Por Roberto Barreto de Catende 05/04/2006 às 19:06
Com espumas flutuantes.
Fresquinho como um bebê do banho içado e mais fedidinho que baú de coleta de ossada em açougue, o episódio que resultou no bilhete azul da cor do mar, entregue pelo síndico ao doutor Palocci, somente servirá para algo mais que a derrubada do então Ministro se o colocar por, no mínimo, um ano no xilindró. Bem sei que, ao escapar da rede e cair numa daquelas celas privilegiadas, a idéia ganha corredores e pátios e vai levar muitos presidiários tarados a esfregar as mãos e babar feito o cão do Pavlov, quando deveriam elevar as mãos aos céus pela chegada de um sanitarista naquele ambiente infecto. Mas, esqueçam, o homem tem curso superior. Entendam que não sou eu, um simples cidadão, quem determina o destino do Palocci, mas a Lei Complementar nº 105 de 10 de janeiro de 2001, “que dispõe sobre o sigilo das operações de instituições financeiras e dá outras providências”, e estipula em seu Artigo 10: “A quebra de sigilo, fora das hipóteses autorizadas nesta (a dita 105), constitui crime e sujeita os responsáveis à pena de reclusão, de um a quatro anos, e multa, aplicando-se, no que couber, o Código Penal, sem prejuízo de outras sanções cabíveis”. E ainda há de rebarba o Artigo 11, para o servidor público, que deverá responder “pessoal e diretamente pelos danos decorrentes, sem prejuízo da responsabilidade objetiva da entidade pública, quando comprovado que o servidor agiu de acordo com orientação oficial”. Como simples e confuso cidadão, só me pergunto o seguinte: a prerrogativa do sigilo é algo válido para todo mundo ou não? Sempre que ocorra fato de tamanha gravidade, envolvendo qualquer brasileiro ou brasileira, que tenha lá seus negócios com banco, fisco, empresa telefônica ou igreja católica, não deve merecer da nossa grandumba imprensa e autoridades o mesmo tratamento dado ao caso do caseiro Francenildo? Ah, não é bem assim? Quer dizer, então, que eu me ajoelho às 8 da manhã de um domingo, conto tudo ao Padre e, durante a missa, ele aponta para minha camisa de bali, no meio das beatas, revela coisas que até Deus duvida, faz uma senhora de 70 anos olhar pra mim, como quem diz lá fora eu te pego, e me obriga a comungar como se nada fosse o que dele penso naquele exato instante? Calma com o andor, rapaz, pois a Lei não se aplica ao confessionário. Minhas desculpas, Padre Antônio, ando mutante e meio desligado. Está certo que a gente paga pra dançar, mas exige coerência no fuá. Forró é uma coisa, concerto é outra. No forró, Lazarento puxa o fole, Língua Acesa canta mole, Zumbi castiga a zabumba, Caolho machuca o pandeiro, Preá resolve no reco e Ferrinho malha no triângulo. No baile orquestrado, há um pomposo maestro com sua vara nervosa lá em cima, um trombonista com seu trombão em vaivém, um xilofonista que não larga as baquetas, clarinetista usando todos os dedos das mãos para tapar buracos, contrabaixista ralando no bojudo contrabaixo, flautinista acordando a madame com seu penetrante flautim e pianista sensivelmente martelando os ouvidos da platéia, antes da catástrofe final com bombo e tantã. Nos dois casos, sempre dançamos, mas o orquestrado sai mais caro. Por favor, mais respeito no salão! E agora dá licença que vou me preparar para a próxima dança, tomando meu banho de ética, com sabonete de lama de Araxá, pois adoro ver a coisa toda sob espuma saudavelmente preta, perdão, afro-descendente.
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