sexta-feira, maio 28, 2010

Entrevistas demais cansam

Carlos Chagas

“Tudo o que é demais faz mal, até pão” – ensinavam nossos avós. Seria bom os candidatos presidenciais tomarem cuidado. A cada momento que ligamos o rádio, nas capitais ou no interior, ouvimos entrevistas de Dilma Roussef, José Serra e Marina Silva. Das grandes cadeias radiofônicas ao alto-falante da praça da igreja, estão lá os pretendentes ao poder respondendo a todo tipo de perguntas. Na televisão, a mesma coisa. Não apenas são questionados pelos âncoras e comentaristas ortodoxos, mas prestam-se a comparecer a singulares programas que oscilam entre o cômico e o grotesco. Só falta mesmo serem entrevistados pela Xuxa e concorrentes, nos horários dedicados aos baixinhos.

Dirão os técnicos em comunicação tratar-se de um sinal dos tempos, da comprovação do domínio da mídia eletrônica sobre a população. Passou o tempo dos comícios e do diálogo direto com o eleitorado. Só que tudo tem limite. Já se escuta o lamento de ouvintes e telespectadores, na base do “de novo esses caras”, quando acionam as teclas de seus aparelhos.

Constitui moeda de prestígio, nas emissoras, levar os candidatos a seus estúdios. Até mesmo uma certa presunção de intimidade dos profissionais com o poder futuro. Convenhamos, porém, está sendo demais. Deveriam preservar-se, os candidatos, porque começam a repetir-se, ao menos enquanto não divulgam seus programas de governo.

Nomear e demitir

Lição de décadas atrás era ministrada por Tancredo Neves, Amaral Peixoto, Antônio Carlos Magalhães e outros catedráticos: “jamais nomear quem não se pode demitir”. Dá sempre confusão quando o chefe se vê envolto em divergências com subordinados que se julgam intocáveis. Aqui mesmo, lembram-se todos do conflito quase armado que envolveu o presidente Ernesto Geisel e seu ministro do Exército, Silvio Frota.

Repete-se a situação nos Estados Unidos. O presidente Barack Obama nomeou sua ex-adversária Hillary Clinton para Secretária de Estado. Agora, divergem. Se foi Obama que sugeriu ao Lula celebrar acordo com os aiatolás, como Hillary sentiu-se capaz de desautorizar e desmontar tudo, sobrando até desconsiderações para com o Brasil?

Teria o presidente dos Estados Unidos condições de admoestar e até demitir a candidata que derrotou na convenção do Partido Democrata? Seria atingido pelo desgaste? Pelo jeito, nomeou quem não pode demitir…

Outra vez, o diploma

Através de uma comissão especial, volta a Câmara dos Deputados a debater a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. Pode levar semanas, meses ou mais, para uma conclusão, tamanhas as divergências de opinião, situando em lados opostos parlamentares, ministros dos tribunais superiores, universidades, empresas e até jornalistas.

Haveria que meditar, no entanto, sobre o argumento levantado pelos adversários do diploma: sustentam que escrever é dom que nasce com o indivíduo, tornando-se injusto e cruel negar esse direito, na imprensa, a quem não cursou a universidade.

O problema é que o “seu” Manoel, do açougue ali da esquina, é um craque na arte de cortar carne. Tira cada costela, cada filé de dar água na boca. Por conta disso deveria ser autorizado a entrar num hospital e operar alguém de apendicite? E o camelô da estação rodoviária, um mestre na arte da palavra, capaz de vender tudo o que apregoa em sua banca, estaria autorizado a vestir a beca e defender uma causa, no Supremo Tribunal Federal?

Levou séculos para os curandeiros serem proibidos de exercer a Medicina, por conta da criação de universidades e da exigência do diploma de médico. Outro tanto para os advogados exercerem a profissão, agora até sujeitos a exames pela Ordem, depois de passarem pelas faculdades.

Saber escrever é um dom, não estando ninguém proibido de ver seus textos publicados nos jornais. Apenas, sem o diploma, o farão como colaboradores, não como jornalistas, profissão nem melhor nem pior que a de escritor, mas, apenas, a exigir outros predicados além do dom de escrever. Conhecimentos ordenados de edição, revisão, impressão, diagramação, cibernética, além de ensino sólido e profundo de História, Geografia, Filosofia, Ética, Política e quanta coisa a mais?

Só para encerrar, admite-se que muitos adversários do diploma o fazem de boa fé. Terão o direito de sustentar seus pontos de vista, quem sabe até razão. O diabo é que atrás deles situam-se os vigaristas, aqueles que pretendem evitar a categoria de jornalistas organizada desde os bancos universitários, adquirindo condições para impor às empresas um comportamento baseado na fidelidade à notícia, que deveria ser honesta e verdadeira. Bem como condições para pleitear melhores salários.

Vai invadir a Bolívia?

E agora, caso José Serra se torne o próximo presidente da República? Ao acusar o governo da Bolívia de conivente com o tráfico de cocaína, facilitando o envio da droga para o Brasil, o candidato deixou clara a disposição de combater essa prática criminosa. E seus responsáveis. O presidente Evo Morales estrilou imediatamente, mas fará o quê, se o anunciado ministério da Segurança Pública receber ordens para vigiar e até a fechar as fronteiras? Aliás, será preciso saber, primeiro, se Morales receberá convite e se virá à hipotética posse de José Serra.

Eis aí, antecipada, a primeira crise internacional do suposto governo tucano. Como reagirá Hugo Chavez, protetor do presidente boliviano?

Fonte: Tribuna da Imprensa

Em destaque

Aliados de Lula defendem que ele não indique novo nome ao STF neste ano

  Aliados de Lula defendem que ele não indique novo nome ao STF neste ano Ala teme que o presidente sofra nova derrota e sugere que cadeira ...

Mais visitadas