Por: Gabriel Manzano Filho
Comissão não apurou a fundo esquema nos Correios, desistiu de pedidos de quebra de sigilo e ignorou suspeitos
Ao fim de dez meses de trabalho e um calhamaço de 1.857 páginas, a CPI dos Correios ganhou muitos elogios, pela contundência de suas conclusões, mas deixou pontas soltas, ou episódios ainda obscuros, que não tardarão a voltar à cena. Não se abriu o sigilo de dezenas de suspeitos - a começar por políticos que mudaram de partido - nem foram convocados a depor muitos assessores de deputados, que estiveram pessoalmente no Banco Rural, em Brasília, para apanhar o dinheiro do mensalão.
A comissão também cuidou pouco do que era o seu tema original - o esquema de corrupção encravado nas franquias dos Correios - e não se aplicou em saber se o publicitário Duda Mendonça pagou impostos para trazer seu dinheiro de Miami. Não ouviu figurões afundados em denúncias, como o então presidente do PT, José Genoino, nem os ministros da Articulação Política, Aldo Rebelo, e das Comunicações, Miro Teixeira, tidos como testemunhas de encontro no qual o deputado Roberto Jefferson (hoje cassado) teria avisado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que havia o mensalão na Câmara.
Pode-se somar a isso a complexa investigação do vai-vém dos doleiros e das operações dos fundos de pensão, que a comissão mal conseguiu arranhar. O próprio relatório do deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) traz em seu capítulo financeiro o título "Linhas de investigação não concluídas", no qual se revela, por exemplo, que dos 198 mil registros de informação financeira checados, mais de 113 mil - ou seja, 57% - traziam o aviso "depositante não informado". Nesse universo, que nem grandes consultorias dominam direito, a comissão afundou em papéis demais, em informações falsas e em um paredão enorme de sigilos protegidos por lei. Só nos fundos, pelos cálculos da comissão, escondem-se R$ 400 bilhões, nos sistemas aberto e fechado de previdência, que abrangem 14 milhões de brasileiros.
"A Caixa Econômica, sozinha, mereceria outra CPI", acrescenta uma das participantes mais indignadas da comissão, a juíza e deputada Denise Frossard (PPS-RJ). "Não foi só a Gtech, aquilo era um enorme duto para produzir dinheiro e não tivemos tempo de apurar", diz. "Essa é uma questão gravíssima, que vem desde os tempos do Waldomiro Diniz."
Comparados com o resultado do relatório, esses buracos, na avaliação dos membros da CPI, de políticos e técnicos que leram o texto final, não são coisa grave. "Nunca antes outra comissão foi tão longe", compara Denise Frossard. "O trabalho da CPI foi puxar o fio da meada", diz o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), um dos sub-relatores. "A investigação continua, com documentos e revelações repassados ao Ministério Público e à Polícia Federal."
"A CPI denunciou com vigor um processo que vimos lá no início, a captura do Estado por um grupo para produzir decisões nefastas ao interesse do País", resume Denise Frossard. O tucano Eduardo Paes complementa: "Ela vale como alerta que se faz, em meio a um mar de lama, numa hora em que o País parece sem perspectivas."
Fonte: Estadão
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