
Charge do Duke (domtotal.com)
Elio Gaspari
Folha/O Globo
Madame Natasha coleciona as falas do ministro Paulo Guedes e as guarda na prateleira do realismo fantástico. Como a senhora zela pelo idioma, resolveu conceder-lhe uma de suas bolsas de estudo pela justificativa que deu para o entesouramento de 9,55 milhões de dólares num paraíso fiscal do Caribe:
“Se você tiver uma ação no nome da pessoa física e falecer, 46% é expropriado pelo governo americano (…). Então, se você usar offshore, você pode fazer esse investimento. Se você morrer, em vez de ir para o governo americano, vai para a sucessão”.
DEPOIS DE MORRER… – Entendido. O doutor não quer pagar imposto de transmissão quando passar desta para outra melhor.
O que Natasha estranhou é que, sendo ministro da Economia, diga que o cidadão americano é “expropriado” em 46%. Essa é a palavra que a turma dos assaltos a bancos dos anos 70 usava para designar suas ações. A Receita Federal de Pindorama expropria?
Guedes tem uma estranha relação com o capitalismo americano. Quando lhe convém, louva-o. Quando ele tenta cobrar-lhe impostos, abriga-se num paraíso caribenho.
RETÓRICA INFELIZ – A senhora viu o doutor defendendo a venda de bens do patrimônio da Viúva com sua retórica infeliz: “Tem um negócio chamado fundo de erradicação da pobreza, sem dinheiro, sem gasolina. Enche o tanque do fundo, vende alguns ativos aqui e enche o tanque do fundo”.
Por simples, a transação parece boa, mas Noel Rosa já cuidou dela na marcha “Palpite”, de 1931:
“Ser palpiteiro neste mundo é a tua sina
Vendeste o carro pra comprar gasolina”.