Por:Bernardo Mello Franco, Ediane Merola e Sérgio Ramalho
O chefe de Polícia Civil, Ricardo Hallack, determinou que a corregedoria da instituição investigue a participação de agentes no esquema de proteção aos contraventores Rogério Andrade e Fernando Iggnácio. Os dois herdeiros do jogo do bicho estão foragidos da Justiça e são acusados de disputar o controle de caça-níqueis na Zona Oeste. Segundo Hallack, a Delegacia de Repressão a Ações Criminosas Organizadas (Draco), que apura o caso, vai remeter hoje cópia do inquérito com a identificação dos policiais ao corregedor Ricardo Martins.
Reportagem publicada sábado pelo GLOBO, com base num relatório da Subsecretaria de Segurança e Inteligência (SSI) e de inquéritos do Ministério Público estadual e da Draco, revelou que 86 homens, entre eles policiais civis e militares, bombeiros e agentes penitenciários da ativa e reformados, fariam a segurança dos dois contraventores, possibilitando que eles levem uma vida normal.
O ex-chefe de Polícia Civil Álvaro Lins admitiu a participação de agentes na escolta dos contraventores:
- Os bicheiros contam com proteção de parte do aparato policial. Esses agentes facilitam a vida dos contraventores, que têm acesso a informações privilegiadas sobre operações policiais - afirmou Álvaro Lins, que deixou o cargo no fim de março para se candidatar a deputado estadual.
O ex-procurador-geral do estado e deputado federal Antônio Carlos Biscaia (PT-RJ) criticou a ineficiência da polícia. Ele disse que a maior parte da escolta aos foragidos é formada por policiais de baixa patente. Sem citar nomes, o deputado afirmou que os condenados também têm apoio de integrantes da cúpula da polícia.
- É um absurdo que um condenado a 19 anos de prisão (Rogério Andrade) transite livremente e continue determinando execuções. Quando há tolerância ao jogo, outros interesses estão sendo atendidos. Da forma escancarada como eles fazem, é um incentivo à criminalidade - disse Biscaia, que, como procurador-geral, comandou as investigações que levaram à prisão de 14 integrantes da cúpula do jogo em 1993.
Segundo o parlamentar, os contraventores retomaram o poder gradativamente desde a condenação da cúpula comandada por Castor de Andrade, tio de Rogério Andrade e sogro de Fernando Iggnácio:
- Eles conseguiram ampliar os domínios com essas máquinas ilegais. A guerra pelos pontos da Zona Oeste e a impunidade dos contraventores fazem com que a sociedade se sinta desprotegida.
Juíza responsável pela condenação dos 14 bicheiros em 1993, a deputada federal Denise Frossard (PPS-RJ) não se surpreendeu com a notícia de que os dois foragidos têm escolta de policiais. Segundo ela, o bicho se transformou em fachada para outros delitos:
- Ninguém fica rico com o bicho. O jogo serve de escudo para outros crimes, como o tráfico de armas. Parte dos policiais, que deveriam ser os principais predadores da contravenção, acabou se tornando aliada dos bandidos, que também atacam instituições como o Ministério Público e a Justiça. Mas a polícia é mais fácil de corromper por estar no confronto direto com o crime.
O sociólogo Ignácio Cano, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Uerj, comparou o esquema de escolta aos contraventores à corrupção de policiais que protegem traficantes de drogas:
- O fato de os dois estarem foragidos há tanto tempo mostra que os bandidos que têm dinheiro conseguem aliciar policiais para garantir proteção e escapar da Justiça. Parte do aparato público está trabalhando para o crime.
Segundo o sociólogo, a participação de 86 homens na escolta aos contraventores mostra que os esforços para limpar a polícia não estão surtindo o efeito necessário:
- A existência da escolta desmoraliza o combate ao crime.
O secretário de Segurança Pública, Roberto Precioso Júnior, não quis comentar o inquérito, que corre sob segredo de Justiça.
Fonte: O GLOBO
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