quinta-feira, setembro 01, 2022

Um homem como nenhum outro: Gorbachev desmontou um império.




Comunista convicto que queria melhorar o sistema, o líder soviético protagonizou o milagre do desmanche do comunismo com violência mínima. 

Por Vilma Gryzinski

Como acabaria o mundo da história contrafactual? O mundo em que Mikhail Gorbachev não se tornaria o chefe da cinzenta e enferrujada liderança soviética? Sem o homem que começou tentando reformar um sistema que mandava foguetes para o espaço mas não conseguia produzir televisões que não explodissem na cara de cidadãos do maior império da Terra?

Ninguém pode responder – e o estado de alerta em que Vladimir Putin colocou o planeta ao liberar ameaças constantes de guerra nuclear não nos deixa exatamente num lugar tranquilo.

Mas não podemos esquecer do prodígio que foi o fim quase que totalmente pacífico de um mundo que terminou quando Gorbachev pediu uma caneta emprestada – a sua não funcionava – e assinou a dissolução da União Soviética, a utopia distópica criada por Vladimir Lênin que não chegou aos 70 anos.

A noite de 25 de dezembro de 1991 foi melancólica em Moscou, ao contrário da euforia quase incrédula que cercou a autolibertação do colar de satélites soviéticos no incrível ano de 1989.

Em 9 de novembro daquele ano, Gorbachev tinha ido dormir com o Muro de Berlim em pé. Acordou com a monstruosidade, símbolo de tudo o que havia de errado com o comunismo, derrubada. O destino já havia sido selado quando o homem com a mancha vermelha na testa, um hemangioma comparado à “marca da Besta”, ouviu um grito se erguer entre as pessoas que haviam ido ver como seria o encontro do propagador da glasnost com o mais ortodoxo dos líderes comunistas, o alemão Erich Honecker.

“Gorbi, Gorbi, hilf uns”.

“Ajude a gente”.

A União Soviética tinha 338 mil militares na Alemanha Oriental. O Exército Vermelho tinha sido treinado para chegar em “uma semana” a Berlim se houvesse uma guerra. Os mísseis nucleares soviéticos apontavam para todos os adversários, próximos ou distantes, táticos ou estratégicos.

Foi por causa de Gorbachev que nenhuma dessas forças foi usada, com resultados inevitavelmente tétricos, ao decidir que a Hungria de 1956 e a Checoslováquia de 1969 não se repetiriam. Ele estava fora do negócio de manter países vassalos à força e conseguiu manter na linha todo o imenso aparato de segurança que sustentava o totalitarismo.

Houve uma tentativa de golpe em agosto de 1991, quando Gorbachev passava férias na Crimeia, mas um certo Boris Ieltsin arrebatou uma pequena multidão ao subir num tanque em frente ao Parlamento e a reação fracassou.

Gorbachev ganhou o Prêmio Nobel da Paz e, durante alguns anos, correu o risco de cair no descrédito. Foi morar na Alemanha, para tratar a mulher Raisa, fez publicidade para a Louis Vuitton e enlaçou Sharon Stone numa festa em Londres.

Ao contrário dos ex-vassalos, que conseguiram fazer com sofrimento mínimo a transição do comunismo para regimes democráticos com economias abertas, os russos penaram. O mundo que Gorbachev havia desmanchado foi substituído por um vale-tudo em que os muito espertos faziam negócios espetaculares e o resto da população via trabalho, serviços públicos, aposentadorias e orgulho nacional arrastados na lama.

Gorbachev se tornou uma figura detestada pela maioria dos russos. A democracia ao estilo ocidental não prosperou e Vladimir Putin, que havia passado a noite da queda do Muro queimando documentos na estação da KGB em Dresden, iniciou uma carreira política que o levou ao delírio imperial de hoje.

Gorbachev ficou firmemente ao lado dele. “Estou absolutamente convencido de que Putin defende atualmente os interesses da Rússia melhor do que ninguém”, disse em visita à Alemanha depois da anexação da Crimeia.

Em retribuição, Putin deverá homenageá-lo, relevando a famosa definição sobre o fim da União Soviética como “a maior catástrofe geoestratégica do século XX”.

Para quem prefere a liberdade e a democracia, com todos seus tantos defeitos, foi o maior milagre de um século em que os russos talvez tenham sofrido mais do que todos os outros povos, incluindo os que oprimiram.

Revista Veja

'Blob': a extraordinária criatura que nos obriga a questionar se somos a espécie mais inteligente




Uma criatura amarela que mora na floresta e não tem cérebro, mas é capaz de pensar

Por Becky Ripley e Emily Knight

Que tal começarmos com um teste rápido.

Você está perdido em uma enorme loja que parece um labirinto e não sabe como sair dela. A quem você pede ajuda?

Pergunta 2: Você está redigindo um documento de política para assessorar o governo dos Estados Unidos sobre como governar suas fronteiras nacionais. Onde você procura conselhos?

Última pergunta: Você precisa desenhar um mapa da teia cósmica, como você faz isso?

Existem, é claro, várias respostas para essas perguntas, mas em todos os casos você poderia ser inspirado por um organismo: o bolor limoso, que também pode ser conhecido por muitos nomes diferentes.

Sendo cientificamente preciso ele não é exatamente um bolor...

"O bolor é uma divisão do mundo dos fungos, mas o bolor limoso é na verdade um protista (não é um animal, planta ou fungo) - é essencialmente uma célula gigante", diz o biólogo Merlin Sheldrake, autor do livro Entangled Life, que aborda o tema.

O bolor limoso é um plasmódio, ou seja, uma célula que contém muitos núcleos. Então, ao contrário da maioria dos organismos unicelulares, você não precisa de um microscópio para vê-lo.

E essa única célula é capaz de tecer vastas redes exploratórias feitas de tentáculos semelhantes a veias que podem se estender até um metro.

A estrela entre todos

Existem cerca de 900 espécies de bolor limoso, mas vamos nos concentrar no Physarum Polycephalum, que literalmente quer dizer "bolor de várias cabeças". Ele também é conhecido como "blob" (referindo-se ao clássico filme de 1958 The Blob).

'Clássico filme The Blob serviu de inspiração para nomear popularmente o bolor limoso'

Por que os cientistas do mundo estão tão empolgados com essa espécie em particular?

"Ele se tornou um organismo emblemático de resolução de problemas. É fácil de cultivar e cresce rápido, o que é uma das razões pelas quais tem sido tão bem estudado", explica Sheldrake.

"Mas acima de tudo, seus comportamentos são extraordinários."

Ele pode fazer todos os tipos de coisas.

"Explorar, resolver problemas, adaptar-se a novas situações, tomar decisões entre cursos alternativos de ação - e tudo sem cérebro!"

Como ele faz isso?

"O Physarum é sensível ao gradiente químico, então pode crescer em direção a sinais químicos ou ficar longe dos pouco atraentes".

"Primeiro, ele tende a crescer em todas as direções ao mesmo tempo. E então, quando encontra comida, ele se retrai e forma as conexões entre suas fontes de alimento."

É um pouco como se você estivesse no deserto e precisasse procurar água. Você tem que escolher apenas uma direção para caminhar.

O Physarum Polycephalum pode "andar" em todas as direções ao mesmo tempo até encontrar alimentos; depois encolhe os ramos que não encontraram nada e fortalece os que encontraram, através de uma série de contrações químicas.

'Em um experimento memorável, "blob" aprendeu a "ignorar" os químicos colocados para bloquear seu caminho para a comida. Esse comportamento sugere uma forma primitiva de memória, e ninguém sabe como ela realiza essa façanha'

"Nunca deixa de me surpreender que eles possam usar essas contrações para fazer esse tipo de cálculo analógico, para integrar informações sem precisar de um cérebro. Que sua coordenação ocorra em todos os lugares ao mesmo tempo e em nenhum lugar em particular."

Uma rede ferroviária no Japão

Tudo isso significa que o "blob" é capaz, em termos humanos, de resolver problemas, fazer redes, navegar em sistemas e labirintos com uma eficiência incrível.

Há um estudo japonês icônico de 2010, quando o Physarum traçou a rede ferroviária da Grande Tóquio, e para isso precisou somente de uma pequena placa de Petri e um punhado de aveia.

Segundo os estudos, o Physarum adora aveia, é a sua comida preferida.

"Então, eles modelaram a área da Grande Tóquio colocando copos de aveia nos centros urbanos e depois o lançaram. Ao longo de algumas horas, havia formado uma rede eficiente que conectava os copos de aveia, e essa rede parecia muito com a rede de metrô existente na área da Grande Tóquio", detalha o estudo.

O Physarum havia estabelecido, em questão de horas, uma rede eficaz que levou décadas para ser feita na vida real.

O "blob" no universo

Após o estudo de Tóquio, experimentos com Physarum Polycephalum decolaram em todo o mundo, para projetar novas redes de transporte urbano ou encontrar rotas eficazes de evacuação de incêndio, até mesmo mapear a teia cósmica... o que parece estranho, mas ocorreu.

Uma equipe de cientistas fez uma simulação digital traçando as localizações das 37.000 galáxias conhecidas.

Então, um algoritmo inspirado no "blob", adaptado da placa de Petri para trabalhar em três dimensões, foi liberado em um banquete virtual onde as galáxias estavam representadas por pilhas de copos de aveia digital, por assim dizer.

A partir daí, o algoritmo produziu um mapa digital em 3D da teia cósmica subjacente, visualizando os fios em grande parte invisíveis de matéria que os astrofísicos acreditam que unem as galáxias do universo.

Eles compararam com dados do Telescópio Espacial Hubble, que detecta traços da teia cósmica, e descobriram que tudo combinava em grande parte.

Portanto, parece haver uma estranha semelhança entre as duas redes, a rede de "blob" formada pela evolução biológica e as de estruturas no cosmos criadas pela força primordial da gravidade.

'Os astronômos apelaram à criatividade ao tentar rastrear a indescrítivel teia cósmica, a coluna vertebral do cosmos'.

Os "blobs" acadêmicos

Vamos voltar para a dura realidade daquele pequeno ponto azul no espaço que é o nosso mundo.

O Physarum também pode nos ajudar com problemas que vão além do mapeamento e da criação de redes, como para coisas humanas mais complexas, como formulação de políticas e governança.

"De certa forma, os Physarum são economistas, em termos de alcançar um ótimo universo", diz o filósofo experimental Jonathon Keats.

Em 2018, ele foi ao Hampshire College, em Massachusetts, EUA, com uma ideia.

"Propus que os "blobs" fossem nomeados como professores visitantes, com a ideia de ter um grupo desses especialistas no campus para refletir sobre alguns dos problemas mais desafiadores do mundo."

Foi o primeiro programa acadêmico do mundo para uma espécie não humana e foi chamado de Consórcio Plasmodium.

Os polycephalies de Physarum se tornaram estudiosos, com direito a escritório.

"Não tem janelas, mas os "blobs" não gostam muito de luz, então do ponto de vista deles foi bom, e logo que eles se instalaram lá, pudemos começar."

Eles modelaram os problemas humanos de maneira que os blobs pudessem "entendê-los" para obter sua perspectiva imparcial.

"Os Physarum são superorganismos: eles são um apesar de serem muitos. Portanto, eles são mais objetivos do que nós quando se trata de assuntos humanos."

Eles começaram com as questões usuais de rede e mapeamento, distribuição e transporte, antes de passar para algumas preocupações políticas maiores, "desde políticas de drogas até questões de nosso uso de recursos", observa Keats.

O muro de Trump

Talvez os experimentos mais polêmicos tenham sido aqueles que exploraram a política de fronteira internacional.

"Criamos um mundo simplificado, que é realmente o que qualquer um faz quando está criando qualquer tipo de modelo (os economistas fazem isso o tempo todo)."

"O que fizemos foi pegar uma das condições mais fundamentais: um lugar tem alguma coisa, outro lugar tem outra coisa, e cada lugar quer proteger o que tem contra o outro."

Eles usaram dois recursos essenciais para os "blobs", proteína e açúcar, e os espalharam em uma placa de Petri, cada um em um lado oposto, e tentaram com uma parede entre eles e também sem ela, deixando Physarum descobrir o que fazer com esses recursos.

"Eles não apenas sobreviveram, mas prosperaram no caso de não haver muro e floresceram mais na área de fronteira", explica o pesquisador.

"Então escrevemos uma carta para Kirstjen Nielsen, que era a Secretária de Segurança Nacional nos EUA na época, e também enviamos para as Nações Unidas e muitos outros órgãos governamentais, dizendo a eles que as fronteiras não são uma boa ideia e que devemos superar o medo para reconhecer como ter fronteiras abertas beneficia a todos."

Absurdo?

É claro que esses problemas internacionais multifacetados não podem ser reduzidos a algumas poucas placas de Petri.

Mas o ponto é que esses experimentos são deliberadamente exagerados para nos desafiar a pensar de novas maneiras.

"O consórcio Plasmodium é, em certo sentido, absurdo. As pessoas riem quando ouvem que os "blobs" montaram um grupo de especialistas em colaboração com humanos em uma universidade nos Estados Unidos porque simplesmente não é assim que as coisas são feitas."

Mas acho que também há algo muito sério por trás disso. O Physarum têm uma inteligência excepcional, então precisamos incorporar algumas das ideias que obtemos ao observar como eles se comportam, pensando em nós mesmos de maneiras que não tínhamos feito antes", declara o pesquisador.

Esse é o aspecto mais atraente de tudo isso. Que um organismo sem cérebro pode nos ensinar a ser mais objetivos, a pensar mais a longo prazo, e que pode abordar um problema de uma maneira que simplesmente não pensaríamos.

E no caso de alguns enigmas, como mapear o cosmos, pode ser mais rápido do que a gente.

Tudo isso põe em dúvida nossas definições humanas de inteligência.

'Do fundo de nossas hierarquias, Physarum é considerado um desafio que tem sido cada vez mais estudado'

"Nossa visão hierárquica da inteligência com humanos no topo da Grande Pirâmide revela o narcisismo de nossa espécie", afirma Sheldrake.

"Pensar sobre o mundo sem usar a nós mesmos como o padrão pelo qual todos os outros seres vivos devem ser julgados pode ajudar a amortecer algumas das hierarquias que sustentam o pensamento moderno", completa.

Essas hierarquias significam que nós, Homo sapiens, temos uma opinião incrivelmente alta de nós mesmos, e isso tem nos ajudado a chegar longe.

Mas talvez isso já tenha cumprido o seu propósito.

"Acho que nós, humanos, temos a necessidade de acreditar em um tipo de superioridade. Essa alta autoestima tem sido o motor da dominação. Temos sido capazes de fazer mais e isso é um resultado de acreditar que podemos mais", aponta Keats. .

"Mas estamos chegando a um limite, ao ponto em que essa forma de pensar está piorando o mundo para nós e para outras espécies. Então é hora de repensar."

E um catalisador para esse repensar é o Physarum Polycephalum, um protista de uma única célula sem cérebro que fica na parte inferior dessa hierarquia, de onde pode abalar todo o sistema.

BBC Brasil

Os negócios da família Bolsonaro - Editorial




Se pretende ser visto pelo eleitor como campeão da luta contra a corrupção, Bolsonaro tem de explicar ao País de onde veio o dinheiro vivo com o qual ele e a família compraram 51 imóveis

Em 2018, Jair Bolsonaro elegeu-se prometendo combater a corrupção. Agora, tenta a reeleição com a mesma tática. Coloca-se como o candidato antipetista, cuja missão é impedir a volta da corrupção do PT. De fato, o partido de Lula da Silva tem muito a explicar ao País e, principalmente, a dizer sobre o que fará de diferente para não acontecer de novo tudo o que se viu nas gestões petistas. No entanto, enquanto não esclarecer as muitas questões obscuras envolvendo o patrimônio e as finanças de sua família, Bolsonaro não tem moral para cobrar transparência ou lisura de Lula. É literalmente o roto falando do esfarrapado.

No debate na Band, Bolsonaro chamou Lula de ex-presidiário. O líder petista esteve preso em razão de uma condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, no caso do triplex do Guarujá. Lula foi solto depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) considerar que o juiz da primeira instância Sérgio Moro, além de ter atuado de forma parcial no caso, era incompetente para julgar a causa. Encaminhado depois à Justiça Federal de Brasília, o processo foi arquivado em razão do decurso do prazo prescricional.

Ou seja, os benefícios de uma empreiteira, entregues na modalidade de reforma de um imóvel na praia e reconhecidos numa delação, suscitaram a prisão de Lula, prisão esta que Bolsonaro faz questão de relembrar na campanha eleitoral. A ironia – ou a incrível desfaçatez – é que Jair Bolsonaro e sua família não têm problemas apenas com um único imóvel na praia. Levantamento realizado pelo site UOL, a partir de dados públicos, revelou que, desde os anos 90, o presidente, seus irmãos e seus filhos negociaram nada menos que 107 imóveis, dos quais pelo menos 51 foram adquiridos total ou parcialmente com uso de dinheiro vivo. Em valores corrigidos pelo IPCA, o montante pago em dinheiro vivo equivale a R$ 25,6 milhões.

Não é crime comprar imóveis usando dinheiro vivo, mas é muito estranho esse peculiar padrão de comportamento ao longo de tanto tempo, envolvendo quantias tão grandes. Além disso, há duas circunstâncias agravantes. Durante o período, Jair Bolsonaro sempre ocupou cargos políticos, recebendo seu salário em conta bancária. A princípio, não havia por que movimentar tanto dinheiro vivo.

Em segundo lugar, existem fundadas suspeitas de que, nos gabinetes parlamentares de Jair Bolsonaro e de seus filhos, foi corrente a prática da “rachadinha”, um sistema de apropriação pelo parlamentar dos salários de seus assessores. Revelado pelo Estadão, o assunto veio à tona depois das eleições de 2018, quando o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro investigava Flávio Bolsonaro por condutas suspeitas em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Um dos principais investigados era Fabrício Queiroz, amigo de Jair Bolsonaro e homem de confiança da família. Em 2020, Flávio foi denunciado por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Depois de muitas idas e vindas processuais – o filho mais velho do presidente obteve o foro privilegiado no caso –, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro rejeitou a denúncia.

Ao longo desses anos, as suspeitas de rachadinha e lavagem de dinheiro envolvendo a família Bolsonaro só ganharam novos indícios, em especial dois fatos: os cheques de Fabrício Queiroz na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro e a movimentação atípica de dinheiro vivo na loja de chocolate de Flávio no Rio de Janeiro. No entanto, Jair Bolsonaro nunca explicou essas suspeitas. Sempre que questionado, respondeu agredindo, ironizando ou simplesmente encerrando a entrevista.

Não é possível que, neste ano, Jair Bolsonaro peça o voto do eleitor falando em combate à corrupção do PT sem antes explicar essa combinação de dinheiro vivo na compra de imóveis, movimentações bancárias suspeitas e indícios de rachadinha nos gabinetes parlamentares. Não basta imitar Lula e dizer que a Justiça encerrou o processo contra seu filho ou se dizer perseguido pela imprensa que o questiona. É preciso explicar de onde veio tanto dinheiro vivo para comprar os numerosos imóveis da família.

O Estado de São Paulo

Relatório da ONU detalha possíveis 'crimes contra a humanidade' na região chinesa de Xinjiang




A ONU divulgou nesta quarta-feira um relatório bastante aguardado sobre abusos dos direitos humanos cometidos na região chinesa de Xinjiang, no qual alerta para possíveis crimes contra a humanidade e denúncias de tortura.

O documento foi divulgado em Genebra, às 23h47, 13 minutos antes do fim do mandato de quatro anos da ex-presidente chilena Michelle Bachelet como alta comissária da ONU para os Direitos Humanos (ACNUDH). Michelle estava determinada a divulgar o relatório, mesmo com a pressão intensa feita por Pequim.

"A extensão da detenção arbitrária e discriminatória de uigures e membros de outros grupos predominantemente muçulmanos (...) pode constituir crimes internacionais, em particular crimes contra a humanidade", afirma o relatório em suas conclusões.

O texto alerta que "abusos graves dos direitos humanos foram cometidos na Xuar (Região Autônoma Uigur em Xinjiang) no contexto da aplicação de estratégias governamentais de contraterrorismo e contraextremismo". Cita, em particular, a preocupação com o tratamento dispensado a pessoas detidas nos chamados "Centros de Educação e Treinamento Vocacional" da China.

"Denúncias de padrões de tortura ou maus-tratos, incluindo tratamento médico forçado e condições adversas de prisão, são confiáveis, assim como as denúncias de incidentes individuais de violência sexual e de gênero", indica o relatório.

- Minorias perseguidas -

Em e-mail enviado à AFP, Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile, afirmou: "Eu disse que iria publicá-lo antes do fim de meu mandato e o fiz. Os temas são sérios e eu os discuti com autoridades nacionais e regionais" da China.

A China é acusada há anos de prender mais de 1 milhão de uigures e outras minorias muçulmanas na região ocidental remota de Xinjiang. Ativistas acusaram o país de inúmeros abusos, que Pequim refutou com veemência, insistindo em que se tratam de centros de treinamento vocacional em Xinjiang para combater o extremismo.

O relatório pede que Pequim, a ONU e o mundo voltem suas atenções com urgência para a situação em Xinjiang. "A situação dos direitos humanos na Xuar também requer uma atenção urgente do governo, dos órgãos intergovernamentais da ONU e do sistema de direitos humanos, bem como da comunidade internacional em geral", acrescenta.

O documento de 49 páginas, no entanto, não faz referência a um genocídio, uma das principais denúncias dos críticos de Pequim, incluindo Washington.

- Oposição firme -

O embaixador chinês na ONU, Zhang Jun, disse hoje, antes da divulgação do documento, que Pequim o havia informado sobre sua "oposição firme" ao texto. "A chamada questão de Xinjiang é uma mentira completamente fabricada com motivações políticas e seu propósito é, definitivamente, minar a estabilidade da China e obstruir o seu desenvolvimento", afirmou.

O embaixador destacou que Michelle Bachelet deveria permanecer "independente", e não ceder à "pressão política" dos países ocidentais.

A comissária explicou repetidamente que o atraso do relatório se deveu a ele ter sido enviado primeiramente a Pequim para comentários, como é habitual nesses casos. Mas Zhang afirmou que a China não viu o relatório e o "rejeita totalmente".

A organização Anistia Internacional assinalou que o relatório "revela a magnitude e gravidade das violações dos direitos humanos em Xinjiang", mas questionou o atraso na divulagação do documento: "O atraso imperdoável na divulgação desse relatório é uma mancha no ACNUDH."

Michelle Bachelet insistiu em que o diálogo com Pequim não significou "aprovar, ignorar ou fazer vista grossa" para os fatos em Xinjiang, e acrescentou que "a politização dessas questões sérias envolvendo os direitos humanos por alguns Estados não ajudou. Tornaram a tarefa mais difícil, dificultaram o compromisso e a construção da confiança e a capacidade de ter um impacto real em campo."

AFP / Estado de Minas

***

Relatório da ONU acusa China de violar direitos humanos de minoria muçulmana em Xinjiang

Por Matt Murphy

Em um relatório há muito tempo aguardado e finalmente publicado nesta quarta-feira (31/8), a Organização das Nações Unidas (ONU) acusou a China de cometer "graves violações dos direitos humanos" contra muçulmanos uigures e outras minorias étnicas na província de Xinjiang.

Anteriormente, a China pediu à ONU que não divulgasse o relatório — classificado por Pequim como uma "farsa" organizada pelas potências ocidentais.

O relatório avaliou acusações de abuso, as quais a China nega.

Os investigadores concluíram que há "evidências críveis" de tortura na província e que a China usa leis de segurança nacional vagas para reprimir os direitos das minorias e estabelecer um "sistema de detenção arbitrária" em massa. Prisioneiros são submetidos a "padrões de maus-tratos" que incluem "incidentes de violência sexual e de gênero", de acordo com o documento.

Algumas das vítimas são submetidas a tratamento médico forçado e à "aplicação discriminatória de políticas de planejamento familiar e de controle de natalidade".

A ONU recomendou que a China tome medidas imediatas para libertar "todos os indivíduos arbitrariamente privados de sua liberdade" e sugeriu que algumas das ações de Pequim podem ser consideradas "crimes contra a humanidade".

Bachelet admitiu pressão para não divulgar relatório

'Uigures protestam na Turquia pedindo notícias sobre seus parentes e proteção à minoria étnica'

O relatório foi encomendado pelo Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) e divulgado no último dia de Michelle Bachelet à frente do órgão.

O gabinete de Bachelet na ACNUDH indicou há mais de um ano que uma investigação sobre alegações de genocídio em Xinjiang estava em andamento. Entretanto, a publicação foi adiada várias vezes, levantando acusações de algumas organizações ocidentais de direitos humanos de que Pequim estava pressionando para que o relatório, prejudicial à sua imagem, não fosse divulgado.

Em entrevista coletiva na quinta-feira passada, Bachelet admitiu que estava sob "tremenda pressão para publicar ou não publicar" o relatório, mas defendeu o atraso argumentando que buscar diálogo com Pequim não significava "fechar os olhos" para o conteúdo investigado.

A ONU diz ser incerto o número de pessoas detidas pelo governo chinês em Xinjiang, no nordeste da China, mas organizações independentes chegam a falar em mais de um milhão de pessoas.

Há cerca de 12 milhões de uigures, a maioria muçulmanos, vivendo em Xinjiang. A ONU disse que membros não-muçulmanos da etnia também podem ter sido afetados pelos abusos apontados no relatório.

No início deste ano, a BBC teve acesso a arquivos que revelaram um sistema organizado de estupro em massa, abuso sexual e tortura contra muçulmanos uigures em campos de detenção.

O governo chinês, que teve acesso ao relatório da ONU com antecedência, nega as acusações e argumenta que os campos de detenção são uma ferramenta para combater o extremismo islâmico. Pequim acusa militantes uigures de planejarem a formação de um Estado indepedente através de bombardeios, sabotagem e distúrbios cívicos.

A China também rejeita as acusações de que está tentando reduzir a população uigur por meio de esterilizações em massa e diz que as alegações de que a minoria sofre trabalho forçado são "completamente fabricadas".

BBC Brasil

Wostok 2022: os amigos da Rússia mostram suas armas




Apesar de ostentar apenas um sexto do contingente de 2018, manobra "Leste 2022" se destaca por presença de países parceiros de Moscou. Mais do que um grande show militar, trata-se de uma mensagem para o Ocidente.

Por Andreas Noll

Após semanas de preparativos, Moscou deu o sinal de partida para a manobra Wostok 2022 (Leste 2022): até 5 de setembro, Aeronáutica e tropas de paraquedistas, entre outros, demonstrarão sua prontidão ao combate em 13 locais de exercício na Rússia. Os treinamentos transcorrem na Sibéria, Extremo Oriente e nos mares de Okhotsk e do Japão.

Embora o governo não tenha divulgado o número exato dos participantes, a manobra deverá contar com mais de 50 mil soldados, 140 aeronaves e 60 navios de guerra. Portanto será bem menor do que o Wostok 2018, quando reuniu 300 mil soldados, um recorde desde o fim da Guerra Fria.

Um dos fatores que mais despertam atenção internacional desta vez é participação anunciada de diversas nações parceiras. A mensagem destinada ao Ocidente é clara: a Rússia segue tendo aliados fortes e estreitos, e é capaz de uma grande manobra, mesmo com tantos militares mobilizados para a Ucrânia.

China: de rivais a parceiras

A China é a parceira mais poderosa no Wostok 2022, tendo enviado milhares de soldados, enfatizando assim sua solidariedade com a Rússia, como fizera quatro anos atrás. Embora considerados por muito tempo concorrentes estratégicos, os chineses foram integrados em todos os níveis da manobra. Nos anos anteriores, Moscou apostara sobretudo em aliados que haviam estado sob seu controle direto durante a época soviética.

Pequim não viu na agressão russa contra a Ucrânia um motivo para cancelar sua participação no exercício ao longo de sua fronteira norte. Pelo contrário: "A meta é aprofundar a cooperação prática e amistosa com exércitos de Estados participantes, aumentar o nível de colaboração estratégica e fortalecer a capacidade de reagir a diferentes ameaças à segurança", comentou o Ministério da Defesa da China. As primeiras tropas nacionais já chegaram à região de Primorsky, no extremo leste da Rússia.

Não se trata da primeira manobra conjunta das duas potências – as quais, ainda pouco antes da invasão russa da Ucrânia, em 24 de fevereiro, haviam se comprometido a uma "amizade sem limites": em maio, seus bombardeiros já treinavam juntos na zona do Japão e Coreia do Sul. Apesar disso, até agora Pequim tem se retraído em mandar soldados ou equipamentos militares pesados em apoio à Rússia na Ucrânia.

'Participantes de Wostok 2022 acentuam caráter de cooperação multinacional'

Índia: em ambos os lados do muro

Assim como a China, a Índia também tem evitado condenar Moscou pela invasão da Ucrânia. Déli busca um caminho do meio: por um lado, fornece assistência humanitária para o país sob agressão russa; por outro mantém a cooperação estreita com Moscou. Um exemplo é que segue comprando em grande volume o petróleo russo, rejeitado pelo Ocidente.

No tocante à cooperação militar, o governo indiano busca contato com ambos os lados. Recentemente, unidades especiais americanas treinaram com unidades indianas na fronteira da China. Paralelamente especula-se sobre a intenção da Índia de comprar da Rússia um bombardeiro hipersônico de longo alcance.

Há semanas a mídia indiana noticia que o país pretende participar do Wostok 2022, embora com um contingente modesto, de no máximo 75 militares. Também aqui não se trata de uma estreia: em 2021 a Índia enviou um destacamento para a manobra Zapad, no oeste russo.

Belarus: apoio discreto contra Ucrânia

No começo deste ano, Belarus serviu como área de mobilização das tropas russas para a ofensiva ao território ucraniano. Na versão de Moscou, na época os mais de 100 mil soldados haviam simplesmente se reunido para uma manobra militar conjunta. Por outro lado, até agora o ditador belarusso, Alexander Lukashenko, evitou interferir na guerra com seus próprios soldados.

Comparada com essa mobilização em massa no oeste, a participação de Belarus no Wostok é antes simbólica: pouco mais de 250 soldados de uma brigada mecanizada da força-tarefa ocidental, informa o Ministério da Defesa em Minsk.

Tadjiquistão e Mongólia: equilíbrio entre Moscou e Pequim

Não é surpresa a participação do Tadjiquistão e da Mongólia no Wostok 2022. Ambos mantêm cooperação militar estreita com a Rússia, além de serem economicamente dependentes dela.

A presença chinesa também pode contribuir para essa decisão, já que tradicionalmente a política externa mongol persegue a meta de manter relações boas e equilibradas com suas únicas vizinhas, Rússia e China. Além desse aspecto simbólico, é possível que o Tadjiquistão e a Mongólia estejam interessados em ver a tecnologia militar russa em ação.

Deutsche Welle

A ditadura militar defendia a soberania do Brasil; a judiciária a ameaça.

 





Hoje há poder demais entregue às ONGs, que operam de mãos dadas com o Judiciário. 

Por Bruna Frascolla 

Outro tópico que merece comparação entre o movimento golpista de 64 e o de hoje é a sua conduta perante a Amazônia. Muito se discute a alegação midiática de que os comunistas estavam tramando um golpe, e que logo tomariam o poder caso Jango não fosse detido.

De fato, a União Soviética tinha espiões no Brasil. A universidade brasileira é de uma negligência indesculpável e não procura pesquisar o assunto; ainda assim, um autodidata brasileiro conseguiu trazer à luz documentos do serviço secreto tcheco no Brasil, coligidos em 1964: O elo perdido do comunismo (Vide: 2017).

Dado o alcance dos tentáculos da União Soviética, seria surpreendente se ela não tivesse serviço secreto operando no Brasil. O mesmo se dá com os Estados Unidos, cujo papel no IPES e IBAD é inflado pela esquerda de modo a transformar o fenômeno de 64 numa coisa inteiramente manietada pela CIA. Entre haver influência da CIA e ser determinado pela CIA, há uma distância. Do mesmo modo, entre haver influência soviética e determinar-se um golpe comunista, há uma distância. Se toda ação de serviço secreto implicasse golpes de Estado exitosos, haveria todo tipo de golpe no mundo inteiro.

É temerário dizer que com certeza haveria um golpe comunista no Brasil caso não houvesse golpe militar. Nem mesmo os anticomunistas mais exaltados previam uma invasão do Brasil por uma potência estrangeira. Seria possível uma quartelada comunista exitosa? Ora, os comunistas de dentro do Exército eram minoritários desde a limpa feita por Vargas – limpa esta que viria a ser concluída em 64. Se houvesse uma entrega do Brasil inteiro ao comunismo, teria de ser pelo topo, por Jango. Mas o próprio Jango era trabalhista e não comunista; era um herdeiro de Vargas, um perseguidor dos comunistas cheio de jogo de cintura, que sorri para Hitler minutos antes de se juntar aos Aliados. Às vezes um herdeiro de Vargas poderia receber dinheiro de Fidel para levar adiante a Revolução – mas sem garantia de que ele não pegasse o dinheiro e usasse para comprar uma fazenda no Uruguai.

Olhando em retrospecto, me parece que o maior benefício do golpe de 1964 não foi o de impedir um golpe comunista, mas sim impedir que a Amazônia brasileira fosse igual à colombiana – com todas as suas consequências para o resto do país.

Selva abandonada

Essa imensa porção do território nacional inóspita, conquistada à base de suor dos colonizadores, da mestiçagem, de batalhas, tratados pacíficos e até uma revolução, sempre teve uma densidade populacional baixa, muito inferior à do resto do Brasil. No entanto, esse território cheio de bichos perigosos e índios brabos, onde o homem branco não podia pôr o pé sem quinino, revelou-se cheio de riquezas naturais. Os militares então tiveram uma verdadeira obsessão pela soberania brasileira na Amazônia, que precisaria ser ocupada pelos brasileiros. Era preciso “integrar para não entregar”.

Em 1967, Castello Branco dá o passo número um nesse sentido, que é a criação da Zona Franca de Manaus com a finalidade de industrializar a região e gerar empregos que levassem os brasileiros de outras regiões a se mudar para lá. Trata-se de um incentivo econômico liberal, gerado pela isenção fiscal. Além disso, tomaram-se providências em prol da regularização fundiária na região.

A criação do polo antecedeu em poucos anos uma outra tentativa de ocupar a Amazônia, esta feita pela guerrilha. Enquanto os comunistas leais a Prestes, do PCB, depuseram os sonhos de guerrilha pouco depois do Relatório Kruschov e viraram gramscianos, em obediência a Moscou, a dissidência se espalhou numa miríade de siglas e facções guerrilheiras não-soviéticas. Os foquistas admiravam Che Guevara e pretendiam criar focos de revolta popular. Os maoístas, por outro lado, se inspiravam no modelo de revolta campesina exitoso na China. Muitos caminhos levavam à Amazônia.

Jovens idealistas contra o Brasil ontem

Entre o fim da década de 60 e o começo da de 70, alguns jovens universitários do PCdoB se despencaram dos grandes centros urbanos e rumaram ao Araguaia para infundir consciência nas massas campesinas e fomentar a revolução. Para essa área desassistida, os guerrilheiros levaram professores e até médico. Um dos capítulos mais problemáticos e negligenciados da guerrilha é o dos jovens pobres que tomaram aula de tiro com os guerrilheiros, junto com aulas de alfabetização. Trata-se simplesmente de um recrutamento de soldados infantis, pagos com conhecimentos básicos. (A este respeito, leia-se Borboletas e lobisomens, de Hugo Studart.)

É interessante notar que também isso se dava num certo paralelismo com uma iniciativa militar: o Projeto Rondon, surgido no fim da década de 60, que levava estudantes universitários para a Amazônia com o fito de aplicarem lá os seus conhecimentos no serviço da população carente.

Pois bem: lendo sobre as dificuldades enfrentadas pelos militares no desbaratamento da guerrilha do Araguaia, é fácil enxergar o tamanho do problema que foi contido ali. As dificuldades se deveram não ao armamento, à perícia ou à quantidade. Na verdade, os universitários foram abandonados à própria sorte pelo PCdoB, que não conseguiu financiamento da China, procurou a Albânia, conseguiu dela apenas apoio moral, mas mandou os rapazes e moças assim mesmo. Mesmo abandonados, eles deram trabalho porque conseguiram se infiltrar nas populações de posseiros, e foi necessária uma operação de inteligência para descobrir quem eram os guerrilheiros em meio à população local. Os militares do CIE também tiveram de se disfarçar de matutos.

Tudo isso aconteceu em concomitância com a existência das FARC. Estas, a seu turno, viriam a se envolver com o narcotráfico somente na década de 80. Ou seja: podemos bem imaginar o tipo de dor de cabeça que teríamos hoje, na Amazônia, se os guerrilheiros não fossem detidos em suas atividades doutrinadoras. Um cenário parecido com o dos senderistas talvez se desenhasse: áreas de difícil acesso cheias de fanáticos militarizados causando banho de sangue no campo, sem causar grande comoção ao poder público.

Jovens idealistas contra o Brasil hoje

Hoje há forças ligadas a potências estrangeiras atuando na Amazônia: as ONGs. Deveria ter-se tornado notório o causo contado pelo General Villas Boas do soldado que lhe comunicara a presença do rei da Noruega em aldeia indígena. Conforme explicou no programa de Bial, o rei não pedira autorização ao Brasil, nem informara ao nosso país. Outro causo que deveria ter se tornado notório é o contado por Aldo Rebelo em entrevista à Oeste este mês: que tentara entrar em área indígena acompanhado por um amigo militar, mas as ONGs que cuidavam dos índios não consentiam com a presença de um membro do Exército na região.

Outra queixa que merecia ser ouvida com atenção é a de Ricardo Salles, repetida aos quatro ventos no mínimo desde a sua saída do ministério: o Fundo Amazônia não é dado ao Brasil para que o país decida o que fazer com o dinheiro, mas sim a um punhado de ONGs que fazem o que os países doadores decidem. É evidente que a soberania do Brasil sobre a Amazônia está sob ataque.

Hoje há poder demais entregue às ONGs, que operam de mãos dadas com o Judiciário. Assim como as áreas de comunicação e educação estão muito ideologizadas, as áreas da antropologia e biologia também. É difícil encontrar profissionais isentos para fazer pareceres técnicos isentos. No entanto, é com base em pareceres supostamente técnicos e supostamente isentos que ações do Ministério Público são abertas e decisões judiciais são tomadas. Por isso o Brasil fica à mercê de ter suas obras de integração nacional barradas por via judicial e à revelia da vontade do povo. (Tenho em mente a Ferrogrão.) Nossa produção de energia também é comprometida por esse ativismo – vide a usina de Belo Monte às voltas com o MP e o Ibama, bem como a não-integração da energia de Roraima ao resto do Brasil por causa de problemas com terras indígenas no caminho.

Alienada que só, a direita brasileira reclama muito de Biden sabotando os EUA, mas não procura se informar do status energético deste país que vive de energia renovável e, ainda assim, é sabotado de todas as maneiras possíveis pelo ativismo judicial. Tudo o que o regime militar fez de bom, o regime judiciário faz de mau.

Da Amazônia às favelas

Na Colômbia, o descontrole sobre a Amazônia acabou se tornando uma tragédia urbana e acarretando sérios problemas para a soberania do país, que, desde aceitar a parceria com a DEA para combater Pablo Escobar, acabou se tornando um país satélite dos EUA. E continuam assim com a eleição de Gustavo Petro, que, a despeito do seu passado de guerrilheiro comunista, é indiscernível de um progressista do Partido Democrata. Até propôs a criação de um outro Fundo Amazônia, que é porta de entrada certa de ONGs, e levará a ideia à ONU na próxima conferência do clima.

A aliança entre guerrilha e narcotráfico, como todos sabem, também se deu no Brasil, embora de maneira muito menos dramática. O Comando Vermelho surgiu no regime militar porque foram presos, juntos, os guerrilheiros urbanos (discípulos de Marighella) e os quadrilheiros. No entanto, qualquer brasileiro há de concordar que a violência urbana se tornou uma catástrofe na Nova República. O PCC só surgiu em 1993. A figura do cracudo, pela minha memória, só surgiu em Salvador, quando eu cursava a faculdade: entre 2008 e 2011, e era chamado de “saci”. Nos anos 90, ao menos em Salvador, droga de trombadinha era cola de sapateiro.

Também no Brasil a questão do narcotráfico culminou na perda da soberania, e isso em pleno coração do Rio de Janeiro: vide a decisão monocrática de Fachin, que impede a polícia de entrar em morro. Quanto à Amazônia, não é preciso muita imaginação para pensar em como essas ONGs se portam em áreas próximas ao triângulo da cocaína onde não deixam o Exército entrar.

Balanço final

Então ficamos assim: em 1964, os militares deram um golpe com apoio da mídia e do Congresso para tirar os poderes do presidente mais ou menos eleito, prender conspiradores que queriam instaurar uma ditadura totalitária, estrangular a vida partidária e salvar a soberania do Brasil. Na presente década, o Judiciário deu um golpe com o apoio da mídia e do Congresso para tirar os poderes do presidente eleito, prender dissidentes que conversam em privado sobre o que aconteceria em caso de golpe, estrangular a vida partidária e entregar a soberania do Brasil.

Gazeta do Povo (PR)

Em destaque

Viajar para governar: quando a presença fora do município é trabalho, não ausência

Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Tista de Deda (@tistadededa)   Viajar para governar: quando a pres...

Mais visitadas