terça-feira, dezembro 07, 2021

BC se exime de culpa pelo baixo crescimento




Economia definha com a crise fiscal e a falta de reformas

Por Alex Ribeiro (foto)

Os dados do Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre mostram que a economia está estagnada, e deverá continuar assim no ano que vem. Qual é a culpa do Banco Central, que está apertando a política monetária de forma acelerada para conter a alta inflação?

O diretor de política econômica do Banco Central, Fabio Kanczuk, acha que os principais responsáveis são outros: os ruídos da política fiscal e os velhos problemas estruturais, que limitam a velocidade de expansão da economia. Os juros, claro, também têm a sua parcela de responsabilidade, mas ainda não tiveram tempo de chegar à atividade econômica.

Neste ano, o Congresso Nacional incluiu no mandato do Banco Central, na lei que deu autonomia à instituição, o objetivo secundário de suavizar a flutuação da atividade econômica, que deve ser perseguido desde que não comprometa a meta principal de estabilidade monetária. Mas o BC não faz milagres.

“Essa mudança na expectativa de crescimento está menos relacionada à política monetária em si”, afirmou Kanczuk na semana passada, em um encontro com investidores do banco JP Morgan, referindo-se à redução das projeções de mercado para a expansão do PIB em 2022, atualmente em 0,57%. “A grande parte disso parece ligada ao baixo potencial de crescimento da economia.”

Ele se refere à capacidade da economia crescer no longo prazo sem gerar desequilíbrios, como a inflação. Essa velocidade de cruzeiro é determinada pelos investimentos e ganhos de produtividade.

A recuperação em “V” que o Brasil teve a partir do segundo semestre do ano passado, depois da primeira onda da pandemia, transmitiu a sensação de que a economia poderia se expandir a taxas mais vigorosas. Esse sentimento estava por trás da euforia no mercado de ações e também da recuperação do fluxo de capitais estrangeiros ao país.

Agora, quando o PIB do terceiro trimestre registra uma queda de 0,1%, voltamos à realidade anterior ao choque do coronavírus, disse Kanczuk. “É uma economia que cresce pouco, infelizmente.” Depois da recessão do governo Dilma, o Brasil cresceu uma média de 1,53% por ano, de 2017 a 2019.

O Banco Central não pode fazer muito para ajudar a aumentar essa tendência de crescimento de longo prazo, além de garantir a estabilidade monetária, um pré-requisito para qualquer ciclo sustentado de expansão do PIB. Para cumprir a meta de inflação, apenas administra a flutuação da atividade econômica em torno dessa tendência de crescimento de longo prazo.

Os economistas do mercado financeiro, de certa forma, acreditavam que as reformas aprovadas desde o governo Temer poderiam ampliar a capacidade de crescimento da economia. Em meados deste ano, as projeções de longo prazo para o PIB estavam em torno de 2,5%. Ainda pouco, mas um avanço em relação à média de antes da pandemia. Mais recentemente, porém, as estimativas caíram para 2%.

Kanczuk pontuou que, além disso, a perspectiva mais imediata de crescimento econômico foi prejudicada pela crise fiscal. “Quando você se move para uma história de problemas fiscais, você tem menos crescimento e mais inflação”, disse. “É como um choque de oferta.”

Desde que o governo resolveu burlar o teto de gastos para bancar gastos eleitoreiros, as condições financeiras da economia se apertaram. A alta do risco-país, do dólar e dos juros de mercado, combinada com a queda da bolsa, joga a economia para baixo. Mas essa desaceleração econômica não é forte o suficiente para compensar a alta da inflação provocada pelo aumento dos riscos fiscais. “Nesse caso, não há o que o Banco Central possa fazer para ajudar”, afirmou Kanczuk.

Ele não é o único, dentro do Banco Central, que vem alertando para as consequências do baixo PIB potencial brasileiro. O presidente da instituição, Roberto Campos Neto, destacou recentemente que esse é um fator-chave para determinar a sustentabilidade fiscal e o fluxo de investimentos estrangeiros ao Brasil.

O cenário central do mercado financeiro, afirma, é de uma gradual queda da dívida pública. Mas se, em vez de um PIB potencial de 2,5%, o Brasil tiver um PIB de 1%, a dívida volta a subir, em especial se a taxa de juros de longo prazo também aumentar.

“O dinheiro saiu muito dos países emergentes [durante o pico da pandemia], e agora volta mais para a Ásia”, disse ele, num evento recente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). “O que a gente vê é que hoje o dinheiro está buscando crescimento sustentado com disciplina fiscal.” Para ele, é fundamental que, tão logo seja superada a PEC dos Precatórios, o governo comunique uma política fiscal sólida e retome a agenda de reformas econômicas.

Mas a acelerada alta de juros não está puxando a economia para baixo? A política monetária atinge a atividade econômica com defasagens, de seis a nove meses. Assim, no terceiro trimestre, a economia ainda estava refletindo o forte impulso do juro de 2% ao ano fixado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) no fim de 2020, combinado com o “forward guidance”, que era a promessa então vigente de não subir a taxa Selic tão cedo.

O aperto monetário só começou a acontecer a partir de agosto. Os juros reais de mercado com prazo de um ano chegaram, naquele mês, a 4% ao ano, considerando a inflação prevista pelo mercado para os 12 meses seguintes. Nesse patamar, já começava a superar a taxa neutra de juros, que então era estimada pelo mercado em 3% ao ano, mas que pode ter subido para cerca de 4% com a derrapagem fiscal.

O aperto só se materializou de fato entre outubro e novembro, com os juros reais ao redor de 6% ao ano. Parte disso é apenas a piora das condições financeiras, devido ao acirramento da incerteza fiscal, mas há também os efeitos das decisões de política monetária. Pelas defasagens das altas de juros sobre a atividade, essa contenção monetária deverá desacelerar ainda mais a economia apenas no segundo semestre de 2022.
 
Valor Econômico

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