
Braga Netto transfere aos outros a culpa pelos seus erros
Carlos Newton
Era esperado que não desse certo a intervenção militar na segurança do Rio de Janeiro, decretada em fevereiro, quando o presidente Michel Temer ainda sonhava com a reeleição. Mas tinha-se a esperança de que a situação melhorasse um pouco, até mesmo pelo volume extra de recursos liberados pelo governo federal. Mas o que se viu foi um fracasso absurdo, com o interventor militar, general Braga Netto, culpando o governo estadual por não ter conseguido fazer as licitações.
LICITAÇÕES – “O problema é que o Estado desaprendeu a realizar o processo licitatório. A primeira coisa a fazer é especificar o que se quer. Muitas vezes eles não sabiam o que queriam. Precisavam, por exemplo, de pistolas. Mas não sabiam a marca, há necessidade de especificar o modelo”, disse o general a O Globo, como se não fosse ele próprio o responsável pela licitação, pois era sua equipe que tinha de escolher o modelo de pistola, não o governo estadual. E o general, que diz ter dado “cursos de licitações ao Estado”, nem sabe que é proibido especificar a marca…
A entrevista de Braga Netto é festival de arrogância, soberba e desfaçatez. O governo federal liberou R$ 1,2 bilhão para serem gastos até 31 de dezembro. O ano está acabando e até agora somente foram empenhados 39% deste total. Os 61% restantes têm de ser empenhados até a noite do réveillon ou serão devolvidos ao Tesouro Nacional.
VIAGENS AO EXTERIOR – Nas contas do surpreendente interventor, serão devolvidos, no mínimo, R$ 240 milhões, mas este total deverá ser bem maior. E se o general mostrou dificuldades para gastar as verbas de que o Rio de Janeiro tanto carece, na verdade não teve problemas para destinar R$ 447 mil para pagamento de viagens ao exterior, com diárias e hospedagem, tudo em sigilo, sem revelar quantas pessoas viajaram e o que fizeram. O único resultado dessas viagens foi a compra de blindados leves italianos, que ninguém sabe se poderão ser utilizados pela PM ou serão incorporados ao patrimônio do Exército.
É bem diferente da postura adotada pelo governador eleito Wilson Witzel (PSC), que viajou para Israel e para a Inglaterra, gastando recursos próprios, para conhecer novos métodos e equipamentos de combate ao crime, que serão adotados no Rio de Janeiro.
E FALA DEMAIS… – O mais impressionante foram as críticas do interventor ao próprio Witzel, intrometendo-se na área de competência específica do futuro governador, que tem se portado de forma elegante, sem ter apontado o evidente fracasso da intervenção militar.
Além de criticar decisões administrativas do novo governador, o general Braga Netto ironizou uma das propostas dele: “Não tenho atirador meu, posicionado, escondido, esperando para eliminar um elemento que está parado, só porque ele está com um fuzil”.
Como se vê, o general, que nunca esteve numa guerra de verdade, passou 11 meses comandando o enfrentamento às forças da criminalidade no Rio de Janeiro e não conseguiu perceber que por aqui está sendo travada uma guerra. Ou seja, além de arrogante, Braga Netto é também distraído.
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P.S. – Com os mais de R$240 milhões que serão devolvidos, poderiam ser comprados modernos coletes à prova de bala, fuzis e pistolas de última geração e muita coisa mais. Porém, o general especialista em licitações esqueceu de fazer os empenhos… (C.N.)
P.S. – Com os mais de R$240 milhões que serão devolvidos, poderiam ser comprados modernos coletes à prova de bala, fuzis e pistolas de última geração e muita coisa mais. Porém, o general especialista em licitações esqueceu de fazer os empenhos… (C.N.)