"Eu agarro o que me serve onde quer que eu o encontre", diz Tartufo, o personagem de Molière que representa o hipócrita ideal. A propósito da Venezuela, estamos assistindo ao fervor democrático de personalidades bem conhecidas, a começar pelo deputado Paulo Salim Maluf. Maluf e outros de seus companheiros se opõem à entrada daquele país no Mercosul, sob o argumento de que, ali, não há democracia. Podemos até mesmo concordar que o populismo de Chávez incomoda, mas incomodavam muito mais à Venezuela, desde a independência, governos despóticos (os famosos caudilhos de Táchira) e corruptos, como os de Juan Vicente Gómez, que se tornou o homem mais rico do país, e Perez Jimenez, brutal e peculatário. Mas houve ali governos realmente democráticos, como os de Romulo Bethancourt e o de Romulo Gallegos.
Outro Pérez, Carlos Andrés, também corrupto, seguiu o Consenso de Washington, levando o povo ao desespero - e provocou a rebelião, chefiada por Chávez e derrotada militarmente. Foi sob o governo democrático de Rafael Caldera que Chávez deixou a prisão e se elegeu presidente, em 1998.
Afirmam que não há liberdade de imprensa na Venezuela, mas não consta que haja ali censura aos jornais. Argumentam com o ato soberano do governo em não renovar a concessão de uma emissora de televisão envolvida diretamente no golpe de estado de 2002. O uso dos canais de televisão é um serviço público e sua concessão é do arbítrio do Estado, conforme as leis. Isso nada tem a ver com liberdade de imprensa. Há, ali, eleições, das quais participa a oposição, com observadores internacionais que têm atestado sua lisura. O plebiscito, embora o contestem, é uma forma de consulta democrática, usada também nos Estados Unidos.
O que mais nos surpreende é que a reação contra a entrada da Venezuela no Mercosul tenha como capitão o senhor Paulo Maluf e outros "democratas" de nossos dias. São tão democratas que apoiaram o golpe militar de 1964 e os sucessivos ditadores, beneficiaram-se do regime de exceção, participaram dos governos ilegítimos e arbitrários, em que havia censores dentro das redações. Serviram a governos tão respeitadores das minorias que levaram à prisão, à tortura e a morte opositores políticos (Rubem Paiva, Mário Alves, Vladmir Herzog, Stuart Angel, Manuel Fiel Filho e tantos outros), financiaram a Oban, sem que nada disso lhes perturbasse a consciência de "democratas". A anistia veio para que esquecêssemos tudo o que houve, mas não a particular democracia dos que hoje vedam a entrada de Chávez no Mercosul.
O senhor Paulo Maluf tem interessante biografia. Nela há mesmo gestos ousados, como o de bater chapa na convenção da Arena em 1978 e "ganhar a eleição" para o governo de São Paulo contra o senhor Laudo Natel, o preferido da Ditadura. Ao comentar aquele episódio, o colunista escreveu, na época, que, ao entender que a convenção era um assalto, o senhor Paulo Maluf havia assaltado o assalto, escamoteando o butim dos assaltantes.
Não nos incluímos entre os chavistas. Não admitimos que ninguém se meta nos assuntos brasileiros, não temos por que nos intrometer nos assuntos internos da Venezuela. O que sempre defendemos, no caso daquele país, é a velha divisa anglo-americana: business is business. Devemos defender a entrada do país no Mercosul porque isso nos interessa, não porque possa interessar a Chávez.
Fonte: JB Online
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