulysses. Depois, com Orestes Quércia. Absteve-se na reeleição do sociólogo. Em seguida apoiou José Serra e assistiu à vitória do Lula. Só agora, em 2006, uniu-se aos companheiros para o segundo mandato do atual presidente.
Traduzindo: se o PMDB ficar exigindo mundos e fundos por antecipação, perderá os dois candidatos hoje na disputa, e vai fazer o quê? Lançar Sarney ou Michel? Em especial se o presidente Lula perceber que não ganha com Dilma, com ou sem a companhia de Geddel Vieira Lima, e decidir que o povo livre pode exigir quantas reeleições quiser, como falou na Venezuela para reforçar Hugo Chávez...
Em suma, o orangotango baterá no peito outra vez, esta semana, mas se olhar direito verá o cadeado fechando as grades.
O ministro e o embaixador
Em setembro o ministro Edison Lobão recebeu o embaixador dos Estados Unidos em seu gabinete. Depois dos assuntos específicos ligados às minas e à energia, passaram para a política. O gringo indagou quem seria o presidente do Senado e Lobão respondeu com uma única palavra: "Sarney". O embaixador contestou, contou haver conversado pouco antes com o ex-presidente, que garantira não ser candidato, mas o ministro nada mais acrescentou. A mesma conversa aconteceu no começo do ano, com a mesma resposta e as mesmas ponderações. Coincidência ou não, o embaixador não apareceu mais.
Ainda não
Outra do ministro das Minas e Energia: estava com o presidente Lula e outros ministros no interior da Bolívia, para encontro com Evo Morales. Fora da agenda o presidente boliviano convidou o colega brasileiro para inaugurar uma escola, alguns quilômetros adiante. Fazia um calor de rachar e Edison Lobão, Nelson Jobim e alguns auxiliares refugiaram-se dentro de uma van refrigerada, afastando-se da comitiva.
O ministro da Defesa não resistiu à tentação de provocar: "Lobão, você tinha que ter ido!"
Resposta em dois tempos: "Eu não sou presidente."
E um minuto depois: "Ainda..."
Só se engana quem quer
Dá um pouco de dó assistir ao governo e ao empresariado estrilando por conta das medidas protecionistas adotadas pelos Estados Unidos e a União Européia para enfrentarem a crise econômica. Primeiro porque nada de novo acontece sob o sol. Há quantos milênios a prática vem sendo a mesma? Podem ter mudado os métodos, sempre mais sofisticados, mas o objetivo segue igual: proteger suas estruturas, seu modo de vida e seus lucros.
Agora que dificuldades imprevistas abalaram a economia do planeta inteiro, mais as nações ricas procuram defender-se. Não poderia ser diferente. A sustentação dos próprios interesses continua fundamental para a sobrevivência delas. E para nós, também.
Em vez de protestar e de fazer-nos de vítimas, deveríamos estar seguindo o mesmo exemplo. Proteger-nos, mesmo diante de dificuldades bem maiores. Sempre existirão mecanismos compensatórios, se param de comprar o aço produzido no Brasil ou se interrompem a importação de nossos produtos e commodities. Necessário se torna procurá-los, em vez das lamentações.
O castelo era cassino
Descobre-se, agora, o segredo de Polichinelo: o tal castelo do deputado era um cassino, em funcionamento anos atrás, claro que também como hotel. Porque a ninguém seria dado pensar que o já agora ex-vice-presidente da Câmara, Edmar Moreira, havia construído aquela maravilha apenas para morar. O que as autoridades policiais de Minas precisam esclarecer, se quiserem e se puderem, é quando foi a inauguração e por quanto tempo o castelo funcionou entre roletas, panos verdes e sucedâneos. E mais: quais foram os seus frequentadores, de onde provinham e quanto teriam deixado lá.
Se funcionou experimentalmente, apenas por pouco tempo, quem deu licença, se é que deram? Se o período de funcionamento levou um bom tempo, quem sabia?
Em toda essa história de horror, onde nem mesmo falta aparecer o Drácula, uma solução parece óbvia: para não deixar que o castelo apodreça, devem o governo federal e o governo de Minas tratar de desapropriar o imóvel o mais breve possível. Motivos não faltam, muito menos prerrogativas para o poder público agir. E rápido, antes que uma dessas singulares igrejas evangélicas faça o lance e compre o castelo, para transformá-lo no tempo sabe-se lá de que...
Fonte: Tribuna da Imprensa
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