sexta-feira, abril 01, 2022

Ocidente diz que Putin é mal informado sobre a guerra




Serviços de inteligência dos EUA e do Reino Unido afirmam que assessores do presidente russo têm medo de expor a real situação das tropas russas na Ucrânia e as consequências das sanções para a economia.

Agências de inteligência do Estados Unidos e do Reino Unido afirmaram nesta quarta-feira (30/03) que o presidente russo, Vladimir Putin, não estaria sendo devidamente informado sobre a real situação da guerra na Ucrânia. Seus assessores estariam com medo de lhe expor a verdade.

Putin teria superestimado tanto a capacidade militar de seu país em uma ofensiva desse porte quanto a resistência ucraniana, assim como o impacto de sanções econômicas do Ocidente. 

"Acreditamos que ele [Putin] esteja sendo mal informado por seus assessores sobre quão ruim é a performance dos militares russos e como as sanções estão prejudicando a economia russa", disse a diretora de comunicações da Casa Branca, Kate Bedingfield, em Washington, citando informações da inteligência americana. Segundo ela, os principais conselheiros de Putin estariam "com medo de lhe dizer a verdade".

Bedingfield disse ainda que, de acordo com informações da inteligência, Putin se sentiu enganado pelo Exército russo, causando tensões contínuas entre o presidente e sua liderança militar.

Putin teria superestimado capacidade russa

A inteligência britânica corrobora as alegações. "Acreditamos que os assessores de Putin tenham medo de lhe dizer a verdade", disse Jeremy Fleming, chefe do Government Communications Headquarters (GCHQ), o serviço de inteligência e segurança britânico. 

"Vimos soldados russos, com falta de armas e moral, recusando-se a obedecer ordens, sabotando seu próprio equipamento e até mesmo derrubando acidentalmente seu próprio avião", afirmou Fleming em discurso na Universidade Nacional da Austrália, em Camberra.

Segundo ele, há erros logísticos, muitas baixas russas e caos dentro da liderança militar. "Vimos como Putin mentiu para seu próprio povo para esconder a incompetência militar", afirmou Fleming. "Ele superestimou a capacidade de seus militares de alcançar uma vitória rápida."

A guerra de Putin

O porta-voz do Departamento de Defesa dos EUA, John Kirby, concordou com a avaliação da Casa Branca de que Putin está mal informado sobre a guerra.

"São os militares [de Putin]. É a guerra dele. Ele escolheu isso. O fato de que ele pode não entender completamente o grau em que suas forças estão falhando na Ucrânia é um pouco perturbador", disse.

Para Fleming, Putin fez um erro de cálculo estratégico para o qual líderes ocidentais haviam alertado. "Tornou-se sua guerra pessoal, com o custo sendo pago por pessoas inocentes na Ucrânia e, cada vez mais, por russos comuns também", disse Fleming.

Compensação de erros

Fleming acredita que o fracasso em alcançar uma vitória rápida pode estar causando discórdia no Kremlin. "Embora acreditemos que os assessores de Putin tenham medo de lhe dizer a verdade, o que está acontecendo e a extensão desses erros de julgamento devem ser claros para o regime", disse.

Segundo ele, agora, Putin tenta compensar os erros, também dentro na própria Rússia. "Ele busca controle brutal sobre a mídia e o acesso à internet, procura sufocar as vozes da oposição e investe pesadamente em propaganda e atividades secretas."

'Em Moscou, mulher russa é detida por se manifestar contra a guerra na Rússia'

Para Marcus Hellyer, analista de defesa do Instituto Australiano de Política Estratégica, em Camberra, é "bastante óbvio" que Putin está mal aconselhado. Segundo ele, assessores de líderes autoritários aprendem rapidamente "o que o chefe quer ouvir". 

O secretário de Estado americano, Antony Blinken, também sugeriu haver uma dinâmica dentro do Kremlin em que assessores não estão dispostos a falar com Putin de maneira franca. "Um dos calcanhares de Aquiles das autocracias é que nesses sistemas não há pessoas que falem a verdade aos poderosos ou tenham a capacidade de falar a verdade para os poderosos. E acho que é isso que estamos vendo na Rússia", afirmou. 

Recentemente, a Rússia afirmou que mudaria de estratégiae deixaria de tentar invadir Kiev para se concentrar na região de Donbass. Se a mudança de fato será colocada em prática, porém, ainda é uma incógnita.

"Pode ser que eles tenham percebido que não podem derrotar completamente a Ucrânia, então vão adotar uma estratégia diferente, que é ocupar todo o Donbass, ocupar o máximo possível da costa do Mar Negro e usar isso para a sua estratégia de negociação", considerou Hellyer.

Ele também disse suspeitar que, ao divulgar que Putin estaria sendo mal informado por assessores, além de tentar explicar os eventos, as agências ocidentais possam ter a intenção de semear a dissidência ou alimentar dúvidas sobre o julgamento de Putin dentro da Rússia.

Deutsche Welle

‘Profil durch kontrast’




A expressão alemã, que vale políticos e carros, diz que é preciso um contraste para se ganhar um perfil

Por William Waack (foto)

Ao fim da era petista, Lula era o líder popular que desperdiçou uma chance histórica (o ciclo das commodities), presidiu o maior esquema de corrupção da história brasileira e apontou uma sucessora inepta que levou o Brasil à maior recessão enfrentada por um país que não estava em guerra. Hoje, recuperou de maneira formidável a imagem e é tido por ex-adversários como salvador da democracia.

Esse perfil vem pelo contraste com o seu principal adversário, Jair Bolsonaro. Lula nunca foi um radical e continua não sendo. Nunca foi um político de grandes ideias, seu “movimento” político é ele mesmo e mais ninguém. O lulismo (como o varguismo, o peronismo) é a figura de quem lhe empresta o nome, e não deixa sucessores. Sua “genial” jogada política de conquistar um ex-adversário para ter “o centro” a bordo é apenas o óbvio de quem sabe que, sozinho, não ganha.

A “fortuna” de Lula, no sentido que Maquiavel deu à expressão, é Bolsonaro. O atual presidente desperdiçou uma rara onda disruptiva, em boa parte nascida do antipetismo, que expressava um profundo desejo de mudança. Sem saber fazer política, além de vociferar boçalidades para seguidores nos cercadinhos físicos (porta do palácio) e mentais, ressaltou o patrimonialismo, cedeu instrumentos de poder do Executivo para o Legislativo e deixa o País governado por aqueles que estavam envolvidos com Lula nos piores momentos da “política”.

Vale a pena repetir: o Centrão, e o que ele possa significar (moralmente, inclusive), está perfeitamente à vontade com Lula ou com Bolsonaro. Seus caciques estão empenhados em garantir seu próprio poder, o que significa formar bancadas nutridas sem as quais nenhum dos dois líderes das pesquisas será capaz de governar. 

Nesse sentido, para citar o sociólogo Bolívar Lamounier, a “armadilha da renda média” na qual o Brasil se encontra, com produtividade e crescimento estagnados há décadas, é a armadilha perfeita. Ela gerou um sistema político e de governo que sustenta e é sustentado pelo patrimonialismo que não tem noção de nação ou sequer da urgência de se combater desigualdade e injustiças sociais – as mazelas de sempre, da qual falamos sempre.

De novo parece estar se fechando uma janela de oportunidade para se livrar do que Lula e Bolsonaro representam. Ao se fechar, ela favorece Lula em duas medidas importantes. A inflação é o arrasto que torna Bolsonaro um favorito a perdedor. E a guerra lá fora dá ao Brasil, paradoxalmente, algumas vantagens típicas de um país isolado.

A fortuna está com Lula. 

O Estado de São Paulo

Otan desmente recuo anunciado de tropas russas




Secretário-geral, Jens Stoltenberg, diz que informação é falsa

Bruxelas - O secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Jens Stoltenberg, disse que é falsa a informação por parte de Moscou de mandar recuar as tropas. 

Para ele, as tropas não estão recuando, e sim reagrupando-se em território ucraniano.

O secretário-geral da Otan acredita que o objetivo é reforçar a posição russa na região do Donbass, no Leste da Ucrânia.

Jens Stoltenberg também acredita que as Forças Armadas ucranianas estão conseguindo resistir à invasão russa, com a ajuda do armamento que tem sido disponibilizado por países aliados.

Reino Unido

Relatório diário do Ministério da Defesa do Reino Unido diz que as forças de Moscou ainda ocupam posições a leste e oeste de Kiev.

Os bombardeios continuam em Chernihiv e há também relatos de ataques nos arredores da capital Kiev.

Há, no entanto, a informação de que a Rússia teria retirado 300 soldados de Chernobyl, com sintomas de exposição a altas doses de radiação.

Cruz Vermelha

Imagens aéreas confirmam ataque a um armazém da Cruz Vermelha em Mariupol. 

O local estava vazio e, por isso, não há registro de mortos ou feridos.

O local atacado servia para armazenamento de ajuda humanitária.

RTP - Rádio e Televisão de Portugal

Agência Brasil

Guerra na Ucrânia divide ultradireita alemã




Ao ordenar a invasão da Ucrânia, o presidente russo deixou confusos os grupos de extrema direita da Alemanha. Alguns admiram o autoritarismo de Putin. Outros simpatizam com organizações neonazistas da Ucrânia.

Para as organizações de extrema direita da Alemanha, está sendo difícil chegar a um consenso sobre a invasão da Ucrânia ordenada pelo presidente russo, Vladimir Putin. A observação parte de pesquisadores que monitoram os meios neonazistas do país: enquanto alguns grupos se alinham com o autocrata russo anti-Otan, outros se solidarizam com o ucraniano "Batalhão Azov", de direita radical.

O pesquisador e jornalista Nicholas Potter, da Fundação António Amadeu, um dos principais institutos alemães de pesquisa sobre a ultradireita, registra que o lado pró-ucraniano representa uma ligeira maioria entre os neonazistas da Alemanha. No entanto, é importante fazer a distinção entre eles e os combatentes no país.

"Esses partidos, indivíduos, movimentos, não são democratas convictos, que acreditem na soberania da Ucrânia e apoiariam o governo do presidente judeu Volodimir Zelenski", explicou Potter à DW. "Seria um erro dizer que eles lutam pelos mesmos ideais por que tantos ucranianos estão lutando."

Segundo Johannes Kiess, especialista em radicalismo de direita do Instituto Else Frenkel-Brunswick da Universidade de Leipzig, os neonazistas pró-ucranianos da Alemanha são sobretudo motivados por suas conexões com os grupos ultradireitistas do país vítima de invasão: "Nos meios das artes marciais, dos hooligans, dos neonazistas, há redes pan-europeias. Também há ligações com a Polônia. Não é apenas um assunto teuto-ucraniano."
Nazistas pró-ucranianos

Entre os partidos mais obviamente pró-ucranianos está o III. Weg (Terceiro Caminho), um grupo de militantes neonazistas "barra pesada", fundado em 2013, que conta apenas algumas centenas de afiliados. Eles fizeram manchetes brevemente em outubro de 2021, ao organizarem grupos para "patrulhar" a fronteira teuto-polonesa contra migrantes, numa operação rapidamente encerrada pela polícia.

Em seu website, o III. Weg – que treinou com o Batalhão Azov e já convidou seus membros para palestras – diz que "rejeita imperialismo russo com a finalidade de estabelecer a União Soviética", e iniciou campanhas para ajudar nacionalistas ucranianos em fuga.

Potter crê que extremistas de direita como o III. Weg veem a Europa como uma aliança de nações brancas, e a Ucrânia, portanto, como uma nação de cidadãos brancos com direito à autodeterminação. Além disso, os ultradireitistas alemães invejam a força do movimento da Ucrânia, com suas várias organizações paramilitares de direita.

A isso se somam os preconceitos da direita radical da Alemanha contra a Rússia, embora obviamente não se trate mais de uma nação comunista. "Interessante como aqui é forte o papel do anticomunismo. De um jeito bizarro, é quase como se eles entendessem de forma literal a propaganda de Putin: ele diz que está indo desnazificar a Ucrânia, e eles o veem como uma espécie de ameaça esquerdista, antifascista."

'Mesmo antes da guerra de Putin, Azov já treinava civis no leste da Ucrânia'

Inspirados pelo Batalhão Azov

Pesquisadores têm também registrado nas redes sociais de direita muita especulação sobre a eventualidade de ir para a Ucrânia participar da guerra, talvez em aliança com o Batalhão Azov. Baseado em Mariupol, no litoral do Mar de Azov, ele foi fundado em 2014 como milícia voluntária, a fim de combater os separatistas pró-russos do leste ucraniano.

Apesar de acusações de tortura e crimes de guerra e suas bem conhecidas simpatias neonazistas, em novembro de 2014 o regimento foi incorporado à Guarda Nacional da Ucrânia, após a anexação da península da Crimeia por Moscou. O movimento político Azov foi criado nos anos seguintes, porém obteve pouco sucesso eleitoral.

No entanto não há praticamente nenhum indício de que neonazistas alemães tenham de fato ido se unir às fileiras do Azov. Na terceira semana de março, a Belltower.News, plataforma de notícias da Fundação António Amadeu, pediu ao Ministério alemão do Interior cifras oficiais a respeito: dos neonazistas conhecidos, apenas 27 haviam demonstrado qualquer intenção de viajar para a Ucrânia, a fim de lutar.

Mesmo entre os que empreenderam a viagem, que não seriam mais de cinco, não se sabe se participaram de qualquer combate nem a que grupos possam ter se associado no país.

Aliança pró-Putin

Nesse ínterim, o autocrático presidente da Rússia também atrai simpatias nas margens da extrema direita alemã. "Quando Putin vencer, os homens voltarão a ser homens, e não mulheres, eletricidade e combustível ficarão mais baratos, a islamização acabará e os esquerdistas do Partido Verde vão ser todos trancafiados", dizia uma mensagem num grupo de chat da pequena facção radical Freie Thüringer (Turíngios Livres), no serviço de mensagens instantâneas Telegram.

O grupamento mais explicitamente pró-Putin é o dos Freie Sachsen (Saxônios Livres), formado apenas um ano atrás, autodescrito como uma "organização guarda-chuva", que permite filiação a outras. Eles se superpõem com os teóricos de conspiração do movimento Querdenker, que se opõe às restrições governamentais no contexto da pandemia de covid-19.

Agora, o Freie Sachsen acusa a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de ser parte de um conspiração globalista que contribuiu para instigar a guerra. Segundo Kiess: "É muito claro que eles se veem como parceiros ideológicos de Putin. E eu diria que isso se aplica à ideologia conspiratória do meio, como um todo."

Dilema para ultradireita estabelecida

Por sua vez, os partidos ultradireitistas alemães mais estabelecidos se veem num dilema político: para a Alternativa para a Alemanha (AfD) tem se provado difícil estabelecer uma posição unificada.

Enquanto os líderes partidários nacionais, como o presidente Tino Chrupalla, aderiram desde o início à condenação da invasão russa, figuras regionais influentes têm se mostrado bem mais ambivalentes: Björn Höcke, líder da AfD no estado da Turíngia, descreveu os ucranianos como "vítimas de uma confrontação geopolítica global entre a Otan e a Rússia".

"Eles são muito próximos ideologicamente: querem um 'homem forte', são contra a democracia moderna e temáticas como a igualdade de gêneros", analisa Johannes Kiess. "Mas, claro, sabem que é muito difícil com a opinião pública atual, quando a maioria dos alemães tem uma ideia muito clara de quem começou a guerra, e que é uma guerra pavorosa."

A AfD tem tradicionalmente apoiado o chefe do Kremlin e, como numerosas siglas europeias de ultradireita, seus principais políticos mantêm laços com Moscou e recebem seu apoio ativo.

A oposição de Putin a organizações ocidentais como a Otan e a União Europeia se encaixa bem com a forte base eleitoral da AfD no Leste da Alemanha, que é cética quanto à filiação à UE e cujos laços históricos incluem resquícios de empatia cultural com a Rússia.

Na avaliação de Kiess, a legenda ultradireitista está provavelmente ávida de explorar a crise para alimentar sua retórica anti-Berlim: "Acho que, mais cedo ou mais tarde, veremos a AfD tentar minimizar a guerra e deixá-la para trás, tão logo na Alemanha o foco se desvie para a segurança energética e os preços do combustível."

Deutsche Welle

Rússia estabelece prazo para pagamento de gás em rublos




Putin afirma que cortará o fornecimento de energia russa aos compradores estrangeiros que não pagarem na moeda local a partir desta sexta-feira. Europa rejeita mudança, e Alemanha acusa Moscou de "chantagem".

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, exigiu que compradores internacionais paguem pelo gás russo em rublos a partir desta sexta-feira (01/04) ou terão seus suprimentos cortados – uma postura que governos europeus rejeitam e que Berlim descreveu como "chantagem".

A exigência de Putin, sacramentada num decreto assinado nesta quinta-feira, deixa a Europa sob o risco de perder mais de um terço de seu fornecimento de gás. A Alemanha, mais dependente do gás russo, já ativou um plano de emergência que pode levar a maior economia da Europa a impor um racionamento em seu território.

As exportações energéticas são a arma mais poderosa de Putin enquanto ele tenta contornar as amplas sanções impostas pelo Ocidente contra empresas e bancos russos, bem como contra empresários e aliados do Kremlin, em resposta à invasão russa da Ucrânia.

Em pronunciamento na televisão nesta quinta-feira, o presidente da Rússia afirmou que os compradores de gás russo "devem abrir contas em rublos em bancos russos". "Será a partir dessas contas que os pagamentos serão feitos para as entregas de gás a partir de amanhã [1º de abril]", disse Putin.

"Se tais pagamentos não forem feitos, consideraremos inadimplência por parte dos compradores, com todas as consequências decorrentes. Ninguém nos vende nada de graça, e também não faremos caridade – ou seja, os contratos existentes serão interrompidos", acrescentou.

A decisão de Putin de exigir o pagamento em rublos acabou valorizando a moeda do país, que havia sofrido baixas históricas após a invasão da Ucrânia em 24 de fevereiro. Desde então, o rublo vem se recuperando.

Ocidente reage

Empresas e governos ocidentais rejeitaram qualquer alteração da moeda de pagamento nos contratos de compra de gás – a maioria dos compradores europeus usam o euro. Executivos afirmam que levaria meses ou mais para renegociar os termos dos contratos.

O pagamento em rublos também atenuaria o impacto das sanções ocidentais que restringem o acesso de Moscou às suas reservas cambiais.

Enquanto isso, países europeus correm contra o tempo para garantir alternativas de abastecimento – com poucas opções, já que o mercado global está saturado. Os Estados Unidos, por exemplo, já ofereceram mais de seu gás natural liquefeito, mas não o suficiente para substituir a oferta russa.

Em reação à postura de Moscou, o ministro da Economia alemão, Robert Habeck, afirmou que a Rússia não foi capaz de dividir a Europa e que os aliados ocidentais estão determinados a não serem "chantageados" pelo governo russo. Berlim declarou que, apesar das ameaças de Putin, continuará pagando pelas importações de energia russa em euros.

Já o ministro da Economia francês, Bruno Le Maire, disse que França e Alemanha estão se preparando para um possível cenário de interrupção do fluxo de gás russo. Mas ele se recusou a comentar detalhes técnicos sobre as últimas exigências russas de pagamento em rublos.

A jogada de Putin

Putin justificou que essa mudança na moeda de pagamento fortaleceria a soberania da Rússia, dizendo que os países ocidentais estão usando o sistema financeiro como uma arma, e que por isso não faz sentido para a Rússia continuar comercializando em dólares e euros uma vez que os ativos nessas moedas estão congelados pelas sanções impostas contra Moscou.

"O que está acontecendo? O que já aconteceu? Temos fornecido nossos recursos aos consumidores europeus, neste caso o gás. Eles o recebem, nos pagam em euros, os quais eles mesmos congelam. Nesse sentido, temos toda a razão em acreditar que entregamos parte do gás fornecido à Europa praticamente de graça", afirmou o presidente russo. "Isso, é claro, não pode continuar."

Várias empresas europeias com contratos russos não fizeram comentários ou não responderam imediatamente a pedidos de contato da imprensa, enquanto o anúncio de Putin gerou ainda mais tensões no mercado.

Os preços de gás na Europa explodiram nos últimos meses em meio à crescente tensão com a Rússia, aumentando o risco de recessão. O aumento dos preços de energia inclusive já forçou empresas, como fabricantes de aço e produtos químicos, a reduzir sua produção.

Deutsche Welle

Delirante, Bolsonaro diz que não houve golpe em 1964, ataca o STF e defende Daniel Silveira




Bolsonaro diz que em 1964 nenhum presidente foi derrubado...

Por Guilherme Mazui e Paloma Rodrigues

Em discurso no Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro defendeu os presidentes da ditadura militar que governou o Brasil de 1964 a 1985. Bolsonaro não fez menção à censura, às torturas e às mortes cometidas pelo regime. Também defendeu o deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por participar de atos antidemocráticos e ataques às instituições.

Bolsonaro falou durante evento de despedida de ministros que vão deixar o governo para disputar as eleições em outubro. E começou o discurso lembrando que nesta quinta é aniversário do golpe militar de 1964.

NÃO HOUVE GOLPE? – Bolsonaro, ao contrário do que registra a história, afirmou que não houve golpe. “Hoje, 31 de março. O que aconteceu em 31? Nada. A história não registra nenhum presidente da República tendo perdido o seu mandato nesse dia. Por que então a mentira? A quem ela se presta?”, começou o presidente.

Depois, omitindo a violência do regime, a perseguição a opositores e a cassação de direitos individuais, disse que, na época, todos tinham direito de ir e vir.

Nesse momento, ele se dirigiu ao deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), que estava na primeira fila da plateia, ao lado de ministros, havia se recusado a usar tornozeleira, mas acabou recuando.

DIREITO DE IR E VIR – “Todos aqui tinham direito, deputado Daniel Silveira, de ir e vir, de sair do Brasil, de trabalhar, de constituir família, de estudar, como muitos aqui estudaram naquela época”, continuou Bolsonaro.

“Quem esteve no governo naquela época fez a sua parte. O que seria do Brasil sem obras do governo militar? Não seria nada, seríamos uma republiqueta”, completou.

Bolsonaro então aproveitou o discurso para voltar a fazer ataques a ministros do STF. Nos últimos anos, o presidente protagonizou momentos de severa crise institucional com o Judiciário ao subir o tom em declarações sobre os ministros.

TRÊS PODERES – Sem citar nomes, afirmou que há “poucos inimigos” no Brasil e que eles habitam a “região dos Três Poderes” – a praça em Brasília que fica entre o Palácio do Planalto, Congresso e STF.

“Temos inimigos, sim. São poucos inimigos de todos nós aqui no Brasil, poucos, e habitam essa região dos três poderes. Esses poucos podem muito, mas não podem tudo”, declarou. Nesse ponto, Bolsonaro se exaltou e mandou aqueles que não tenham “ideias” para o país calarem a boca e vestirem a toga “sem encher o saco”.

“Nós aqui temos tudo para sermos uma grande nação, para sermos exemplo para o mundo. O que que falta? Que alguns poucos não nos atrapalhem. Se não tem ideias, cale a boca! Bota a tua toga e fica aí sem encher o saco dos outros! Como atrapalham o Brasil!”, atacou Bolsonaro.

INQUÉRITO EM ABERTO – Bolsonaro não citou o nome da ministra Rosa Weber, mas criticou a decisão da magistrada que negou o arquivamento do inquérito que investiga se o presidente cometeu crime de prevaricação no caso da negociação da vacina Covaxin.

“Agora, esses dias, a Polícia Federal diz que não tenho nada a ver e nem a Saúde com uma vacina que não foi comprada, que não foi gasto um real, mas uma ministra [disse] : ‘Não, eu não vou arquivar. Isso é passível de detenção do presidente’. O que essas pessoas querem? O que que têm na cabeça? No que essas pessoas ajudam o Brasil?”, disse Bolsonaro.

Bolsonaro lamentou a ausência na cerimônia do pastor Milton Ribeiro, demitido nesta semana do Ministério da Educação. Segundo o presidente, Milton deixou o governo mas pode voltar. ‘Não está aqui infelizmente o nosso ministro Milton, que nos deixou temporariamente”, declarou.

MINISTROS DE SAÍDA – Os ministros que saíram do governo para disputar as eleições são: Braga Netto (Defesa): cotado para ser vice de Bolsonaro; Tarcísio Freitas (Infraestrutura):  governo de São Paulo; João Roma (Cidadania): governo da Bahia; Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos): Senado ou à Câmara; Marcos Pontes (Ciência e Tecnolgia): deputado federal por São Paulo; e Onyx Lorenzoni (Trabalho):  governo do Rio Grande do Sul.

E mais: Flávia Arruda (Secretaria de Governo): Senado no Distrito Federal; Tereza Cristina (Agricultura): Senado no Mato Grosso do Sul; Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional): ao Senado no Rio Grande do Norte; e Gilson Machado (Turismo): Senado em Pernambuco.

Nota do blog Tribuna da Internet – Bolsonaro parece que não regula bem. Dizer que não houve golpe em 1964 e nenhum presidente foi deposto é uma afronta ao bom senso e à História Republicana. Houve golpe, prisões, torturas, banimentos e assassinatos com requintes de crueldade. Os governos militares foram administrativamente bem, não há dúvida, mas não se pode esconder o golpe político-militar e as atrocidades. (C.N.)

G1 / Tribuna da Internet

O golpe do tio Sam em 64




Por José Nêumanne (foto)

Goulart não foi derrubado há 58 anos por militares brasileiros para evitar uma república sindicalista, mas por intervenção militar dos EUA para atender a interesses econômicos de suas grandes empresas

Há 58 anos, perduram várias dúvidas sobre o pronunciamento militar que deu início à mais longeva interrupção da democracia no continente americano. A mais antiga delas atribui a data em que é festejado pela direita e pelos militares como sendo o da efeméride: 31 de março. Mas uma mistura de dúvida e anedota atribuiu o início da derrubada do presidente democraticamente empossado, João Belchior Marques Goulart ao dia seguinte, 1.º de abril, data consagrada nacionalmente de forma jocosa á mentira, Na madrugada desse dia as tropas sob o comando do general Mourão Filho, que a si mesmo chamava de “vaca fardada”, avançaram rumo ao Rio de Janeiro para evitar reações de outros milicos ao golpe, caso do célebre almirante Aragão, contra quem o então governador da Guanabara, o golpista Carlos Frederico Werneck de Lacerda, se armou para resistir ais fuzileiros navais sob seu comando, enquartelado no palácio.

A efeméride, contudo, não tem importância nenhuma, pois o certo é que, mesmo tendo sido considerada extinta com a eleição indireta de Tancredo Neves e José Sarney pelo Colégio Eleitoral, que instituiu a chamada Nova República para lhe decretar o fim, que, pelo menos nos quartéis, até hoje não se consumou. Durante meio século e mais oito anos, o comando geral do Exército e seus subordinados nas casernas divulgaram ordens do dia, ignoradas por todas as autoridades civis governantes, exaltando os valores democráticos como se tivessem restaurado, e não dizimado a democracia vigente desde a Constituição liberal de 1946. Agora, graças à farta documentação disponível no Arquivo da Segurança Nacional, organização não governamental atuante nos EUA, é possível saber que essa enganação absurda, segundo a qual a interrupção da ordem civil foi necessária para garantir a eleição presidencial de 1951, não é coisa nossa. Mas a importação de um pretexto inventado por ianques, entre os quais se destacaram os presidentes John Kennedy e Lyndon Johnson, o diplomata Lincoln Gordon e o general Vernon Walters, agente da CIA, operando na Embaixada. A ação subversiva custou US$ 11 milhões, uma dinheirama à época, conforme o próprio Kennedy, só convencido pelo argumento de Gordon de que muito mais custaria uma campanha eleitoral.

A fímbria do tapete que tem encoberto a narrativa dos fatos foi levantada na primeira vez com a divulgação do teor de uma fita gravada em 31 de março de 1964, na qual, o substituto de Kennedy no Salão Oval da Casa Branca, Johnson, foi informado oficialmente da ida de uma força-tarefa naval das Antilhas para o litoral de Santos na “Operação Brother Sam”. Era composta de um porta-aviões, quatro contratorpedeiros e cruzadores de apoio, além de navios petroleiros. O Brasil siybe disso na reportagem de Marcos Sá Corrêa, publicada no Jornal do Brasil e reproduzida no livro 1964 Visto e Comentado pela Casa Branca, de 1977.

Camilo Tavares teve acesso à degravação da tal fita quando pesquisava sobre 64 na vida de seu pai, Flávio Tavares, que foi trocado pelo embaixador americano, Charles Elbrick. E o que ele descobriu na pesquisa de três alentados volumes alterou o objetivo de sua pesquisa, adiada, por causa de descobertas que estarreceram o cineasta e seu pai, o jornalista e escritor Flávio Tavares.

Com a ajuda do pai, que fez as entrevistas com personagens e especialistas, montou o documentário O dia que durou 21 anos, que estreou nos cinemas brasileiros em 27 de setembro de 2012 e hoje é disponível em streaming na Globoplay (para assinantes) e no YouTube (gratuitamente). O documentário ainda não mereceu de historiadores e repórteres a atenção devida, pois comprova em gravações de própria voz de Kennedy, Johnson e Gordon a evidência cristalina e absoluta de que a chamada revolução gloriosa ou redentora do Exército brasileiro não passou de uma traição asquerosa à Pátria a serviço da maior potência estrangeira, que a financiou, planejou e executou para evitar consequências danosas a grandes empresas ianques como a telefônica ITT e a energética Amforp, cujas filiais no Rio Grande do Sul foram nacionalizadas pelo então governador, Leonel Brizola, cunhado do presidente e prócer antiamericanista no Brasil à época.

Então a esquerda estudantil intuiu o que o documentário revelou ao gritar a plenos pulmões nas passeatas contra a ditadura: “Chega de intermediários, Lincoln Gordon para presidente”. Os generais do golpe, que, na verdade, não passou de uma intervenção militar colonialista americana, protagonizaram vexames, como as intimidades que Castello Branco, tido como um homem reto, contava a seu amigo Vernon Walters, dublê de general do exército dos EUA e agente da CIA. Lúcidas observações dos historiadores Carlos Fico, PeterKornbluh, coordenador da Ong Arquivo da Segurança Nacional, e James Green, da Universidade Brown, em Providence, Rhode Island, guiam o espectador pelos caminhos tenebrosos e tortuosos da verdade histórica, que ordens do dia mentirosas não ocultam.

Meu papo com Camilo Tavares no Dois Dedos de Prosa no canal do YouTube, editado no aniversário oficial da ignomínia, ocorre no momento em que o presidente da República, Jair Bolsonaro, eleva o notório torturador dos subterrâneos da ditadura cabocla, financiada por empresários norte-americanos, coronel Brilhante Ustra, ao apanágio da Pátria, que ele diz amar . O que 58 anos de cegueira em relação à verdade fundamental da intervenção americana fantasiada de golpe é um vexame a se acrescentar a escravidão, abolição, Canudos e Contestado, em nome da República. Esta é pior, pois, como lembra Kornbluh, na última fala do filme: “e tudo foi feito em nome da democracia.”

*Jornalista, poeta e escritor

Blog do José Neumanne

O asno de Buridan atualizado em prol da paz




Por que se julgam estes vinte intelectuais de esquerda de tal modo acossados por uma sociedade que em nada os incomoda e lhes dá, como obviamente deve dar, toda a liberdade de palavra? 

Por Paulo Tunhas (foto)

Nunca na minha vida tinha visto um tão extenso rol de queixumes. A propósito da invasão russa da Ucrânia, um grupo de vinte intelectuais de esquerda subscreveu um abaixo-assinado que tem por título “Pela paz contra a criminalização do pensamento”. De que se queixam eles? Preparem-se, que a lista é longa. Por ordem: de serem vítimas de um “ambiente tóxico”, de “hostilização”, de “desacreditação pessoal”, de “intimidação”, de “escárnio”, de “desacreditação social”, de “pressão”, de “perseguição”, de “deturpação”, de “criminalização”, de serem objecto de uma “deriva totalitária”, de “intolerância” e de “censura”. Uf!

E qual a razão de tão inominável praga ter sobre eles caído? O motivo só acentua o horror e a tragédia do seu destino. A única razão de assim se terem transformado em párias de uma sociedade cruel é terem ousado “pensar diferente”. Como nos lembram, “pensar traz consequências”, e estas são tão mais dolorosas quanto “o poder político se sente proprietário das formas de pensar”, instituindo um “pensamento único” ao serviço daqueles que “colocaram de quarentena a faculdade de pensar”. Se, em geral, “pensar não é uma tarefa fácil”, como nos asseguram, certamente com conhecimento de causa, particularmente quando se trata de “pensar historicamente”, a missão roça o impossível quando se trata de elaborar “um pensamento subversivo que põe em causa a ordem das coisas” e a “criminalização da pluralidade do pensamento” atinge níveis nunca vistos. Estamos praticamente em presença, para utilizar os termos do governo russo a propósito dos russófonos do Donbass, de um “neo-holocausto” intelectual.

As forças de que o “poder” se serve para subjugar os seus heróicos, e aparentemente infrutíferos, esforços de pensamento são claramente expostas. São as forças de uma “sociedade onde o conhecimento é uma desvantagem e o saber não ocupa lugar” e que, “de forma acéfala”, propaga “opiniões irrelevantes e banais, sem referências éticas, e uma maneira de ser flexível e fútil”. O corolário do reino perverso dessas opiniões acéfalas, que dificilmente escondem “o desejo patológico de que a guerra se alastre à escala global”, é assinalado com grande profundidade filosófica: “O mundo torna-se instantâneo. Pode-se mudar mil vezes de princípios”.

Quem tiver lido a lista dos queixumes reproduzidos no primeiro parágrafo poderá compreensivelmente pensar que a força opressiva do “poder” se manifesta de forma tão implacável quanto as tropas invasoras de Putin se comportam na Ucrânia, destruindo cidades inteiras, causando inumeráveis mortes e provocando um fluxo de refugiados nunca visto na Europa depois da Segunda Guerra Mundial. Cometeria, no entanto, um erro quem pensasse desta maneira. Porque, para os signatários, a situação na Ucrânia é complexa e quem falar da luta de um povo pela sua soberania e liberdade contra uma potência invasora, assim resumindo a situação, simplifica “de forma acéfala” a realidade, impedindo “a compreensão do mundo em que vivemos de forma crítica”, ao passo que a “intimidação”, etc., de que as vinte personalidades afirmam ser objecto é de sentido único e inequívoco. Por outras palavras: temos aqui direito a vítimas em estado puro.

Há nesta auto-descrição dos signatários uma mistura inextricável de ridículo, grotesco e obscenidade. Ridículo: a auto-importância que a si mesmos se dão. Grotesco: a própria afirmação de que são “perseguidos”, afirmação sem qualquer correspondência, mesmo que remota, na realidade. Obscenidade: a comparação tácita, que é impossível não pressentir, entre a sua situação e a dos russos que, vítimas de perseguição no seu próprio país, corajosamente se manifestam contra a invasão da Ucrânia.

Vamos agora ao tal “pensamento” de que tanto falam. É, dizem, um “pensar diferente”, que “não é fácil”, “um pensamento subversivo que põe em causa a ordem das coisas”, indo contra o “pensamento único” do “poder”. Sigamos a ordem, começando pela “diferença” do pensamento. Em que consiste, precisamente, ela? Tanto quanto se percebe, numa recusa em aceitar extrair as devidas conclusões de um facto óbvio: a Rússia invadiu a Ucrânia. Disse “extrair as devidas conclusões” porque, ao contrário da diplomacia russa, não se nega o facto bruto da invasão. A subtileza do “pensamento” consiste em, não negando o facto, saltar daí imediatamente para um plano puramente abstracto em que, para falar como um filósofo, nos colocamos numa situação de perfeita indiferença em que nada nos inclina numa direcção ou outra. É, de uma certa forma, a posição do asno de Buridan, incapaz de escolher entre dois campos verdejantes a igual distância dele e assim condenado a morrer à fome. O salto para o abstracto aterra numa proposição geral cuja falsidade é patente, tornando a sua discussão, neste contexto, ociosa: “O que melhor defende a civilização da selvajaria da guerra é o apelo incessante e incondicional à paz”. O “apelo incessante e incondicional [sublinho: incondicional]” é aqui maravilhoso. Hitler e Estaline – desculpe-se a facilidade dos exemplos – tê-lo-iam apreciado sumamente e oferecido uma medalha muito reluzente aos vinte subscritores.

Percebe-se que o pensamento não seja assim “fácil”. O asno de Buridan que o diga. Não se percebe, em contrapartida, em que possa ele consistir em algo de “subversivo que põe em causa a ordem das coisas”. Tudo aponta para que seja antes um pensamento acomodatício que, enquanto apela incondicionalmente à paz, deixa livre o campo de acção ao exercício da força bruta, isto é, à “ordem das coisas”. Que se veja nisto algo de “subversivo”, só se pode explicar, francamente, pela alta opinião que os signatários têm de si mesmos e da sua missão no planeta.

As duas coisas são, de resto, testemunhadas quando nos deparamos com a caracterização que oferecem daqueles a que se opõem e que, aos seus olhos, os perseguem com sanguinário furor. A acreditar no abaixo-assinado, são criaturas acéfalas, que apenas conseguem exprimir “opiniões irrelevantes e banais, sem referências éticas, e uma maneira de ser flexível e fútil” – outra perfeição, a “maneira de ser flexível e fútil”. Por artes dialécticas, uma tal “flexibilidade” é, no entanto, capaz de conviver com uma monstruosa inflexibilidade, a saber: “o desejo patológico de que a guerra se alastre à escala global”. Esse desejo de morte é, como não podia deixar de ser, o produto da nossa sociedade, que desvaloriza o “conhecimento” e o “saber” de que os signatários são os mais lídimos representantes. E tal é o seu brilho que a sociedade, acéfala e fútil, pronta a “mudar mil vezes de princípios” (o “pensamento único” admite, aparentemente, a pluralidade – mas sob a estrita forma da sucessividade) não os pode tolerar. A mediocridade, como se sabe, concebe forçosamente um tenaz rancor contra a excelência. Daí que cometa sobre esta a extensa lista de perfídias mencionadas no primeiro parágrafo.

Não disse, de propósito, quase uma palavra sobre as intenções que eventualmente presidem a este abaixo-assinado, em particular no que respeita à transição do reconhecimento da existência de uma invasão a uma posição semelhante à do asno de Buridan em versão pacifista: limitei-me a procurar descrever o movimento geral do espírito que o governa. É verosímil que, num caso ou noutro, o desenrolar da história dos últimos trinta e poucos anos tenha baralhado as cabeças sobre o destino da U.R.S.S e da Rússia, ao ponto de conceberem estas sob o modo composto de uma espécie de Úrssia. Mas, com toda a sinceridade, não me interessa. Interessa-me sim perceber em que mundo é que vivem. Porque se julgam de tal modo acossados por uma sociedade que em nada os incomoda e lhes dá, como obviamente deve dar, toda a liberdade de palavra? Porque se crêem detentores de um pensamento subtil e subversivo? E, finalmente, qual a legitimidade da capacidade diagnóstica que se atribuem para se instituírem como consciência crítica de uma sociedade que julgam acéfala, fútil e sem princípios? Se a condição para obter resposta a estas três questões for pôr a minha assinatura num abaixo-assinado (de não mais de três linhas), subscrito por gente de esquerda e de direita que deles discorde, pedindo que a sua presença na comunicação social seja, se possível, alargada para lá da sua actual e muito substancial dimensão – é como se o meu nome já lá estivesse. A investigação científica dos mistérios da psique humana justifica todos os labores.

Observador (PT)

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