sexta-feira, dezembro 31, 2021

Jair Bolsonaro, no fundo, tornou-se um grande eleitor de Lula nas urnas de 2022

Publicado em 31 de dezembro de 2021 por Tribuna da Internet

Desmandos de Bolsonaro minam a sua própria candidatura

Pedro do Coutto

O tema que está no título foi muito bem colocado por Merval Pereira em seu artigo publicado na edição de ontem de O Globo. São tais os erros, equívocos, atitudes e pronunciamentos de Jair Bolsonaro que refletem contra a sua própria candidatura, que conduzem à percepção de que ele é, talvez, o maior apoiador do líder do PT em sua etapa para retornar à Presidência da República.

Aliás, vale frisar que a eleição de 2022 será a nona em que Lula da Silva participa ou influi diretamente nas campanhas. Noves vezes envolvendo-se em sucessões presidenciais, o antigo metalúrgico do ABC paulista, a meu ver, torna-se um personagem singular no mundo político.

TRAJETÓRIA – Ele perdeu em 89 para Fernando Collor, perdeu em 94 para Fernando Henrique Cardoso, perdeu novamente para FHC em 98, derrotou Serra em 2002, venceu Alckmin em 2006, elegeu Dilma Rousseff contra José Serra em 2010, reelegeu Dilma em 2014 sobre Aécio Neves, nesse caso por pequena diferença, perdeu em 2018 apoiando Fernando Haddad contra Bolsonaro. Agora, pela nona vez, estará diretamente nas urnas enfrentando o atual presidente da República.

Mas essa é outra questão. O fato agora que se impõe, bem observado por Merval Pereira, está no distanciamento de Bolsonaro da calamidade que atingiu a Bahia envolvendo mais de 600 mil pessoas em várias cidades. O seu distanciamento provavelmente decorre pelo fato do governador Rui Costa ser do PT, mas com isso Bolsonaro não percebeu ter perdido uma grande oportunidade de demonstrar sua isenção política em benefício de sua própria administração e, em consequência, à própria candidatura à reeleição. Ele preferiu ficar nas praias de Santa Catarina andando de jet ski e mergulhando em águas claras e salgadas ao sol do verão.

OMISSÃO – Não levou em conta também as enchentes em Minas Gerais e em São Paulo, além dos estragos que causaram em menor escala que as da Bahia, mas também importantes para um presidente da República atuar. Omitiu-se e perdeu votos para as eleições do próximo ano. Faltam 10 meses para as urnas e ele continua contra a vacinação de crianças de 5 a 11 anos de idade. Não se consegue compreender qual o motivo o leva a combater a vacinação.

Mas o impulso deve ser interior e fortíssimo, uma vez que a vacinação é reivindicada direta e intensamente por mais de 80% da população brasileira, nas qual se inclui um eleitorado de 160 milhões de brasileiros e brasileiras. Há algo de apreensivo e até auto destrutivo no comportamento. Pois, afinal de contas, Jair Bolsonaro está atuando contra si próprio e sobretudo contra o próprio país.

Reportagem de Daniel Gullino, Camila Zarur e Ingrid Ribeiro, O Globo desta quinta-feira, destaca que até aliados de Bolsonaro em declarações reservadas estão criticando o seu distanciamento das calamidades e sua frieza em relação aos problemas sociais. Os repórteres referem-se até a uma opinião de um ministro do governo que disse sobre a falta de empatia de Bolsonaro, trocando as águas que inundaram a Bahia pelas águas de Santa Catarina.

AJUDA ARGENTINA – Nathália Bosco, Adriana Mendes e Mariana Rosário, O Globo, destacam o fato de que o governo Bolsonaro recusou ajuda humanitária oferecida pela Argentina para socorrer a Bahia através de contato que a Casa Rosada manteve com o governador Rui Costa e com a Casa Civil do Palácio do Planalto. Por outro lado, os ministérios da Cidadania, da Infraestrutura, dos Direitos Humanos e do Desenvolvimento Regional não souberam ainda informar a respeito de suas ações para atender as consequências do dilúvio que desabou sobre a Bahia.

A Casa Civil disse que não possui os dados específicos sobre os recursos enviados. O Ministério da Saúde não alterou as informações que havia divulgado na terça-feira, mas assinalou que formalizou a entrega de 4,2 toneladas de medicamentos, além de 100 mil doses de vacinas contra a gripe e 40 mil doses de imunizantes contra a hepatite A. Em  dinheiro foram R$ 7 milhões em montante para o socorro. O governo baiano considerou a ajuda insuficiente e segundo Patrick Camponez, de O Globo, se disse decepcionado.

O panorama, portanto, não pode deixar de significar um desgaste para o governo e principalmente para o presidente em matéria de votos nas urnas. Na Folha de S. Paulo, a reportagem sobre a presença de Bolsonaro no jet ski e nas águas verdes do litoral catarinense, com foto registrando o passeio, é de Washington Luís e Matheus Vargas.

AUMENTO –  Embora não tenha espaço específico no orçamento de 2022 para reajustes salariais do funcionalismo, de acordo com o modelo do ministro Paulo Guedes, o governo que destinou um reajuste que não se sabe a percentagem para policiais federais e rodoviários agora está disposto a examinar a concessão de bônus para os auditores da Receita Federal que ameaçam colocar o trabalho em ritmo lento e até mesmo entrar em greve.

O governo cogita também editar Medida Provisória nesse sentido. A atuação lenta dos auditores da Receita Federal atinge tanto as importações quanto as exportações brasileiras e podem resultar num prejuízo diário de R$ 125 milhões na arrecadação de impostos.

COLISÃO – A confusão já está se generalizando e a concessão de aumento restrito às categorias, além de colidir com o artigo 37 da Constituição Federal, como era esperado, desencadeou uma movimentação geral do funcionalismo. Temendo a concessão de aumento, os investidores se retraíram e a Bovespa recuou 0,7% na quarta-feira.

O dólar subiu 0,96%, atingindo R$ 5,7 por unidade. O panorama é inquietante. O IGP-M que mede os custos econômicos entre empresas, compra e venda de materiais para fabricação e comercialização atingiu praticamente 18%.  O IGP-M rege os aluguéis residenciais, comerciais e industriais. Em 2020, o IGP-M subiu 20%, portanto, nos últimos dois anos ele avançou praticamente 44%. Os salários do funcionalismo subiram 0% e os salários das empresas estatais e particulares foram reajustados numa escala de 4%, perdendo para a inflação.

SALÁRIOS CONGELADOS – A Petrobras empenha-se na justiça para manter o reajuste de 50% no gás de cozinha e no gás de aplicação industrial. Não é possível que a sociedade absorva os impactos de aumentos desta ordem em série enquanto seus salários congelam na omissão e no caminho para uma cada vez maior concentração de renda. Vale acrescentar que só os salários podem conduzir a um esquema cristão de se distribuir a renda proporcionada pelos resultados econômicos do país. Aliás, tal análise aplica-se a qualquer nação.  

Este ano termina, mas ressurge a esperança com as eleições, marcando as nossas vidas, realidades e até os nossos sonhos. Vamos esperar que um novo horizonte amanheça no Brasil a partir, não de 2022, pois isso não é possível, mas a partir de 2023, em decorrência do processo democrático que ilumina e mantém acesa a estrada das urnas.  Como dizia JK; política também é esperança. Vamos manter a nossa esperança viva, nossos pensamentos e nossas atitudes. Desejo a todos os leitores um Feliz Ano Novo !

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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