segunda-feira, maio 03, 2010

A democracia ameaçada

Tasso Franco

Em qualquer democracia em pleno estado de direito cabe ao presidente da República, chefe supremo da Nação, dar o exemplo e respeitar as leis. Esse é o princípio básico. O exemplo parte de quem tem mais poder para que as instituições sejam fortes, independentes, cumpram seus papéis na sociedade, e os cidadãos, a base da pirâmide, possam seguir as normais constitucionais. Na família, nas empresas, nas repartições públicas é a mesma coisa: os filhos seguem os exemplos dos pais, os servidores, dos seus chefes e assim sucessivamente.

No momento em que há uma quebra da hierarquia, que são rompidas essas regras, como fez o presidente Lula ao participar de uma festa política da Força Sindical no 1º de maio para reforçar a candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República, em São Paulo, isso com patrocínio de empresas públicas, a democracia passa a ser ameaçada. E mancha-se a imagem de um presidente que é apontado como uma das personalidades mais importantes do mundo atual.

Pode ser até bom para Dilma. Mas não é bom para Lula, nem para o Brasil, nem muito menos para o fortalecimento da democracia nacional. Lula cresceu muito aos olhos da opinião pública e no cenário nacional quando rejeitou a proposta de um “golpe branco” permitindo que participasse de um terceiro mandato, inclusive com incentivos de deputados federais da Bahia, do PT, e do sergipano Jackson Barreto, autor de uma proposta de emenda constitucional. Naquele momento, ao dizer não e manter as regras das eleições, aproximou-se da posição de estadista.

Agora, ao subir no palanque da Força para dizer que todo mundo sabe quem ele deseja para presidente da República, ao lado de Dilma, e também utilizar o horário nacional da rede de televisão para exaltar aspectos do seu governo pregando a continuidade, também remetendo implicitamente a Dilma, o presidente perde essa condição de estadista e não faz jus à imagem que desfruta no Brasil e no exterior. Não chega a ser um “ilícito administrativo” como classificou o advogado do PSDB, Ricardo Penteado, que vai ajuizar uma ação junto ao TSE nesta segunda-feira, 3. Mas é algo grave.

Claro que esse assunto vai render e muito. Os gastos em São Paulo com as centrais nas festas de 1º de maio somaram R$1 milhão e 720 mil, sendo que a Petrobras, Banco do Brasil, CEF, BNDES, Eletrobrás e Infraero gastaram R$950 mil com a CUT; CEF e Banco do Brasil gastaram mais R$550 mil com a Força-CGTB; e R$260 mil foram bancados pela Petrobras, CEF e BB para a UGT, CTB e Nova Força.

Ora, em sendo dinheiro público, nosso dinheiro, porque é do contribuinte, meu, seu, de todos nós, não caberia ser “investido” em ato político. Em oito anos de governo, Lula nunca tinha ido a uma festa das centrais no 1º de maio. Agora, além de estar presente, levou consigo Dilma e sua “entourage” política, atingindo, assim, as normas constitucionais. Um péssimo exemplo para a democracia. De degrau em degrau é assim que, se não houver reação à altura do TSE, as instituições se fragilizam e instala-se um novo regime.

Fonte: Tribuna da Bahia

Em destaque

Aliados de Lula defendem que ele não indique novo nome ao STF neste ano

  Aliados de Lula defendem que ele não indique novo nome ao STF neste ano Ala teme que o presidente sofra nova derrota e sugere que cadeira ...

Mais visitadas