Publicado em 15 de junho de 2023 por Tribuna da Internet
Pedro do Coutto
No início da noite de terça-feira, na GloboNews, programa apresentado por César Tralli, Fernando Gabeira apresentou a sua previsão de que o Tribunal Superior Eleitoral irá considerar Bolsonaro inelegível no julgamento marcado para a próxima semana pela margem de seis votos a um ou sete votos a zero, dependendo do posicionamento do ministro Nunes Marques diante da matéria.
Fernando Gabeira lembrou como argumento para a sua dúvida que Nunes Marques foi nomeado para o Supremo Tribunal Federal pelo ex-presidente da República e nessa condição integra no momento a Justiça Eleitoral.
Gabeira por sua lucidez, sua lógica desapaixonada, a meu ver desempenha na televisão brasileira o papel que Carlos Castelo Branco desempenhou no Jornal do Brasil no passado, capacidade de traduzir os fatos, não se limitando à superfície, mas mergulhando e traduzindo as situações e os sinais capazes de indicar os rumos políticos. Presença, portanto, extremamente importante no Jornalismo.
ANÁLISES – Aliás, os analistas políticos não devem se ater às águas da superfície, mas com base em suas experiências transmitir aos leitores e leitoras pontos que possam passar despercebidos e que pertencem às oscilações do processo político que, acrescento, refletem com intensidade o próprio comportamento humano. As dúvidas, incertezas, as contradições, os interesses pessoais ou de grupos; política é tudo isso. No fundo, um conjunto de técnicas e observação através das lentes da emoção e dos impulsos que ela gera e incorpora.
Políticos, no fundo, somos todos nós. Em quaisquer situações humanas. Política é também sinônimo de polidez, uma luta muitas vezes sem sangue, como alguém já disse na história. Visão política é a certeza, como em 1965 definiu o professor Alceu Amoroso Lima em artigo no Jornal do Brasil, de que o candidato ideal não existe.
DANIELA CARNEIRO – O presidente Lula da Silva resistiu à investida do União Brasil que está pressionando para substituir a ministra do Turismo, Daniela Carneiro, pelo deputado Celso Sabino que, segundo os seus apoiadores, representa a corrente política ao contrário de Daniela Carneiro que está deixando a legenda para ingressar em outro partido.
Ampla reportagem de Jennifer Gularte, Alice Cravo, Camila Turtelli, Bruno Góis, Gabriel Sabóia, Sérgio Roxo e Paola Serra, O Globo desta quarta-feira, focaliza o conflito e destaca que a deputada federal mais votada pelo Rio de Janeiro permanecerá no cargo, pois o presidente da República não deseja desmontar a base que estruturou na Baixada Fluminense, incluindo o apoio do prefeito de Belford Roxo, Waguinho, marido da ministra.
Na minha opinião, além deste aspecto importante para as eleições municipais do próximo ano, existe um fator que está influindo: Lula sabe que se mexer na composição do Ministério, mudando um cargo por pressão de grupos, as cobranças para outras substituições vão surgir e obrigá-lo a dispensar longo tempo enfrentando e administrando interesses adormecidos.
RESISTÊNCIA – Assim, penso, resistindo ao União Brasil, que aliás está bem representado no Ministério, Lula mantém uma independência necessária para poder governar sem crises maiores e manter o êxito que vem obtendo nas votações, apesar de análises que o consideram atingido por derrotas.
Até o momento, não percebo que derrotas são essas, exceto o caso das emendas de Isnaldo Bulhões que esvaziaram os Ministérios do Meio Ambiente e dos Povos Indígenas. Mas serão vetadas por Lula, conforme ele próprio já anunciou. O problema será apenas manter os vetos no Congresso.
LIVES – Na terça-feira, o presidente Lula da Silva começou um programa de lives para divulgar a sua administração. Reportagem de Marlen Couto, O Globo, focaliza a iniciativa e acentua uma baixa audiência de cerca de 309 mil visualizações no facebook. O índice foi considerado baixo, mas é preciso dizer que deu margem à reprodução e comentários na GloboNews e na TV Globo.
Na live de estreia, Lula se dirigiu ao Agronegócio quando condenou as invasões de terras e ao mesmo tempo falou sobre o seu projeto de reforma agrária. O tema, inclusive, foi o principal da sucessão de 1960 e que envolveu o governo João Goulart quando João Pinheiro Neto comandou a Supra (Superintendência da Reforma Agrária). O problema não avançou no tempo, como era esperado. Mesmo incluído o Estatuto da Terra do ministro Roberto Campos, implantado em 1965, no governo Castello Branco.
O presidente Lula deve, segundo penso, visitar e analisar o Estatuto da Terra, iniciativa capitalista da reforma para mostrar que o projeto a ser colocado em prática, finalmente, não tem como objetivo desapropriar fazendas produtivas, mas sim tornar produtivas áreas públicas que interessem ao MST. A invasão pela invasão nada resolve, sobretudo porque as técnicas de produção avançaram tanto em 63 anos que tornam as invasões absolutamente inviáveis sem os equipamentos modernos. Esses sim, a serem financiados pelo governo.
LOJAS AMERICANAS – Excelente reportagem de Vitória Abel, Ivan Martinez-Vargas e Cássia Almeida, O Globo de ontem, quarta-feira, com base no depoimento do atual diretor da empresa, Leonardo Coelho Pereira, à CPI da Câmara, revela que a empresa reconhece a fraude, culpa os ex-diretores e também as empresas auditoras responsáveis pelas análises dos balanços de 2016 para cá.
As falsificações estão sendo interpretadas pelo mercado, inclusive, como noticiou Lauro Jardim, O Globo, como sinal de que Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, só poderiam estar a par dos fatos. Afinal de contas, são bilionários e acionistas controladores da empresa.
Há alguns meses, os empresários publicaram páginas publicitárias dizendo que não sabiam de nada. Se eles não sabiam de nada, é impossível que pudessem ignorar o que estava se repetindo desde 2016. A contestação também deixa no ar a necessidade de um esclarecimento das empresas responsáveis pela auditoria que assinaram os balanços.
MAURO CID E TORRES – O deputado Arthur Maia, presidente da CPI do Congresso que investiga a investida de um golpe contra a democracia e o resultado das urnas, convocou os depoimentos do tenente-coronel Mauro Cid e do ex-ministro Anderson Torres, apontados como detentores de informações essenciais sobre a trama que incluiu a invasão e as depredações de Brasília em 8 de janeiro.
A Polícia Federal conseguiu chegar aos diálogos mantidos por Mauro Cid com pessoas envolvidas na trama. Por esse fato e por outras atuações, incluindo as joias sauditas, o tenente-coronel, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, complicou-se fortemente, assim como também complicado está Anderson Torres, ex-secretário de Segurança de Brasília.