O presidente russo Vladimir Putin tem muitos defeitos, mas ninguém pode acusá-lo de não ter senso de oportunidade. Com a Europa preocupada com a escalada de preços de energia, o frio aumentando e vários países dependentes do gás russo, Putin ordenou que suas tropas, parte delas voltando de um exercício militar na Bielorrússia, montassem acampamento próximo à fronteira com a Ucrânia. O movimento causou alarme no país vizinho, nas capitais europeias e em Washington. Pelos cálculos do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, são por volta de 100 mil soldados. Um relatório da inteligência americana revelado pelo jornal The Washington Post fala em planos para uma ofensiva de 175 mil, incluindo 100 batalhões táticos, blindados e artilharia pesada.
Um movimento menor também provocou preocupação em abril, depois foi desfeito. Desta vez, ninguém sabe ao certo as intenções de Putin. A inflação está em alta na Rússia, a pandemia está longe de controlada. É bastante provável que atrair a atenção para a Ucrânia seja uma clássica manobra diversionista. Se for apenas isso, as tropas provavelmente voltarão logo para casa. Mas há dúvidas.
Para os serviços de inteligência do Ocidente, há motivos para acreditar que Putin não esteja blefando e talvez planeje anexar mais um naco do território ucraniano. No dia 1º deste mês, Putin pediu “garantias legais” de que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) não se estenderia mais para o leste. Para ele, uma aliança entre a Ucrânia e o Ocidente configura uma ameaça existencial.
Quando os ucranianos estavam prestes a aderir à União Europeia, em 2014, a Rússia anexou a Península da Crimeia. Há sete anos tem apoiado grupos de origem russa que lutam pela independência de parte da Ucrânia, num conflito que já matou mais de 14 mil. Agora Putin quer evitar a entrada na Otan, que permitiria o avanço na região de tropas lideradas pelos Estados Unidos.
Num esforço diplomático, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, encontrou o chanceler russo, Sergey Lavrov. Em novembro, o presidente americano Joe Biden mandara o chefe da CIA, William J. Burns, viajar para Moscou para avisar aos russos que, caso fossem adiante com uma invasão, as represálias econômicas viriam em seguida. Até agora, os russos não levaram a ameaça a sério, talvez contando com falta de cooperação dos europeus, dependentes do seu gás.
Para a Rússia, o conflito vai além da questão militar. O tema gera alta carga emocional. Os dois países têm fortes laços culturais. A disputa militar tem separado famílias com o fechamento da fronteira. Para Putin e seus apoiadores, a visão pró-Ocidente de Zelensky é uma traição. A Ucrânia, pelo prisma russo, deveria continuar como integrante inalienável da esfera de influência de Moscou. É o que leva analistas a dizer que a invasão até pode não acontecer desta vez, mas ocorrerá algum dia.
O Globo