Por: O Globo (RJ)
Não estivesse o mercado de escândalos saturado, o caso das vendas superfaturadas de ambulâncias e equipamentos médicos para prefeituras teria repercutido mais junto à opinião pública. Um certo cansaço com o noticiário sobre golpes contra o erário e malfeitoria de políticos também contribuiu para que mais esse assalto aos cofres públicos ficasse em relativo segundo plano. E até permitiu que num primeiro momento o Congresso resolvesse, de forma no mínimo polêmica, deixar para o Ministério Público e a Polícia Federal o processamento das descobertas feitas pela PF na operação batizada com o sugestivo nome de sanguessuga.
Mas pressões internas e a avaliação óbvia de que a imagem do Congresso, já bastante atingida pela não condenação de mensaleiros notórios, ficaria ainda mais deteriorada fizeram com que a CPI dos Sanguessugas fosse aprovada.
A comissão herda rico acervo de informações da Polícia Federal sobre o esquema montado para aprovar emendas ao Orçamento destinadas a bancar essas compras superfaturadas. Tudo com a ajuda de políticos e assessores, e pelo menos uma alta funcionária do Ministério da Saúde - uma engrenagem movida à base de comissões.
O caso tem o tamanho de escândalo de primeira grandeza e é capaz de rivalizar com o dos anões do Orçamento, aqueles parlamentares que na década de 90 se especializaram em desviar dinheiro público para bolsos privados por meio de emendas.
Desta vez, a central do crime teria sido montada em Cuiabá, na empresa Planam, de Darci José Vedoin. O Ministério Público pediu ao Supremo Tribunal Federal que 15 deputados sejam investigados e já denunciou 81 pessoas, entre elas ex-parlamentares conhecidos: Carlos (Bispo) Rodrigues, Ronivon Santiago e o ex-presidente do INSS e ex-senador por Mato Grosso Carlos Bezerra. Rodrigues e Ronivon são dois dos 48 presos na operação da PF.
A ação dos sanguessugas demonstra como a criminalidade de colarinho branco se infiltra na vida política. Mais de mil ambulâncias passaram pela quadrilha. Calcula-se em no mínimo R$ 110 milhões o movimento financeiro da gangue. E o golpe pode ser muito maior, a julgar por auditorias em execução pela Controladoria Geral da União. Não havia mesmo como o Congresso lavar as mãos.
terça-feira, junho 13, 2006
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