quarta-feira, janeiro 07, 2026

Geopolítica: o que é, origem, história e importância

 

Geopolítica: o que é, origem, história e importância

17 de março 2023

Geopolítica sendo representada por imagem com a perspectiva de baixo da casa branca
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Você pode até não se dar conta, mas a sua vida é influenciada pela geopolítica o tempo todo.

Quer um exemplo disso?

Na Guerra do Golfo, entre 1990 e 1991, uma das táticas adotadas pelos iraquianos para retardar o avanço dos norte-americanos foi incendiar centenas de poços de petróleo.

Além de um tremendo desastre ambiental, essa estratégia infeliz fez com que o preço do barril dobrasse, passando de US$ 40 para US$ 80.

Embora tenha sido travado no Oriente Médio, o conflito gerou reflexos na economia dos Estados Unidos, que registrou inflação recorde de 13,5%.

Já por aqui, sempre que o valor do petróleo dispara, o preço da gasolina que utilizamos em nossos automóveis tende a acompanhar esse movimento.

Ou seja, você sente no bolso o impacto de um evento geopolítico registrado muito longe da sua cidade.

Mais recentemente, a invasão da Ucrânia pelas tropas russas também vem afetando a economia dos países em toda a Europa e com reflexos no resto do mundo.

No Brasil, por exemplo, a guerra ainda em curso vem provocando alterações no câmbio, com reflexos também na inflação.

Como podemos ver, a geopolítica envolve uma série de aspectos territoriais, ambientais e, principalmente, econômicos e sociais.

É na origem da geopolítica que encontramos explicações para as relações entre países, ajudando a entender o que os leva a formar parcerias ou entrar em conflito.

Trata-se de um grande jogo de poder e de interesses, no qual nem sempre quem tem o maior poderio bélico sai em vantagem.

Afinal, existem outras formas de uma nação se impor, como a China, que vem travando uma silenciosa guerra comercial contra os Estados Unidos.

Conhecer geopolítica é, portanto, uma maneira de se posicionar como cidadão e membro ativo da sociedade.

Vamos explorar esse tema ao longo deste artigo, mostrando o que é geopolítica, seus efeitos e muito mais.

Confira os tópicos abordados:

  • O que é geopolítica?
  • A origem e a história da geopolítica
  • O que a geopolítica estuda?
  • A geopolítica no Brasil
  • A geopolítica mundial
  • Qual é a importância da geopolítica?
  • Qual a diferença entre geopolítica e geografia política?

Avance na leitura, entenda o conceito de geopolítica e suas implicações.

Leia também:

O que é geopolítica?

Executivo folheia documentos em reunião sobre aspectos de geopolítica
O conceito de geopolítica é bastante antigo, com exemplos de sua aplicação em sociedades como a Roma e a Grécia antiga

Geopolítica é a junção dos termos “geo”, que remete a território, e “política”, que é a forma de um país pautar o seu sistema de governo e suas relações internas e externas.

Assim, podemos definir o que é geopolítica como a política entre territórios, e tudo que se faz para garantir ou afirmar sua soberania.

O conceito de geopolítica é bastante antigo, com exemplos de sua aplicação em sociedades como a Roma e a Grécia antiga.

Quem nunca ouviu falar do Império Romano, que dominou toda a Europa e parte da África entre 27 a.C. e 476 d.C.?

Perceba como a origem da geopolítica é bastante antiga, com exemplos em períodos bastante remotos da história.

No caso dos romanos, tamanha expansão se deve a uma estratégia baseada na dominação militar, por meio da ocupação de territórios pelas tropas romanas.

A Alemanha nazista buscou afirmar-se geopoliticamente de forma parecida, pela anexação de territórios à força.

Diferentemente da Roma antiga, que não tinha adversários à altura para suas tropas, os alemães encontraram forte resistência, provocando um conflito generalizado na Europa e parte da Ásia e África.

Hoje, vemos a Rússia seguindo pelo mesmo caminho para se afirmar geopoliticamente como uma potência ao invadir a Ucrânia.

Do nosso lado do oceano, felizmente, não há um histórico tão extenso de conflitos justificados por objetivos de dominação territorial.

O mais perto disso foi a Guerra do Paraguai, causada pela política expansionista do então presidente paraguaio Solano López.

Depois de cinco anos de combates, entre 1865 e 1870, a tríplice aliança formada por Brasil, Uruguai e Argentina derrotou as forças paraguaias, garantindo a soberania desses países sobre seus territórios.

São exemplos que ajudam a entender o que é geopolítica, mas que não explicam onde essa forma de as nações se relacionarem começou.

É isso que vamos ver a partir de agora.

A origem e a história da geopolítica

A história da geopolítica começa com as primeiras cidades-estados.

Ela conta, por exemplo, a trajetória de Atenas, Esparta e Tróia, que rivalizaram por muitos anos na luta por mais territórios e riquezas.

O cinema eternizou um dos conflitos entre gregos e troianos, na superprodução “Tróia” (2004), estrelada por Brad Pitt.

Atenas e Esparta também eram rivais ferrenhas, lutando por seus interesses territoriais na Guerra do Peloponeso, entre os anos de 431 a.C. a 404 a.C.

A propósito, as cidades-estado gregas não tinham apenas rivais domésticos.

Ficou para a história, por exemplo, o incrível embate entre espartanos e persas, a chamada Batalha das Termópilas, provocada pelos invasores liderados pelo rei persa Xerxes.

Embora o exército espartano tenha sido derrotado, até hoje ele é lembrado pela feroz resistência de apenas 300 soldados contra todo o exército persa, estimado em mais de 300 mil membros.

Esse é outro conflito eternizado pelo cinema, contado no filme “300”, com Gerard Butler no papel do líder espartano Leônidas e Rodrigo Santoro no papel de Xerxes.

Depois da queda do Império Romano em 476 d.C., a organização social na Europa passaria por grandes transformações.

Sem a liderança de Roma, a Europa mergulhou em um período no qual sua divisão territorial passou a se basear em feudos, pequenas propriedades sujeitas aos senhores feudais.

Já na alta Idade Média, o feudalismo foi aos poucos sendo suplantado, graças à retomada das rotas comerciais entre a Ásia e a Europa.

Isso fez com que surgissem os burgos, grandes centros comerciais que se tornaram o epicentro de uma nova organização territorial: os reinos comandados por monarcas absolutistas.

Os reinos evoluíram para se tornar os estados-nações tal como conhecemos hoje e, com o seu crescimento, começaram a surgir novos conflitos e alianças geopolíticas.

Mas não pense que estamos falando apenas de passado. Ainda neste texto, vamos trazer exemplos de geopolítica bastante atuais.

O que a geopolítica estuda?

Mulher discursa em reunião sobre questões geopolíticas
As alianças são o mecanismo mais frequentemente adotado, sejam de caráter estratégico-militar, comercial, alfandegário ou cultural

Pelo conceito de geopolítica, temos uma dimensão do que estuda essa área das Ciências Humanas.

Basicamente, o que se busca compreender nessa disciplina são as relações de poder entre os territórios, personificados pelos seus chefes de estado e órgãos governamentais.

Os exemplos de geopolítica que vimos anteriormente servem para ilustrar como isso acontece.

uso da força militar é um meio de fazer valer o poder de um estado sobre o outro.

Contudo, há outras formas menos perigosas e caras de fazer valer os interesses das nações.

As alianças são o mecanismo mais frequentemente adotado, sejam de caráter estratégico-militar, comercial, alfandegário ou cultural.

No século XVIII, por exemplo, ficou conhecida a Tripla Aliança entre França, Inglaterra e Holanda, àquela altura já potências econômicas mundiais.

Apesar da sua ligação com a História, a geopolítica não estuda apenas os contextos passados.

Ela mira principalmente a atualidade, dedicando-se a interpretar os fatos do nosso tempo, dando uma noção de como os países se relacionam hoje.

Somente pela perspectiva da geopolítica atual podemos compreender o que levou a Rússia a invadir a Ucrânia, por exemplo.

A geopolítica também estuda os fatos históricos que levam os países a sustentar posições antagônicas por anos, décadas ou séculos a fio.

O separatismo catalão, nesse aspecto, é um caso a ser estudado, assim como o do País Basco.

Ambos os territórios se situam na Espanha, com a Catalunha fazendo parte da Espanha desde o século XVIII e o País Basco desde o século XV.

Na Ásia, a rivalidade entre China e Japão, hoje arrefecida, já levou a intensos confrontos geopolíticos, como as duas guerras Sino-Japonesas entre os séculos XIX e XX.

Todos esses eventos são a base de estudo da geopolítica, cuja finalidade é explicar como os países se articulam para defender seus interesses.

A geopolítica no Brasil

A geopolítica atual nunca está desconectada da geopolítica do passado.

No Brasil, os assuntos geopolíticos são discutidos e influem nos destinos do país desde os tempos de colônia.

Tratado de Tordesilhas, em 1494, é talvez o nosso primeiro fato histórico de cunho geopolítico, pois marca a divisão do território sul-americano entre Portugal e Espanha.

Foram esses dois países que lideraram a chamada Expansão Ultramarina, movimento que iniciou-se no século XV, com a descoberta das Américas pelo navegador Cristóvão Colombo.

Até o século XIX, quando se tornou um império independente, o Brasil não tinha qualquer autonomia política.

Isso mudou em 1822, quando o então monarca português, D. Pedro I, declarou a independência, fundando o primeiro governo imperial.

A geopolítica no Brasil entra a partir daí no regime monárquico, em um período marcado por constantes turbulências e convulsões sociais.

Isso porque a monarquia jamais foi um governo aceito pela população, que se rebelou de todas as formas possíveis contra um regime que ela não escolheu.

Em meio aos problemas internos, o Brasil teve que lidar com os países vizinhos, algumas vezes pegando em armas, como na Guerra do Paraguai.

Houve também as questões geopolíticas internas, que caracterizaram o difícil processo de unificação territorial do Brasil, mesmo após a proclamação da República, em 1889.

Um dos conflitos mais conhecidos nesse aspecto foi a Guerra de Canudos, em que o povoado homônimo se insurgiu contra a recém criada República.

Entre 1896 e 1897, as tropas do governo travaram intensos combates, em que se opunham os sertanejos liderados por Antônio Conselheiro e o Exército.

Depois da consolidação da República, o Brasil se afirmou em suas relações externas por meio da diplomacia.

Essa posição perdura até hoje, o que nos deixa relativamente à vontade para negociar com países de todos os espectros políticos.

A geopolítica mundial

Grupo de pessoas em manifestação acerca de discordâncias em relação a geopolíticas
A geopolítica continua sendo fundamental, ainda que os países recorram cada vez menos à força.

A geopolítica atual é reflexo do processo de globalização que se intensificou em meados da década de 1990.

Ela ditou uma nova economia, pautada no avanço das comunicações e na digitalização.

Nesse contexto, a expansão da internet é o grande divisor de águas, impulsionando as relações entre países como nunca antes visto.

As trocas de informação passaram a ser instantâneas, dando muito mais agilidade e segurança para negociar, não importa quão distantes as partes estejam.

Com isso, reduziram-se as incertezas sobre o panorama político, o que levou a uma redução da influência do poder bélico.

Se compararmos os primeiros 20 anos do século passado com o mesmo período do século atual, fica clara a redução das intervenções militares e conflitos de grandes proporções.

Porém, o avanço nas comunicações não eliminou as divergências entre os líderes mundiais.

A diferença é que, hoje, em vez de recorrer às armas, os governos adotam estratégias mais inteligentes para impor seus interesses.

As sanções econômicas são o melhor exemplo disso, ganhando inclusive um capítulo à parte em 2018, quando China e Estados Unidos travaram intensos “combates” comerciais.

Outra evidência dessa mudança de paradigma são as sanções econômicas impostas à Rússia, em retaliação à invasão da Ucrânia pelos países membros da OTAN.

É uma diferença e tanto para a postura adotada na Segunda Guerra Mundial, quando os países ocidentais mobilizaram tropas contra a Alemanha quando os nazistas invadiram a então Tchecoslováquia.

Por outro lado, isso não quer dizer que diminuiu a importância da geopolítica.

Pelo contrário, ela continua sendo fundamental, ainda que os países recorram cada vez menos à força.

E isso vale, é claro, também quando analisamos a geopolítica no Brasil.

Qual é a importância da geopolítica?

A verdade é que cada vez mais os países precisam uns dos outros para prosperarem.

Seria inimaginável um mundo sem geopolítica, considerando os fluxos comerciais, culturais e demográficos entre as nações.

O primeiro aspecto a ser analisado é a migração, que normalmente acontece a partir dos países menos desenvolvidos em direção às nações economicamente favorecidas.

Segundo a comissária europeia do interior, a sueca Ylva Johansson, a migração deve ser tratada como uma solução, não como um problema.

Faz todo sentido, ao constatarmos que boa parte dos países europeus estão há alguns anos registrando taxas de natalidade negativas.

O fenômeno ocorre também em escala mundial, como aponta um estudo da Universidade de Washington, segundo o qual, 23 países podem perder metade da população até 2100.

Se não fossem as estratégias geopolíticas para disciplinar as questões migratórias, o potencial de conflitos seria muito maior, como costumava acontecer na Idade Média.

A importância da geopolítica fica ainda mais clara quando analisamos também os fluxos comerciais entre os países.

Um exemplo disso está na queda do comércio global entre fevereiro e março de 2022, quando começou a ocupação russa na Ucrânia.

Em apenas um mês de confrontos, foi registrada uma redução de 2,8% nas trocas internacionais.

Portanto, analisar os exemplos de geopolítica é fundamental para entender a origem dos fenômenos sócio-econômicos nas escalas regional e global.

Como vimos, os acontecimentos que afetam países distantes de nós geram impactos perceptíveis em nossa economia e até no nosso relacionamento com outros países.

Qual a diferença entre geopolítica e geografia política?

Jornalistas entrevistam secretário de relações internacionais acerca de questões geopolíticas
A geopolítica tem o foco na relação de poder entre os estados, que são os seus protagonistas.

A origem da geopolítica também se encontra no estudo de uma disciplina que lhe é complementar, a geografia política.

Esta se ocupa de entender como as diferentes sociedades agem sobre um território, modificando-o ou preservando-o.

Outro foco desta ciência social é compreender como os estados se organizam politicamente e de que forma suas políticas impactam nos indicadores sócio-econômicos.

A geografia política se dedica a estudar fatores como a evolução da urbanização, as diferentes configurações das atividades produtivas e seus setores mais importantes.

Já a geopolítica estuda como essa organização influencia na maneira como os países se posicionam perante a comunidade internacional, justificando suas políticas externas.

A geografia política pode abordar a geopolítica em seus estudos, tratando-a como um apêndice dos fatos políticos e sociais.

Em contrapartida, o estudo da geopolítica ajuda a entender parte dos acontecimentos político-geográficos de ordem interna.

É uma relação de interdependência, em que uma disciplina explica parte dos fatos estudados pela outra.

Lembrando que geografia política é também o termo usado para diferenciar-se da chamada geografia física, que estuda os relevos e a configuração da fauna e flora em uma região.

Trata-se de uma geografia humana, dedicada à análise dos fenômenos sociais e os impactos da ação do homem sobre o seu meio.

A geopolítica segue uma linha um pouco diferente, com o foco na relação de poder entre os estados, que são os seus protagonistas.

De certa forma, a geopolítica é uma geografia em macroescala, pois considera apenas os efeitos das políticas de estado.

Conclusão

É fascinante quando compreendemos que as ações em nível político de um país podem repercutir na nossas vidas.

Isso só é possível quando lançamos um olhar sobre a geopolítica e sobre como as nações regulam suas relações de poder.

O que seria do Brasil, por exemplo, se não fossem parceiros comerciais como China, Estados Unidos, União Europeia e o próprio Mercosul?

Para sustentar o bom relacionamento com esses países e regiões, é fundamental contar com uma linha geopolítica consistente.

Além das vias diplomáticas, os fluxos de bens também dependem de políticas alfandegárias e tributárias que favoreçam o livre comércio.

Essas e outras questões são diretamente impactadas pelo posicionamento do Brasil na economia mundial, o que por sua vez é um assunto ligado à geopolítica.

Um país se enfraquece geopoliticamente quando não assume uma posição clara ou seus líderes negligenciam a diplomacia e a manutenção dos tratados internacionais.

Em contrapartida, as nações que estão na linha de frente da geopolítica mundial são aquelas que assumem suas responsabilidades.

O Brasil pode ser considerado um país líder, principalmente pela perspectiva ambiental, em que somos quase sempre a ponta de lança dos acordos climáticos.

Isso nos faz acreditar em um futuro melhor, a despeito dos problemas sociais que continuam a acontecer.

Você pode fazer parte desse futuro, qualificando-se para atuar em um mercado cada vez mais integrado e sem fronteiras.

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Indiciamento de Maduro pela participação da DEA: a nova cara do ‘lawfare’

 

Indiciamento de Maduro pela participação da DEA: a nova cara do ‘lawfare’  

O termo “lawfare” descreve o uso de manobras jurídicas para substituir o emprego da força armada, para neutralizar, prender ou deslegitimar um inimigo político. 

O conceito se encaixa como uma luva no documento de indiciamento publicado pela Casa Branca na manhã do dia 3 de janeiro, mesmo dia em que militares e agentes da DEA, a agência antidrogas dos Estados Unidos, violaram a lei internacional ao invadir um país estrangeiro – a Venezuela – sequestrar seu presidente e levá-lo para os EUA. 

O documento é o resultado da deliberação de um “Grand Jury” que analisou os argumentos da procuradoria de Nova York contra Nicolás Maduro, sua esposa Celia Flores, seu filho Nicolás Maduro Guerra, o ministro do interior Diosdado Cabello, o militar e ex-Ministro do Interior e Justiça Ramón Rodriguez Chacín e Hector Guerrero Flores, tido como líder da organização criminosa Tren de Aragua. Nele, a justiça americana indicia todos por narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína, posse de metralhadoras e dispositivos explosivos contra os Estados Unidos.

Neste caso, o “lawfare” foi usado de maneira instrumental não para o “soft power” americano, ou seja, não em substituição à ação militar, mas apenas para respaldar o “hard power”, a mano dura do novo imperialismo trumpista.

A publicação do indiciamento ajuda a construir uma narrativa de legalidade sobre a açãoafirmando se tratar de uma ação contra o “narcoterrorismo” – e afastando, pelo menos na primeira hora, reações externas de condenação à flagrante violação da Carta da ONU. Ao mesmo tempo, garante uma narrativa para o público interno, uma vez que o ataque à Venezuela também viola a legislação norte-americana que obrigaria ações militares a serem aprovadas pelo Congresso. 

Um passo fundamental para construir essa possibilidade legal de intervenção foi dada em março de 2025, quando o governo dos EUA designou o Tren de Aragua como organização terrorista, e em novembro quando designou o Cartel de los Soles, grupo de militares e oficiais que participariam do tráfico de drogas, como terrorista. Estava criada a justificativa formal para permitir ações espetaculares, sem autorização ou monitoramento de outros poderes, autorizadas apenas pelo presidente norte-americano – como foi, por exemplo, a captura de Osama Bin Laden por Barack Obama em 2011. 

O documento publicado no sábado, entretanto, é frágil e cheio de furos. Suas 25 páginas misturam alhos com bugalhos, mencionam diversas organizações que traficam drogas, desde o cartel de Sinaloa e os Zetas, do México, até o Tren de Aragua, assim como guerrilhas como as Farc e ELN, e coloca tudo no mesmo balaio. Sugere, ainda, que toda corrupção que assolava o governo de Nicolás Maduro estava, de alguma forma, ligada ao narcotráfico. 

É recheado de frases genéricas como “Nicolás Maduro Moros, o réu, está à frente de um governo corrupto e ilegítimo que, por décadas, usou o poder do estado para proteger e promover atividades ilegais, incluindo o tráfico de drogas”.

Já vou citar as acusações específicas contra Maduro, mas antes vale lembrar que a Venezuela não é, nem nunca foi, a principal origem da droga consumida nos EUA. Mais do que cinco vezes da quantidade de cocaína que passa pela Venezuela passa pela Guatemala, segundo dados oficiais do governo americano. Além disso, hoje em dia, comprovadamente, a maior parte das mortes por overdose nos EUA são causadas pelo uso do fentanil, uma droga sintética. Não há, portanto, nenhuma urgência em interromper o fluxo específico de drogas vindas da Venezuela.   

Quanto às acusações específicas, também será preciso muito mais provas a serem demonstradas na Justiça. O indiciamento afirma por exemplo que, entre 2006 e 2008, quando era ministro do exterior, Maduro “vendeu passaportes diplomáticos venezuelanos a indivíduos que sabia serem traficantes de drogas, a fim de ajudar traficantes que buscavam mover recursos do tráfico do México para a Venezuela sob cobertura diplomática”. A seguir, o documento descreve que esses traficantes se encontraram com o embaixador venezuelano no México, abasteceram aviões de drogas, e retornaram para a Venezuela. Pelo linguajar, parece que se trata de um evento em particular. Não há detalhes se a droga chegou em algum momento aos EUA. 

Outro caso relatado seria o seguinte: em setembro de 2013, “autoridades” venezuelanas apreenderam 1,3 toneladas de cocaína despachada do aeroporto de Maiquetia para o aeroporto Paris Charles de Gaulle, em Paris. A droga foi apreendida pela polícia francesa. Depois disso, Maduro teria convocado uma reunião com Diosdado Cabello, na qual “Maduro Moros disse a Cabello Rondon e Carvajal Barrios que eles não deveriam ter usado o aeroporto de Maiquetia para o tráfico de drogas após a apreensão de 2006 no México, e que deveriam, em vez disso, usar outras rotas e locais já estabelecidos para despachar cocaína”. O documento prossegue dizendo que Maduro autorizou a prisão de “certos oficiais militares venezuelanos em um esforço para desviar o escrutínio público e as forças da lei da participação de Maduro Moros, Cabello Rondon e Carvajal Barrios no carregamento e no seu acobertamento”.    

De novo, uma acusação um tanto difícil de comprovar, a menos que se tenha uma gravação da tal reunião. 

A leitura do documento de acusação revela o que muitos analistas afirmam: havia muitos oficiais dentro do governo chavista que faziam parte do tráfico de drogas. Mas, como o mesmo documento atesta, essa é a realidade da grande maioria dos países latino-americanos. “Por meio desse tráfico de drogas, Nicolás Maduro Moros, o réu, e membros corruptos de seu regime permitiram uma corrupção alimentada pelo tráfico de drogas em toda a região”, diz o documento. “Os pontos de transferência de carga em Honduras, Guatemala e México também dependiam de uma cultura de corrupção, na qual traficantes de cocaína que operavam naqueles países pagavam uma parte de seus lucros a políticos que os protegiam e auxiliavam. Por sua vez, esses políticos usavam os pagamentos financiados pela cocaína para manter e aumentar seu poder político", completa.

Eu não sou ingênua, e muito menos chavista. Não vou dizer que Maduro não soubesse do tráfico, ou que definitivamente não estivesse involucrado. Mas a Justiça americana vai ter trabalho para conseguir comprovar essa participação ativa, ultrapassando o linguajar MAGA da acusação do júri.   

Para quem assistiu, atônito, à ação americana, é surpreendente em especial que Diosdado Cabello, que há décadas é uma das principais figuras do chavismo e tem enorme influência sobre o corpo militar, além de, segundo a própria justiça norte-americana, ser um dos que coordenava o transporte de drogas, não tenha sido capturado – e que o governo de Donald Trump nem sequer o tenha mencionado. 

Nessa versão ‘renovada’ de lawfare, o que importa não é a coerência da Justiça, mas apenas ter uma narrativa imediata que será republicada nos jornais, reproduzida nas TVs, e disseminada de maneira ampla pelos inimigos do governo de turno, confundindo o ato de guerra e violação brutal da ordem internacional durante tempo o suficiente para que a situação do sequestro se instale “de facto”. Trata-se, como a maioria das demais ações de Trump, de um espetáculo de desinformação notável.

E, para isso, a exibição ostensiva da imagem dos agentes da DEA – a polícia responsável por combater o tráfico de drogas – escoltando Maduro foi, também, essencial. Ela faz parte da construção narrativa que inibe, além de uma condenação mundial mais robusta, uma reação interna minimamente legalista por parte dos congressistas que viram, mais uma vez, seu poder derreter diante de uma ação autoritária de Donald Trump. 

É disso que se trata o lawfarecriar um verniz narrativo que convença a sociedade, pelo menos por um tempo. O caso judicial contra Maduro vem de uma longa tradição dos EUA de usar justificativas legais para interferir em outros países. Aqui no Brasil, o conceito de “lawfare” foi o principal argumento usado pela defesa de Lula durante a Lava Jato. Seus advogados, assim como o próprio Lula, sempre estiveram convencidos que havia dedo americano no processo judicial que levou o presidente a ser excluído das eleições de 2018, quando esteve preso por 580 dias.

“Lawfare para nós é o uso estratégico do direito para fins de prejudicar, deslegitimar ou aniquilar o inimigo”, explicou o advogado Rafael Valim para a jornalista Amanda Audi, durante a apuração para o podcast Confidencial, as digitais do FBI na Lava Jato. “Quando a gente fala em uso estratégico, é o uso do direito como uma arma, porque a estratégia aqui é entendida ou empregada no sentido militar, o que é na verdade uma contradição em termos, se a gente fala que o direito é usado para pacificação social".

Valim explicou que, historicamente, o termo era usado para designar “litígios de direitos humanos que desafiavam o Império americano”. 

“Então ganhou notoriedade com esse sentido, para depois as próprias forças armadas estadunidenses concluírem que o direito poderia ser usado também em favor dos Estados Unidos”. 

Ele explicou que “nós tivemos um esforço também para que [esse termo] não fosse algo que soasse como oportunista” no caso da defesa de Lula. “Hoje está claro que é um fenômeno insidioso que compromete as democracias a nível mundial. E me parece que o êxito dessa teoria é algo que deve nos preocupar muito, porque é sinal de que nossas democracias estão doentes”.  

À luz do sequestro de Nicolás Maduro, e do processo judicial que vai se seguir na Justiça de Nova York, o uso de lawfare, termo que apenas começa a ser conhecido mais amplamente, merece ser melhor estudado. Aqui na Pública, temos nos debruçado tanto sobre o caso concreto da Lava Jato como sobre análises e estudos para entendermos os limites e as implicações dessa tática de interferência. Essa pesquisa vai formar o coração do curso Lawfare – a influência dos EUA ontem e hoje, que vou ministrar nos dias 3 e 5 de fevereiro das 19h30 às 21h30, online e síncrono. 

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O Master alfinetando o BC?

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Arte: Marcelo Chello

Existe vida depois do Maduro (o Trump que o diga, que agora vai administrar o petróleo). Mas será que existe vida depois do Banco Master? Eis que as notícias de hoje dão conta de que influenciadores foram contratados para dar um pau no Banco Central por ter liquidado o Banco Master assim tão rápido. Como diz o Armínio Fraga, na verdade, parece que demorou. O que está por trás do caso Banco Master? Por que o Tribunal de Contas da União atacou o BC? Por que o Supremo foi pra cima do BC? Por que influenciadores atacaram o BC? Temos respostas? Não. Mas vamos falar do assunto mesmo assim.

O caso é o seguinte: o Banco Central descobriu um monte de fraudes em operações do Banco Master e anunciou a liquidação no mesmo dia em que a Polícia Federal prendeu o dono do banco, Daniel Vorcaro. Eis que, a partir daí, um monte de influenciadores nas redes sociais, que nunca nem falaram do Banco Central, começaram a atacar a atitude da instituição e a botar dúvidas sobre se o BC não teria liquidado o Master rápido demais.

Logo que surgiu o assunto, me chamou a atenção o perfil Alfinetei no Instagram (que é tipo um Choquei das fofocas das celebs), que começou a dar muitas notícias sobre o Master. Até o Andrezito apareceu por lá. Em algum momento, o Alfinetei lacrou que foi Andrezito Esteves a fonte da história de que Xandão tinha falado com Galípolo, que é o presidente do BC, sobre a compra pelo BRB. Pois bem, hoje saíram notícias, a partir de um levantamento da Febraban, de que alguns perfis como o Alfinetei trataram o assunto de uma forma que parecia coordenada. O Alfinetei tem uns 20 milhões de seguidores.

E ainda dois influenciadores de direita denunciaram que foram procurados para falar mal do Banco Central, mas se recusaram (que legais eles, né?).

Agora fica a dúvida: a quem interessa desfazer a liquidação do Master, e por que esse cerco sem precedentes ao BC? (Que é liderado por um indicado de Lula, diga-se de passagem.)

Como já noticiamos várias vezes por aqui, o caso Master parece que vai feder para tudo quanto é lado. É esposa de ministro supremo que tem contratos milionários com o banco, é irmão de senador que aplicou o dinheiro dos aposentados nos fundos do Master, é senador que tentou alterar legislação para beneficiar o Master, e fora todas as conexões que ainda estão sendo feitas de um suposto esquema com títulos em fundos com dinheiro que pode ter origem no crime organizado. Enfim, o Master vai feder.

Por isso, todo mundo estranhou quando um ministro do TCU começou a questionar o BC (nunca se viu isso antes na história) e o supremo Toffoli quis marcar até acareação de diretor do BC (depois o ministro voltou atrás). Fiquemos de olho no Master, BRASEW.

Mas vamos ao Maduro

E o Trump, que anunciou agora à noite que vai receber da Venezuela uns 50 milhões de barris de petróleo de alta qualidade. Que esse petróleo vai ser vendido a preço de mercado e que o dinheiro dessa venda será controlado por ele mesmo, Donald J. Trump (J de João). Mas ele garante que só vai cuidar pessoalmente dessa grana para garantir que ela seja usada em benefício do povo da Venezuela e dos Estados Unidos. Claro, claro. Ninguém pensou diferente.

Hoje, os Estados Unidos recuaram nas acusações de que Maduro era dono de um cartel, o Cartel de los Soles. E por quê? Porque esse cartel não existe na vida real. Aff!!!! Parece que é uma gíria e os americanos acharam que era de verdade. E agora o Maduro recorre pra quem?

Enquanto isso, a sua vice, a Delcy, assumiu o cargo sem medo de ser feliz e diz que não tem ninguém dos Estados Unidos comandando a Venezuela. A imprensa americana seguiu hoje com as histórias de que Delcy já foi escolhida há meses, e o papo foi feito com ela e o irmão, que atualmente é o chefe do Congresso venezuelano.

A propósito, Trump hoje despejou suas fakes e, junto, confessou que pegou o Maduro porque achou que o ditador venezuelano estava tirando sarro de suas dancinhas. É, não foi bem assim, mas quase assim. Socorro, BRASEW.

E também hoje, o representante do governo Lula na OEA andou dizendo que foi sequestro, e não captura, o que fizeram com Maduro. No seu post no Twitter, Lula fez questão de usar a palavra captura.

Pela queda de Bolsonaro, ninguém esperava

Bolsonaro caiu durante a noite e bateu a cabeça. Ninguém sabe, ninguém viu. Nem a polícia, porque a Michelle disse que só ficaram sabendo da queda quando ela foi visitá-lo na prisão. Pois bem, a defesa já logo pediu que o Xandão liberasse nosso ex para ir ao hospital. Os médicos da PF disseram que não teve nenhum ferimento grave, e o ministro supremo não permitiu a ida ao hospital. Eu não quero dizer nada, mas Bolsonaro que não se cuide que vai perder o posto de capitão que dita os rumos do bolsonarismo para o de adoentado coitado.

Lewandas se vai

Parece que Lewandas Lewandowski, o ex-ministro supremo que virou ministro da Justiça do governo Lula, vai deixar o governo até sexta. Nunca esqueceremos de sua honestidade no caso da fuga do presídio de segurança máxima, ministro. (Aquela história de que os bandidos fugiram pela luminária com um alicate para cortar a cerca). Estão dizendo que a saída de Lewandas pode fazer com que finalmente Lula separe o Ministério da Justiça em dois e que, assim, os projetos de segurança pública vão andar. Ahã, claro, claro. No ano de eleição tudo pode acontecer.

Vazou a Foz do Amazonas

A notícia de hoje é que a perfuração do bloco 59 da Bacia da Foz do Amazonas registrou um vazamento, e a Petrobras paralisou as atividades de busca de petróleo. Não vazou petróleo, mas que vazou um paranauê por lá, isso vazou. Essa Foz é aquela famosa que o Davi Alcolumbre queria tanto.

E o João Campos?

Menino querido, simpático, vai casar com a Tabata, potencial de crescer na política e daí é pego em notícias desse tipo: o prefeito do Recife, João Campos, nomeou Lucas Vieira Silva para uma vaga destinada a pessoas com deficiência (PCD) no concurso da Procuradoria do município. O laudo médico que atestava autismo para que ele fosse enquadrado como PCD foi apresentado três anos após o concurso, permitindo que Lucas passasse da 63ª posição para o 1º lugar na lista de PCD. E quem é Lucas na fila do pão? É filho do juiz Rildo Vieira da Silva, que, menos de um mês antes, havia arquivado uma investigação sobre suposta corrupção em contratos de R$ 100 milhões da Prefeitura de João Campos.
A-F-F!

Dinheiro na cueca, mas limpinho

O procurador-geral da República concluiu que não há provas de ilegalidade no dinheiro encontrado na cueca do senador Chico Rodrigues. (Como vamos viver com essa notícia?). O episódio ocorreu em 2020, durante operação da Polícia Federal sobre desvios de recursos da Covid‑19. As investigações não conseguiram vincular os valores a contratos fraudulentos ou esquema de corrupção. Para quem não lembra, Chico era líder do governo Bolsonaro no Senado, na época, e tinha mais de 17 mil reais na cueca quando foi pego.

Vou ali e já volto, BRASEW.

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