segunda-feira, fevereiro 11, 2008

O fedor da caixa-preta

Por: Carlos Chagas

BRASÍLIA - A outra conclusão não conduz a publicação diária e crescente, na imprensa, de gastos inexplicáveis de funcionários do governo com cartões de crédito corporativos: a crise ameaça tornar-se maior do que o escândalo do mensalão. Porque desculpas não existem para farra assim tão extensa.
De cada ministério, secretaria, repartição, empresa estatal, agência, universidades públicas e equivalentes fluem, em cascata, lambanças monumentais em termos de favorecimento pessoal ou, pior ainda, favorecendo autoridades e parentes de autoridades a que servem. A caixa-preta começou a ser aberta. É imensa. Fede. Contamina grandes e pequenos.
A pergunta que se faz é sobre suas conseqüências. A primeira, óbvia, é da desmoralização do governo. Não sobra ninguém. Pode-se prever também, em pouco tempo, a desmoralização das instituições. Em seguida, virá a pergunta inevitável do cidadão comum: fica tudo como está? Ninguém será punido? Não há como responsabilizar os culpados? Prevalecerá a impunidade de sempre? Nessa hora, valerá lembrar o saudoso Stanislaw Ponte Preta: "Ou restaure-se a moralidade no País ou locupletemo-nos todos..."
O grave, nessa história, é que a CPI vem aí, mista ou apenas funcionando no Senado. Dela, como de todas as outras, sabemos como começam, ignoramos como acabam. Melhor que se investigue, também, o período do governo Fernando Henrique Cardoso, não apenas o governo Luiz Inácio Lula da Silva, já que o sociólogo inventou essa travestida forma de levar transparência à coisa pública. O mandato de FHC terminou, o do Lula encontra-se em pleno desenvolvimento. Ambos serão, inevitavelmente, respingados.
Sinuca de bico
O Palácio do Planalto foi abandonado no Congresso, no auge do escândalo dos cartões de crédito corporativos. Exceção terá sido o líder do governo Lula no Senado, Romero Jucá, mas diante dele surge um dilema universal: também foi líder do governo Fernando Henrique. São coisas da política. Hoje, o representante de Roraima hospeda-se no PMDB, mas já pertenceu a outros partidos. Defende o passado em detrimento do presente ou volta as costas para ontem, pensando preservar o amanhã? Não parece fácil, porque a artilharia das oposições concentrou-se nele. Só das oposições? Nem pensar, porque tornou-se alvo do fogo amigo.
Em matéria de lideranças e de bancadas parlamentares, o governo vai mal. Dos companheiros, o PT só contou semana passada com Eduardo Suplicy. Sumiram os demais, inclusive a líder efetiva, Ideli Salvatti. O PMDB forma na base oficial e por isso abre a goela para reivindicar cada vez mais nomeações, mas, na hora de defender o governo na atual crise, não se viu um só de seus representantes. O senador Mão Santa não conta como exemplo, porque forma na mais candente das oposições. Chegou a chamar o uso dos cartões de "a maior molecagem verificada no País nos últimos anos".
Do PP, PR, PTB, PDT, PSB, PC do B e penduricalhos, só o silêncio. Aguarda-se para esta semana uma virada no jogo, mas como os governistas entrarão em campo sob os apupos gerais das arquibancadas? Afinal, este é um ano de eleições municipais...
Não entende porque não quer
Por falar no senador Romero Jucá: ele discursou sexta-feira, como líder, afirmando não entender "o porquê desse frisson em torno dos cartões de crédito corporativos". Acentuou que o governo não tem compromisso com o erro: quem extrapolou responderá pelo que fez. O diabo, no caso, é que de 11.510 detentores do privilégio, quantos poderão escapar incólumes?
Vai em frente
De São Paulo chegam a Brasília informações de que Geraldo Alckmin não cederá aos apelos do governador José Serra e do ex-presidente Fernando Henrique: disputará mesmo a indicação do PSDB para concorrer à prefeitura de São Paulo. O caldeirão vai ferver, porque Serra não admite outra saída senão o apoio a Gilberto Kassab, do DEM, passaporte para o apoio do partido aliado à sua candidatura à presidência da República em 2010.
A pergunta que se faz é se os tucanos terminarem apoiando Alckmin, como ficarão os antigos liberais? Insistirão na reeleição do atual prefeito, com o apoio da ala tucana que segue a orientação do governador? Um racha no ninho, acrescido da restrita ação do DEM, poderá conduzir à vitória de Marta Suplicy, do PT? Ou de algum outro candidato?
Fonte: Tribuna da Imprensa

Em destaque

Dinheiro apreendido em endereços de Jaques Wagner será periciado para identificação de origem

  Dinheiro apreendido em endereços de Jaques Wagner será periciado para identificação de origem Por José Marques, Folhapress 19/06/2026 às 1...

Mais visitadas