Propaganda enganosa e desrespeito à verdade histórica: o caso da falsa "emancipação política" de Jeremoabo
Ao ler uma postagem com o timbre oficial da Prefeitura de Jeremoabo, não pude deixar de expressar minha perplexidade diante de tamanha propaganda enganosa. É difícil acreditar que o prefeito Tista de Deda, homem experiente, conhecedor da administração pública e respeitador das leis, tenha autorizado a publicação de um material tão absurdo e inverídico, que tenta, indevidamente, revogar uma lei estadual e distorcer um fato histórico consolidado.
Tista de Deda já foi prefeito em outras ocasiões e conhece bem os limites legais e institucionais de sua função. Portanto, é impensável que ele próprio tenha incorrido no ridículo de contrariar uma determinação oficial do Governo do Estado da Bahia ou de se opor à Constituição Federal, que rege o pacto federativo e define com clareza as competências entre os entes da federação. Tudo leva a crer que a anomalia em questão partiu da Assessoria de Comunicação (ASCOM), que, talvez por desconhecimento ou imprudência, publicou algo que não encontra respaldo nem histórico, nem jurídico.
É preciso lembrar que a verdadeira data da emancipação política de Jeremoabo é 6 de julho de 1925, conforme registros oficiais e documentação histórica incontestável. O dia 25 de outubro de 1831, ao qual alguns insistem em atribuir o título de “emancipação política”, marca, na verdade, a elevação da localidade à categoria de vila, e não de município autônomo — um erro grosseiro, mas infelizmente repetido por quem não se dá ao trabalho de consultar fontes confiáveis.
Jeremoabo, localizada no nordeste da Bahia, tem uma história rica e singular, que começa com os povos indígenas tupinambás, especialmente os grupos Muongorus e Cariacás, que habitavam a região. O nome “Jeremoabo”, de origem tupinambá, significa “plantação de abóbora”, uma referência à fertilidade das terras às margens do Vaza-Barris.
Ao longo dos séculos, o município atravessou períodos de conflito e reconstrução. No século XVI, o português Garcia D’Ávila recebeu a sesmaria que englobava o atual território de Jeremoabo, mas entrou em conflito com missionários contrários à escravidão indígena e chegou a incendiar a povoação original — um episódio trágico na história local. Posteriormente, por intervenção do Papa e do governo colonial, a vila foi reconstruída.
Em 1688, Sebastião Dias tornou-se o primeiro Capitão-Mor da aldeia Muongorus de Jeremoabo, e dez anos depois o local foi elevado à categoria de julgado. Em 1778, o Governo Geral criou a freguesia de São João Batista de Jeremoabo, marco administrativo e religioso da formação do município. Naquele tempo, a sede da freguesia contava com apenas 32 casas e 252 habitantes.
Com o passar das décadas, parte do território de Jeremoabo originou novos municípios, como Monte Santo (1790), Cícero Dantas (1817), Tucano e Ribeira do Pombal (1837) e Santo Antônio da Glória (1840). Somente em 25 de outubro de 1831 Jeremoabo foi elevada à condição de vila, e mais tarde, em 6 de julho de 1925, à categoria de cidade — data esta, reafirmo, que representa a verdadeira emancipação política do município.
Hoje, Jeremoabo ocupa uma área de 4.761 km², situada integralmente no bioma da caatinga e no semiárido baiano, com clima caracterizado por médias de 24°C e chuvas concentradas entre maio e julho. Seu território é banhado por importantes cursos d’água, como o rio Vaza-Barris e o rio Vermelho, além de riachos que sustentam parte da vida agrícola local.
Portanto, qualquer tentativa de reescrever a história ou de enganar a população com propaganda oficial deve ser prontamente repudiada. A administração pública tem o dever de informar com verdade, respeito e responsabilidade, e não de alimentar mitos criados por conveniência política ou ignorância histórica.
Se houve erro, que seja reconhecido e corrigido publicamente. E se houve má-fé, que se apurem as responsabilidades. O povo de Jeremoabo merece respeito, e a história da cidade — construída com luta, fé e dignidade — não pode ser tratada como ferramenta de marketing.
A verdade não precisa ser reinventada. Basta ser respeitada.
José Montalvão - Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, proprietário do Blog DedeMontalvão, matrícula ABI C-002025


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