quinta-feira, dezembro 27, 2018

Esqueça a popularidade, presidente, caso contrário não conseguirá fazer nada


Resultado de imagem para bolsonaro charges
Charge do Thomate (Arquivo Google)
Fernando SchülerFolha
O governo Temer é um mistério. É inegável que ele sai deixando um país melhor do que recebeu. O ponto é que Temer termina seu governo com desaprovação recorde em nossa história recente — uma rejeição que já chegou a 85%.
Não há nada marcado na história ou na teoria democrática que obrigue as pessoas a gostarem de um governante, por melhor que tenha sido seu desempenho. É possível que a imensa maioria das pessoas diga, simplesmente: “OK, ele recolocou o país nos trilhos, fez reformas importantes, colocou a inflação sob controle, etc”. Mas não importa. Não vamos com a cara dele e ponto final. De minha parte, desconfio que o problema seja mais complicado.
DESINFORMAÇÃO – A péssima avaliação do governo Temer diz muito não apenas sobre o Brasil, mas sobre um traço há muito conhecido da democracia: o eleitor não tem muito incentivo para buscar informação ou agir com responsabilidade, no mundo político.
No caso de Temer, é relativamente fácil mostrar isso. Pesquisa do Ibope mostrou não apenas que as pessoas desaprovam o presidente, mas que 89% reprovam a política de juros do governo. Vejam bem: tudo isto quando a taxa básica de juros já estava há bom tempo no menor patamar da série histórica.
Ou seja, o governo é desaprovado naquilo que ele fez de melhor. Não há nada de muito surpreendente nisso. É apenas um exemplo do que o cientista político Anthony Downs chamou, nos anos 1950, da ignorância racional do eleitor.
CUSTO MAIS ALTO – As pessoas tendem a tratar a informação com seriedade quando, por exemplo, estão doentes, vão ao médico e tomam direito o remédio. Elas fazem isto simplesmente porque o custo de agir diferente é muito alto.
No mundo da política, ao contrário, o custo de dizer uma bobagem tende à zero. O entrevistador chega na sua casa e pergunta: “O que você acha da política de controle da inflação, do governo Temer?” Você pode até ter uma vaga ideia de que a taxa de inflação está abaixo da meta, mas não vai dar mole para este presidente infeliz. “Sou contra”, lasca. Algum problema com isso? Nenhum, o pesquisador vai embora e a vida segue.
Este é um dos traços mais fascinantes da democracia. O eleitor, sempre tão paparicado, que agora anda vociferando virtuoso na internet, é, no fundo, igual ou pior do que os políticos que tanto critica.
CRÍTICA POLÍTICA – O mesmo vale para boa parte da crítica política. Ainda esta semana, lia uma matéria tratando da relação entre Temer e nossa recente crise econômica. A matéria tentava relacionar o aumento da pobreza, no Brasil dos últimos dois anos, com a PEC do teto, aprovada no final de 2016.
Até mesmo os problemas da educação brasileira, que se arrastam há décadas, surgiam atrelados ao teto de gastos. “Se coloca um teto, não se pode mexer nos salários”, dizia um entrevistado, aparentemente sem ficar vermelho.
Observe-se o limite do absurdo. Os dados consolidados sobre o aumento da pobreza são de 2017; a PEC do Teto foi aprovada no final de 2016. Para os autores da tese, algo de fato incrível teria acontecido: uma vez aprovada a PEC, a pobreza automaticamente teria começado a aumentar país afora.
EFEITO ANTECIPADO – Aliás, já prevendo a aprovação da PEC, as pessoas teriam se antecipado e tratado de começar a empobrecer mesmo antes, em 2015 e 2016.
Basta observarmos os dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), que registra a geração de empregos no Brasil, para observar que o grosso da queda do emprego ocorreu exatamente entre 2015 e 2016, e que, a partir daí, com a retomada dos fundamentos da economia, PEC do teto, rigor fiscal, controle inflacionário, e um conjunto de reformas (ainda tímido), o país voltou a recuperar empregos e a crescer, ainda que muito lentamente.
Conto esta história, afinal bastante conhecida, para dizer o seguinte: talvez nossa democracia pudesse melhorar se as pessoas lidassem com um pouco mais de responsabilidade com a informação sobre a coisa pública.
ALGO A PERDER – Não é uma tarefa simples, por uma singela razão: nenhuma dessas pessoas ganhará, individualmente, nada com isso. Ao contrário, cada um terá eventualmente algo a perder.
O sujeito terá que explicar, por exemplo, a uma plateia eventualmente hostil, que o teto de gastos não obriga a cortar investimentos sociais, que não há problema algum em aumentar a verba para educação, mas que será preciso saber de onde virá o recurso. Dizer que o cobertor é curto, que dinheiro não dá em árvore, que é preciso cortar de um lugar para colocar em outro. Coisas assim, terríveis, desagradáveis.
Lidar com responsabilidade, na esfera pública, talvez seja, no fundo, um ato de generosidade. Ele não obriga ninguém a abrir mão de suas convicções, mas incentiva a todos a um saudável senso de realidade. Algo que pode nos aproximar e melhorar a qualidade do debate público.
E A INTERNET? – OK, isto não vai acontecer. A internet veio para dar mais poder e informação às pessoas, mas não mudou em nada o seu incentivo para usar estas coisas com responsabilidade.
De forma que ninguém deve perder muito o sono em função de índices de popularidade. Se Temer tivesse se preocupado com isso, desconfio que não teria obtido os ganhos que obteve, em seu governo. E se Bolsonaro se preocupar muito, não fará as reformas que o país precisa que ele faça.

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas