quinta-feira, dezembro 09, 2021

Confira o desespero e a irresignação de Helio Fernandes em carta ao advogado Bermudes

Publicado em 9 de dezembro de 2021 por Tribuna da Internet

Tribuna' e Hélio Fernandes | Acervo

Helio Fernandes, em março de 1981, após o atentado a bomba

Carlos Newton

Conforme havíamos informado nesta quarta-feira, dia 8, aqui na Tribuna da Internet, recebemos autorização da família de Helio Fernandes para publicar uma das cartas que o grande jornalista enviou a seu advogado Sérgio Bermudes. O texto é de  fevereiro de 2009, quando a abertura da ação indenizatória da Tribuna da Imprensa contra a União e o general Ernesto Geisel já completava 30 anos.

O jornalista mais perseguido da História do Brasil foi preso ou detido para interrogatório 37 vezes, sofreu confinamento em três locais (Fernando de Noronha, Campo Grande e Pirassununga) e seu jornal ficou sob censura prévia por 10 anos, de 1968, quando houve o AI-5, até 1978. Depois, em março de 1981, o jornal sofreu um atentado a bomba que destruiu inteiramente suas oficinas.   

Nesta carta, Helio Fernandes demonstra sua irresignação e seu desespero pela atitude omissa com que o advogado Sérgio Bermudes conduzia o processo de uma indenização que o jornalista jamais viria a receber.

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LEIA A CARTA DE HELIO FERNANDES

“Meu caríssimo Sergio Bermudes”

“ Com o “sangue, suor e lágrimas” do frasista e estadista Winston Churchill, me dirijo a você. Sem recriminação, sem ressentimentos, sem mágoas, sem queixas e sem apelar para qualquer outra palavra que represente hostilidade, divergência ou contestação, faço um apelo a quem já foi e continua sendo grande amizade, dentro ou fora de tribunais.

Depois de 60 anos da Tribuna da Imprensa e 75 anos de atividade jornalística ininterrupta, Sergio, me vejo na situação desesperadora de não saber o que acontecerá ao jornalista, pessoalmente e a Tribuna, empresarialmente.

Jamais passou pela minha cabeça a idéia de que não somos mais amigos, que nosso cordial, amigável e indestrutível relacionamento tenha acabado. Se não acabou (como consideremos que não acabou) deixemos que esse PROCESSO – AÇÃO – SALVAÇÃO, tenha prosseguimento, e possa contribuir para volta do jornal, como escrevi na primeira página, no dia 1º. de Dezembro. Nesse dia usei como palavra-chave, SUSPENSÃO MOMENTÂNEA do jornal.

Nesse quadro de incerteza, considerando a absurda morosidade da justiça para resolver nossa ação, não gostaria, em hipótese alguma, que o meio jurídico atribuísse, equivocadamente, parte da responsabilidade pela atrasada entrega jurisdicional aos brilhantes profissionais que me ampararam desde o distante 1979. Longe disso e até para que isso não ocorra, gostaria de desobrigá-lo de continuar me assistindo, mesmo porque seu conceituado e inigualável escritório patrocina dezenas, senão centenas de ações mais importantes e com retorno financeiro certo e o que não vislumbro no nosso pleito.

No caso de sua desistência de continuar no presente feito, gostaria de saber qual seria o total da dívida que a “TRIBUNA” deveria saldar junto ao seu escritório, quando do recebimento de futura indenização, seja por meio do judiciário ou por meio de acordo amigável entre as partes (“Tribuna e União Federal”).

Os documentos que comprovam a lesão moral e financeira sofrida pela “Tribuna” estão apodrecendo em sala do jornal e daqui a pouco não haverá prova para reclamarmos o pagamento de indenização ilíquida e aí o prejuízo será incomensurável.

Não sou eterno e preciso da sua compreensão e manifestação, no menor prazo. Chegou a hora do tudo ou nada. Não há espaço para protelações. Os meus credores estão ansiosos e a situação vivida pela “Tribuna” me deixa profundamente vulnerável, como jornalista independente e crítico e como empresário endividado, por conta da perseguição sofrida e também pelo moroso e burocrático trâmite judicial, que, qual um remédio aplicado fora de hora, acaba apresentando resultado inócuo.

Em nome da nossa amizade e recíproca admiração, dê-me a satisfação de sua pronta resposta.

Carinhosamente,

Hélio Fernandes”.

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P.S. – A carta-desabafo de Helio Fernandes não obteve resposta de Sérgio Bermudes, que não substabeleceu a procuração, continuou inerte à frente do processo e, ao final, agora em 2021, embolsou R$ 3,9 milhões pelo trabalho que não fez, e não ofereceu um só centavo aos herdeiros de Helio Fernandes, não lhes deu um telefonema, nenhuma explicação sobre o restante da indenização ter ficado retido para pagamento de impostos e dívidas do jornal. O pior é que Bermudes é um homem riquíssimo e nem precisa desse dinheiro, que tanta falta faz à família do maior jornalista brasileiro. É um assunto revoltante para quem conheceu Helio Fernandes e conhece Sérgio Bermudes. (C.N.)

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