sexta-feira, abril 01, 2022

A incrível reabilitação de Valdemar - Editorial




Triunfo do PL na janela partidária marca a volta por cima do mensaleiro, que deveria estar fora da política, mas, sob Bolsonaro, tornou-se chave para o governismo

O Partido Liberal (PL) terminará a chamada janela partidária – período em que deputados federais estão autorizados por lei a trocar de partido sem perder o mandato – com a maior bancada na Câmara. Em 2018, o PL conseguiu eleger 33 deputados, um número considerável, mas suficiente apenas para fazer do partido mais uma das siglas que compõem o Centrão. Até o dia 29 passado, como mostrou recente reportagem do Estadão, essa bancada havia duplicado para 66 deputados, um crescimento que tem o potencial para alterar o balanço de poder na formação da nova coalizão de governo a partir de 2023. Seja quem for eleito em outubro, o próximo presidente provavelmente terá de compor com o dono do PL, o notório Valdemar Costa Neto.

O inequívoco triunfo do partido – afinal, logrou vencer uma disputa pela filiação do presidente Jair Bolsonaro e trouxe a reboque dezenas de deputados seduzidos pela expectativa de poder – representa, em última análise, o auge da reabilitação política de Valdemar Costa Neto, uma personalidade que, fosse a democracia representativa um tanto mais madura no Brasil, há muito estaria proscrita dos fóruns de decisão sobre os rumos do País.

Há quase 30 anos, Valdemar Costa Neto, então deputado e líder do governo Itamar Franco, ganhou súbita notoriedade nacional não por seus feitos legislativos, mas por ter apresentado a modelo Lilian Ramos a Itamar durante os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. Fotos constrangedoras daquele encontro entraram para o anedotário nacional. Desde então, Costa Neto tem se notabilizado pela adulação aos governantes de ocasião, independentemente de suas colorações partidárias ou ideologias. A tática de deixar a coerência – e os escrúpulos – de lado para parasitar o poder ao longo de todos esses anos rendeu bem mais do que projeção política ao chefão do PL.

Em 2012, Valdemar Costa Neto foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 7 anos e 10 meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no âmbito do mensalão petista. Como cacique do PR, partido que depois seria rebatizado de PL, foi um dos artífices da montagem do esquema para compra de apoio parlamentar no primeiro mandato do petista Lula da Silva na Presidência. Costa Neto cumpriu parte da pena até 2014 e, dois anos depois, o STF declarou extinta sua punibilidade por aqueles crimes. Do ponto de vista jurídico, portanto, Valdemar Costa Neto é um cidadão quites com a Justiça. O que merece consideração são as circunstâncias de sua reabilitação política e o estado da democracia representativa no Brasil.

Alguém com um passado tão desabonador como Valdemar Costa Neto ainda ter relevância política em 2022 só é possível porque Bolsonaro é um presidente incapaz de governar o País e não tem densidade moral e política para construir uma base de apoio parlamentar genuinamente fiel a seu governo, seja por princípio, seja por afinidade programática. Até o célebre Eduardo Cunha se sentiu encorajado a voltar para a Câmara dos Deputados nesse ambiente.

Dependente do Congresso para se manter no cargo, Bolsonaro se entregou para todos os que estivessem dispostos a carregar o fardo, pagando em troca dotes para lá de generosos. Ao ingressar no PL e abraçar o Centrão, tão demonizado pelos bolsonaristas, o presidente disse se sentir “em casa”. É nesse contexto que ganham projeção figuras como Valdemar Costa Neto, altamente experientes em aproveitar as deficiências de presidentes fracos.

A longevidade política de Valdemar Costa Neto e de outros da mesma estirpe também lança luz sobre a enorme incapacidade dos partidos – ou a falta de estímulo popular – para arejar suas propostas, trazê-las para o século 21 e, sobretudo, formar novas lideranças. Cabe somente aos eleitores mudar essa realidade a partir de suas escolhas nas urnas.

Enquanto os eleitores permitirem, velhos caciques continuarão ditando os rumos do País, atendendo ao interesse público apenas quando e se este coincidir com seus interesses paroquiais.

O Estado de São Paulo

‘Amémsalão’




Por Merval Pereira (foto)

Tudo está conectado. Não é por acaso que, no mesmo dia em que o deputado federal bolsonarista Daniel Silveira resiste a uma ordem judicial para colocar tornozeleira eletrônica, o presidente Bolsonaro tenha voltado, do nada, a criticar a urna eletrônica. Ambas as situações têm como alvo um único ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, que presidirá o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante as eleições e determinou novas punições ao parlamentar.

Os ataques a outro ministro, Luís Roberto Barroso, reduziram-se na medida em que ele deixou a presidência do TSE. Pesquisadores que monitoram as redes sociais bolsonaristas constataram uma evidência inescapável: os verdadeiros adversários de Bolsonaro são as instituições STF, TSE e seus ministros, e não Lula ou Moro. Eles são mais buscados e citados nas redes sociais ligadas ao bolsonarismo que os adversários políticos.

O asilo do deputado Daniel Silveira dentro da Câmara faz dela uma trincheira contra a Justiça, o que pode causar uma crise institucional. A Câmara é muito corporativista e não permitirá que entrem para colocar tornozeleira eletrônica no deputado que, por sua vez, quer não apenas contestar o ministro Alexandre de Moraes, mas se promover pessoalmente. Fez bem o Supremo em marcar uma sessão para que o plenário analise a decisão de Alexandre de Moraes, caso contrário uma crise institucional se instalaria sem que, aparentemente, haja motivo.

No submundo das redes bolsonaristas encontra-se a explicação para essas provocações. À medida que a eleição se aproxima, a milícia digital aprofunda seu trabalho com a intenção de marcar o TSE, o STF e o ministro Alexandre de Moraes como carrascos que impedem a livre manifestação do pensamento. Se a derrota for inevitável, como parece, esse questionamento permanente servirá para resistir à transferência de poder ou, caso não tenham força suficiente para um golpe desses — já tentado e rechaçado no 7 de Setembro do ano passado —, manter os aliados unidos na oposição de um governo eleito democraticamente, como foi Bolsonaro em 2018, pelas mesmas urnas eletrônicas hoje contestadas.

Pesquisas eleitorais que surgem nos últimos dias dão mais alento aos bolsonaristas, com indicações de que a diferença entre Lula e Bolsonaro está sendo reduzida. A ideia de que Lula poderia ganhar no primeiro turno parece já anacrônica, o que indica um segundo turno mais acirrado do que era previsto até há pouco tempo. Mapear os riscos que um segundo turno mais apertado pode representar, e construir um “estado de opinião na sociedade, uma vacina” em defesa da integridade do sistema eleitoral e da democracia, é o papel de um grupo de pesquisadores acadêmicos que se dedicam a fornecer ao TSE dados sobre as redes sociais.

Foram localizados nesse trabalho 1.700 vídeos considerados de “alta toxidade”, com termos hostis à democracia no YouTube: “Artigo 142 da Constituição” — que os bolsonaristas usam para alegar que a Constituição autoriza uma intervenção militar — e “Eu autorizo o presidente”, usado para ratificar atitudes de Bolsonaro de ataque à democracia. Também as redes evangélicas e de militares da ativa e da reserva indicam que as mensagens do presidente Bolsonaro estabeleceram um contato direto com seus integrantes, sem a intermediação da cúpula dos pastores ou da hierarquia militar.

A crise na Petrobras, em que o general colocado na presidência por Bolsonaro para uma intervenção acabou sendo retirado por não tê-la realizado, demonstra como o presidente tem força para manipular os militares, sem criar crises. Também o caso dos pastores que intermediaram negociatas no Ministério da Educação demonstra que Bolsonaro protege-se demitindo um ministro pastor presbiteriano sem perder o apoio entre o eleitorado evangélico. Afinal, o caso está sendo conhecido popularmente nas redes sociais como “Amémsalão”.

O Globo

Forças russas se retiram de Chernobyl, diz Ucrânia

 




Empresa nuclear estatal ucraniana afirma que tropas russas deixaram área da usina nuclear desativada após mais de um mês de ocupação. Soldados teriam recebido "doses significativas" de radiação, o que AIEA não confirma.

A companhia nuclear estatal da Ucrânia, Energoatom, informou nesta quinta-feira (31/03) que todas as forças russas que ainda ocupavam a usina nuclear de Chernobyl deixaram o território da antiga fábrica, devolvendo seu controle às autoridades ucranianas após mais de um mês.

A Energoatom afirmou que a retirada russa ocorreu após soldados receberem "doses significativas" de radiação ao cavarem trincheiras na floresta localizada na zona de exclusão ao redor da usina desativada. Não foi possível confirmar a informação de forma independente.

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), ligada à ONU, disse que se prepara para enviar uma missão às instalações de lixo radioativo de Chernobyl, no norte da Ucrânia.

Apesar de os soldados russos terem tomado o controle de Chernobyl logo após a invasão da Ucrânia em 24 de fevereiro, os funcionários ucranianos da usina continuaram supervisionando o armazenamento seguro do combustível nuclear usado e dos restos envoltos em concreto do reator que explodiu em 1986, causando o pior acidente nuclear da história.

"De acordo com os funcionários da usina nuclear de Chernobyl, não há mais estranhos no local", afirmou a Energoatom em uma postagem online. Mais cedo, a companhia estatal afirmara que a maioria das tropas havia partido, deixando apenas um pequeno número para trás.

As forças russas também se retiraram da cidade vizinha de Slavutych, onde vivem os trabalhadores de Chernobyl, disse a empresa nuclear.

Em uma mensagem separada, a Energoatom afirmou que a Rússia concordou formalmente em devolver à Ucrânia a responsabilidade de proteger Chernobyl.

Kiev vem repetidamente expressando preocupações de segurança acerca de Chernobyl e exigindo a retirada das forças russas, cuja presença impediu que funcionários da usina trocassem de turno por um certo período, levando-os à exaustão.

No início desta semana, trabalhadores locais relataram à agência de notícias Reuters que soldados russos dirigiram sem proteção antirradiação pela área da Floresta Vermelha, a parte mais radioativa da zona ao redor de Chernobyl, levantando nuvens de poeira radioativa.

Solicitado a comentar sobre os relatos dos funcionários de Chernobyl, o Ministério da Defesa da Rússia não se pronunciou.

A Energoatom afirmou que, como resultado de suas preocupações com a radiação, "quase um tumulto começou a se formar entre os soldados", sugerindo que esse foi o motivo da partida inesperada das tropas.

A AIEA, por sua vez, disse que não conseguiu confirmar os relatos de que forças russas teriam sido expostas a altas doses de radiação.

Mais cedo nesta quinta-feira, o chefe da Energoatom pediu à AIEA que ajude a garantir que as autoridades nucleares russas não interfiram na operação de Chernobyl e da usina nuclear de Zaporíjia, a maior da Europa, que também é ocupada por soldados russos.

A retirada ocorreu em meio a crescentes indicações de que o Kremlin estaria usando a conversa de desescalada na Ucrânia como cobertura enquanto suas forças se reagrupam, se reabastecem e se redistribuem para uma ofensiva intensificada na parte leste do país.

O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski ,disse que a Ucrânia está vendo "um acúmulo de forças russas para novos ataques em Donbas, e estamos nos preparando para isso".

Deutsche Welle

Após acordo de cessar-fogo, comboio parte para Mariupol

 




Iniciativa visa permitir acesso de ajuda humanitária e retirada de civis da cidade sitiada, onde dezenas de milhares sofrem com a falta de recursos básicos após semanas de intensos bombardeios pela Rússia.

Um comboio de vários ônibus foi enviado para Mariupol nesta quinta-feira (31/03), em mais uma tentativa de retirar pessoas da cidade sitiada no sudeste da Ucrânia, alvo de fortes bombardeios russos nas últimas semanas.

Depois de o Exército russo concordar com a implementação de um cessar-fogo temporário na região, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (ICRC) informou que um comboio de ajuda humanitária e medicamentos.

A vice-primeira-ministra ucraniana, Iryna Vereshchuk, afirmou que 45 ônibus estavam a caminho de Mariupol, vindos da cidade de Zaporíjia, a cerca de 200 quilômetros de distância, através de Berdyansk, que está sob controle dos russos.

"Fazemos todo o possível para assegurar que os ônibus cheguem a Mariupol para apanhar as pessoas que ainda não conseguiram deixar a cidade", informou.

"Nossas forças militares garantem um cessar-fogo completo", disse Vereshchuk. Ela disse que um corredor de ajuda humanitária foi criado para retirar pessoas das áreas de Melitopol e Enerhodar, a oeste de Mariupol.

Segundo a Cruz Vermelha, a evacuação deve ocorrer nesta sexta-feira, se a partes envolvidas garantirem passagem segura. "É desesperadamente importante que essa operação ocorra. A vida de dezenas de milhares de pessoas em Mariupol depende disso", afirmou a porta voz-do ICRC, Ewa Watson.

Escassez de recursos essenciais

Mariupol está em ruínas após quatro semanas de incessantes bombardeios. O cerco imposto pelas forças russas deixou milhares de pessoas sem alimentos, água ou eletricidade.

'População em Mariupol sofre com falta de alimentos, medicamentos e aquecimento, em meio ao cerco das tropas russas'

Tentativas anteriores de levar ajuda humanitária até o local fracassaram, e os civis que conseguiram escapar puderam fazê-lo somente em automóveis particulares.

Segundo autoridades ucranianas, mais de 100 mil pessoas ainda estão na cidade, de população de 440 mil.

Forças russas ainda bombardeavam subúrbios de Mariupol recentemente reconquistados por tropas ucranianas.

Os novos ataques, em uma área onde Moscou havia prometido aliviar os bombardeios, podem gerar novos entraves às negociações de paz entre os dois países, que ocorrem em Istambul, na Turquia.

Segundo dados da ONU, já são cerca de 1,2 mil mortes confirmadas de civis – embora o número verdadeiro deva ser bem maior – e outras quatro milhões de pessoas já deixaram o país.

Manobras russas sob suspeita

O Ministério russo da Defesa afirmou que suas tropas e as forças separatistas aliadas a Moscou avançaram vários quilômetros nas áreas onde se localizam Donsetsk e Lugansk, na regiao de Donbass

O Kremlin informou a redução de suas atividades militares nas proximidades de Kiev, no intuito de "completar a operação da total libertação de Donbass". Essas manobras, porém, são vistas com ceticismo na Europa e nos Estados Unidos.

O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, disse que as tropas russas não estariam em retirada, mas sim, se reposicionando. Ele avalia que mesmo se a Rússia tiver a intenção de reforçar a ofensiva em Donbass, os ataques a Kiev e outras cidades serão mantidos.

Deutsche Welle

"Putin se deu conta que pode não haver saída", diz magnata

 




Khodorkovsky ficou uma década preso na Rússia

Exilado e crítico do presidente russo, Mikhail Khodorkovsky diz que Putin "está encurralado" na Ucrânia e tem apenas duas opções: uma escalada do conflito ou negociações de paz sérias.

Mais de um mês após Moscou invadir a Ucrânia, o presidente russo, Vladimir Putin, entendeu que "pode não haver solução militar", afirmou em entrevista à DW o magnata russo do petróleo exilado Mikhail Khodorkovsky.   

Crítico proeminente do presidente russo, Khodorkovsky passou uma década na prisão na Rússia sob acusações amplamente consideradas como uma vingança por desafiar o regime de Putin.

As tropas russas iniciaram a guerra na Ucrânia em 24 de fevereiro, com Putin anunciando como objetivos a "desmilitarização" e a "desnazificação" do ex-estado soviético, além da proteção dos falantes de russo no país.

Mas, com o fracasso da Rússia em ocupar rapidamente o país devido à forte resistência ucraniana, Moscou anunciou recentemente uma mudança em seus objetivos de guerra, dizendo que se concentrará na "libertação" da região de Donbass, no leste da Ucrânia. O Ocidente, porém, vê com ceticismo a versão. 

"Putin está encurralado quando se trata da operação militar", disse Khodorkovsky. "Agora, ele tem duas opções: ou aumenta a escalada, o que pode significar a introdução de mobilização ou o uso de armas nucleares táticas, ou estabiliza a situação e começa negociações de paz sérias".

Posição do Ocidente precisa ser clara

À DW, Khodorkovsky também enfatizou a importância de um discurso ocidental unificado. "A posição do Ocidente precisa ser clara, o que significa apoio abrangente à Ucrânia se a guerra continuar e caso Putin use armas nucleares táticas ou outras armas de destruição em massa", destacou. "Esse tipo de posição clara do Ocidente vai, digamos, ajudar Putin a tomar a decisão certa".

Desde o início da agressão militar de Moscou, o Ocidente impôs sanções econômicas sem precedentes à Rússia e começou a fornecer ajuda militar à Ucrânia. Enquanto os EUA e o Reino Unido proibiram as importações russas de petróleo e gás, vários bancos russos foram banidos do sistema interbancário Swift.

No entanto, muitos países europeus, como a Alemanha, dependem fortemente do fornecimento de energia russa, motivo pelo qual não houve sanções internacionais generalizadas sobre o comércio de combustíveis fósseis com a Rússia. Por outro lado, a guerra levou vários governos a buscar formas de reduzir a dependência de Moscou.

Khodorkovsky acredita que, para Putin levar as negociações de paz a sério, "deve perceber que está preso na Ucrânia".

"Depois de um mês de guerra, ele se deu conta que pode não haver solução militar. É uma tentativa de transição para um processo de negociação real".

Mudança de estratégia

Os serviços de inteligência do Reino Unido e dos Estados Unidos afirmaram na quarta-feira que Putin está mal informado sobre a real situação na da guerra na Ucrânia, pois seus assessores tem medo de lhe dizer a verdade.

Nesta quinta-feira, o Kremlin negou as alegações, afirmando que eram evidências de que o Departamento de Estado americano e o Pentágono não "têm informações reais sobre o que está acontecendo no Kremlin".

"Eles não entendem o presidente Putin, não entendem o mecanismo de tomada de decisões e não entendem o estilo de nosso trabalho", disse a repórteres o porta-voz de Putin, Dmitry Peskov.

Khodorkovsky  também acredita que Putin lançou a guerra com base em falsas suposições sobre as capacidades militares russas e a sociedade ucraniana.

"Estou completamente convencido de que, desta vez, Vladimir Putin recebeu uma quantidade significativa de informações falsas tanto sobre a situação na Ucrânia quanto sobre a condição de suas próprias forças armadas".

Chamando Putin de "bandido", Khodorkovsky disse: "Qualquer tentativa de chegar a um acordo com esse tipo de homem sem primeiro mostrar-lhe força é um grande erro. Isso apenas o provoca a dar mais um passo em direção a um ataque".

Deutsche Welle

Guerra na Ucrânia: ‘Rússia promete retirada de Kiev não por boa vontade, mas por ter ido além das pernas’




A Rússia diz que decidiu “reduzir drasticamente” os ataques às cidades de Kiev e Chernigov, no norte da Ucrânia.

A medida, que é vista com ceticismo pelas autoridades ucranianas e seus aliados, foi anunciada após cinco semanas de guerra, nas quais unidades de combate russas sofreram inúmeras baixas, sendo forçadas a retornar à Rússia e a Belarus para se reorganizar.

Os contra-ataques ucranianos fizeram as tropas russas retroceder e, de acordo com o Ministério da Defesa britânico, a Rússia está tendo problemas para sustentar suas operações em várias áreas. Então, aparentemente, o país decidiu se concentrar no leste, na região de Donbas, e abandonar o objetivo de cercar e controlar Kiev, a capital.

Mas o que está por trás desta mudança de estratégia?

A seguir, você confere a análise feita por Frank Gardner, correspondente de segurança da BBC.

Não devemos ser ingênuos. Quando a Rússia diz que vai se retirar de Kiev, não é por um grande gesto de boa vontade, mas porque deu um passo maior que as pernas. O país tem tentado travar esta guerra em três eixos: ao sul, em volta de Mariupol; a leste, em Donbas; e ao norte, ao redor de Kiev e Chernigov. E está sobrecarregado.

Eles podem continuar as negociações de paz, mas, em última análise, isso será decidido pelos fatos em solo. E o fato é que os russos controlam agora cerca de dois terços da costa ucraniana do Mar Negro, da fronteira leste com a Rússia até um pouco antes de Odessa, no oeste. Está quase em posição de controlar o comércio marítimo da Ucrânia.

De forma sensata em termos militares, os russos estão se concentrando principalmente na tentativa de aniquilar o exército regular ucraniano no leste e ao redor de Donbas.

Se este momento chegar, eles dirão “temos o que queremos, estamos prontos para falar sobre paz agora” — e vão tentar fazer a Ucrânia parecer bastante obstrutiva ao não aceitar os termos de Moscou. Ou poderão usar a vitória como base, voltar sua atenção para Kiev e tentar tomá-la.

Kiev ainda não está a salvo.

Os ucranianos conseguiram manter as forças russas fora de Kiev, embora estejam começando a sofrer com a artilharia. Mas, enquanto isso, cidades como Chernigov e Kharkiv estão sendo completamente destruídas por artilharia, foguetes e mísseis. Infelizmente, ainda haverá muito mais mortes de civis nesta guerra.

Os negociadores ucranianos disseram que não querem abrir mão de nem sequer um centímetro do território ucraniano, e esta é uma das razões pelas quais as negociações de paz não andaram até agora, porque as posições da Rússia e da Ucrânia ainda estão muito distantes.

A Ucrânia pode concordar em ser um país neutro sem armas nucleares e não fazer parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Mas ainda quer se juntar à União Europeia, quer olhar para o Ocidente, e o presidente russo, Vladimir Putin, não quer um governo de inclinação ocidental em Kiev, na sua fronteira. Ele quer pelo menos um neutro entre o Ocidente e o Oriente, embora prefira um pró-Kremlin.

É muito provável que haja uma pressão internacional, particularmente da Otan e dos EUA, sobre o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, para fazer um acordo para dar um fim aos combates.

E, para a Rússia, não faz sentido acabar com esta guerra porque ainda há mais de 100 mil soldados russos sentados à beira da fronteira ucraniana, esperando para atacar.

Como se garante a segurança da Ucrânia sem colocar ali forças da Otan, que são inaceitáveis ​​para a Rússia? Há um dilema muito difícil aí.

Se houvesse alguém diferente no poder no Kremlin, menos agressivo que Vladimir Putin, a Ucrânia não se sentiria tão ameaçada. E Putin não tem intenção de abrir mão do poder. Mesmo se renunciasse ao cargo de presidente, ele seguiria sendo o poder.

O rei francês Luís 14 dizia “l’Etat, c’est moi” (“Eu sou o Estado”). Não há ninguém em Moscou que possa desafiar Putin em termos de poder, nem os oligarcas, nem o Serviço Federal de Segurança, nem o Ministério da Defesa. Ele é todo-poderoso.

Mas Putin deve estar muito chateado com a forma como tudo se deu até agora, porque saiu de seus planos. Acho que ele foi induzido ao erro por seus chefes de inteligência, que disseram a ele que seria muito mais fácil.

Um relatório que vazou do Komsomolskaya Pravda, um jornal controlado pelo Kremlin, mostrou que há cerca de 10 mil soldados russos mortos (eles disseram que foram hackeados e não era um relatório genuíno). O Pentágono, que tem sido bastante conservador em suas estimativas, calculou as mortes russas em cerca de 7 mil há uma semana. A Ucrânia diz que há 16 mil mortos.

Os números exatos estão provavelmente em algum lugar no meio. É quase o mesmo número de soldados que a União Soviética perdeu em 10 anos de combates no Afeganistão (1979-1989), uma taxa de baixas muito alta.

O Kremlin disse na quarta-feira (30/03) que Mariupol deveria se render. Eles querem ter o controle completo da rota terrestre entre a Crimeia e Donbas. Mariupol estava no caminho disso e foi fortemente defendida. Provavelmente ainda há alguma resistência, mas as forças russas já estão na maior parte da cidade.

O que sobrou dela não vale a pena manter, são apenas destroços.

O chefe da inteligência militar ucraniana, Kyrylo Budanov, afirmou dias atrás que o plano de Putin é dividir a Ucrânia em duas, como aconteceu com a Coreia, mas não haveria um limite tão claro quanto a linha reta que separa a Coreia do Norte da Coreia do Sul.

O mais provável é que seja uma linha desigual e frágil disputada, dependendo de onde estejam as tropas, no sul e sudeste da Ucrânia, um pedaço no leste ao redor de Donbas e possivelmente alguns trechos no norte.

Mas isso será inaceitável para o governo ucraniano. Eles lutaram muito, fizeram os russos retrocederem em alguns lugares, não vão querer ceder território — e é por isso que, infelizmente, a Rússia vai continuar a fornecer armas às suas tropas, a Otan vai continuar a fornecer armas aos ucranianos e esta luta vai continuar.

BBC Brasil / Daynews

Biden fala grosso com Putin para aplacar o público norte-americano?

 




O presidente não vai nada bem nas pesquisas de opinião e declarações destemperadas podem ser forma de “ganhar a guerra” no gogó.

Por Vilma Gryzinski

Três afirmações aparentemente fora de propósito levaram muitos especialistas em política externa a erguer, metaforicamente, as mãos para o céu e implorar: “Alguém tem que cortar o microfone de Joe Biden”.

Nas declarações feitas ao longo da semana passada, Biden disse que os Estados Unidos “responderiam à altura” se a Rússia usasse armas químicas e que soldados americanos baseados na Polônia logo veriam como estão as coisas na Ucrânia. Na mais impactante delas, clamou: “Pelo amor de Deus, esse homem não pode continuar no poder”.

Como o homem é Vladimir Putin e implicar um envolvimento direto de forças americanas contra a Rússia é anátema, pelas consequências catastróficas que engolfariam os dois países detentores de 90% das armas nucleares do planeta, as frases de Biden ficaram parecendo coisa de um político sem noção, ou pior ainda, afetado por sinais de senilidade.

Existe, ainda, uma terceira hipótese: Biden, com mais de cinco décadas de vida na política e olhos sempre grudados nas pesquisas, estaria buscando um jeito fácil de conquistar a parcela da opinião pública americana que não aprova o modo como está conduzindo os Estados Unidos frente à agressão russa contra a Ucrânia.

E não é uma parcela pequena. Segundo uma pesquisa NPR/Ipsos, 56% acham que Biden não está sendo “suficientemente duro” com a Rússia, 39% acham que deveria fazer mais para ajudar a Ucrânia e só 7% acham que deve fazer menos. E 55% aprovam um aperto nas sanções contra a Rússia, mesmo que isso afete a economia americana, uma prova de que as imagens de um país invadido, com milhões de mulheres e crianças em fuga e patrióticos combatentes defendendo a liberdade, têm um efeito poderoso.

Parênteses: as teses ensandecidas de uma parte da direita americana, de que tudo não passa de uma conspiração globalista e que a Ucrânia realmente é governada por neonazistas, segundo os delírios de Putin, são endossadas por apenas 2%.

Mais pesquisa: a maior preocupação dos americanos – na faixa dos 40% – é com a inflação. Como nem o presidente dos Estados Unidos tem a varinha de condão para acabar magicamente com o complexo mecanismo do aumento de preços, Biden pode olhar para as pesquisas e ver que seu campo de ação para influenciar a opinião pública é no gogó, falando grosso com o maior de todos os vilões, Vladimir Putin.

O presidente provavelmente sabe que a atenção do público é caprichosa e, na falta de desdobramentos dramáticos, a guerra vai virar “mais do mesmo”. As próximas etapas também estão cheias de armadilhas: em algum momento, o governo americano terá que exercer pressão i sobre a Ucrânia para avançar num acordo com a Rússia.

Por mais que desejemos ver tanques ucranianos estacionando nas muralhas do Kremlin, isso não vai acontecer. A Ucrânia não vai ganhar dos russos e sofrerá algum tipo de perda territorial.

Vladimir Putin não pode parecer que ganhou, mas também não pode parecer que sofreu uma humilhação insuportável, que o transforme numa espécie de Kim Jong-un muito mais letalmente equipado, argumenta o analista Samuel Charap, da Rand, para a Foreign Affairs.

“No curto prazo, as prioridades dos Estados Unidos devem continuar a ser impedir uma vitória de Putin no campo de batalha, evitar a escalada do conflito e limitar seu custo econômico e humanitário”.

“No longo prazo, os Estados Unidos querem formatar o comportamento da Rússia de forma que minimize os riscos para os interesses geopolíticos americanos e a estabilidade internacional e reduza o potencial para futuros conflitos regionais”.

“Sem algum tipo de acordo com o Kremlin, o resultado mais provável é uma guerra longa e penosa que a Rússia, de qualquer maneira, provavelmente vai ganhar”.

Ao contrário dos defensores da tese de deixar a Rússia “sangrando” numa guerra que imaginou equivocadamente ganhar logo nos primeiros dias, Charap acha que o prolongamento do conflito, além de aumentar a escala de destruição da Ucrânia, insuflaria o fluxo de refugiados de tal forma que poderiam desencadear crises políticas nos países vizinhos que os recebem. Sem contar que as consequências econômicas poderiam provocar uma recessão mundial.

Outro analista, o inglês Sam Ashworth-Hayes, diretor da Henry Jackson Society, defende uma tese parecida: nenhuma das partes pode ter uma vitória incontestável.

“O avanço da Rússia empacou e o exército não tem tropas para uma ocupação total. As forças ucranianas não têm condições de forçar a Rússia a se retirar do país. Nenhum dos lados parece suficientemente exaurido pelo conflito para simplesmente entregar os pontos”.

O domínio da narrativa alcançado pela Ucrânia, segundo ele, vai acabar se exaurindo e o jeito vai ser negociar – o que exigirá, inelutavelmente, a influência dos Estados Unidos.

Não vai ser um espetáculo fácil ou bonito. Joe Biden sabe disso. Firmar-se como o líder que proclamou que “esse homem não pode continuar no poder” talvez aumente sua estatura moral junto ao público americano antes de ser levado à desconfortável posição de forçar concessões da Ucrânia.

A hipótese de que o presidente tenha dito o que disse por descontrole verbal contrasta com o modo equilibrado, na prática, com que vem conduzido uma crise, até agora boa para os Estados Unidos: a Rússia não ganhou, a Ucrânia não perdeu, aliados relutantes correram para se abrigar sob a bandeira de listas e estrelas e tem fila de clientes europeus disputando o gás americano.

“Ao atacar um país soberano e horrorizar o mundo, Putin deu a Biden uma oportunidade rara de unir o que costumava ser chamado de mundo livre”, escreveu Matt Purple na Spectator. “Se ele é fisicamente ou mentalmente competente para aproveitar essa oportunidade, é outra questão”.

Revista Veja

A Rússia ainda não fez as contas com seu tenebroso passado soviético

 




Ao contrário da Alemanha, a Rússia nunca foi confrontada com o seu passado como União Soviética. Josef Stalin continua a ser um herói nacional. O grande equívoco do século XX continua à solta. 

Por Luís Gouveia Fernandes 

Podemos ler tudo sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia. Para nos protegermos contra a informação que não tem fim, vinda de todos os lados e usando todos os meios, precisamos de escolher os diversos ângulos de análise: história, política, relações internacionais, militar, humanitária.

Uma amiga enviou-me há dias um texto de um psicanalista ucraniano, Roman Kechur, sobre a personalidade de Vladimir Putin, chamando a atenção para o erro que é tentarmos colocar-nos no seu lugar, para prever o que ele pode fazer. Um erro vulgar de análise e também um erro militar.

Mas o que me prendeu nesse artigo foi uma fugaz referência histórica ao fim da Segunda Guerra Mundial e às suas consequências. Diz que a Alemanha foi reformada através do Plano Marshall e de uma desnazificação, que “(…) o mal foi claramente definido como mal. Foi identificado, chamado pelo seu nome e punido (…)”, mas que, após a desintegração da União Soviética em 1991, a Rússia não foi confrontada com nenhuma acusação, nem com o julgamento dos 72 anos de expansão internacional do comunismo e de violência sobre o próprio povo. Josef Stalin continua a ser um herói nacional.

Ou seja, a União Soviética caiu, desfez-se, perdeu a Guerra Fria e a comunidade internacional pouco ou nada fez para que a Rússia pudesse considerar fazer a sua própria reforma, a partir dos erros do passado. Não definindo o mal, nem o chamando pelo seu nome significa, afinal, que, apesar do colapso, o grande equívoco do século XX continua à solta.

Não existiu nenhuma orientação no sentido do reconhecimento, pela nova Rússia, das atrocidades cometidas sobre os seus e sobre os destinos que tentou impor ao resto do mundo, principalmente aos estados mais fracos e aos que não se podiam defender. Se essa culpa não foi assumida e enquanto não for, nada obsta a que continue a vingar publicamente na Rússia, como continua, o culto da antiga União Soviética, a continuação da violência, o desprezo total pela vida humana, pelo primado da lei e pelo respeito dos direitos fundamentais que fazem parte da nossa consciência colectiva. Sem esse reconhecimento e expiação, nada obsta a que tudo continue na mesma. Não se exige aqui o zelo com que os alemães o fizeram em relação ao nazismo, mas algo terá de ser reconhecido pelos russos, formalmente e com reflexo na história do país, para que possam seguir em frente, sem complexos de grandeza e sem medo da sua própria existência.

Para além disso, surgiram as vozes do costume, deslocalizando culpas para o outro lado, justificando Putin com a falta de senso da NATO e da sua expansão, da negligência dos Estados Unidos e outras bizarrias. Para além dos militares reformados que têm defendido estas teses nos nossos media, temos também a opinião de Henry Kissinger sobre a ocupação da Crimeia pela Rússia em 2014: a Ucrânia só tem 20 e tal anos de independência da União Soviética; não pode decidir livremente a sua estratégia; deve fazer como a Finlândia; os Estados Unidos e a Europa deviam ter deixado a Rússia confortável com as suas fronteiras, etc., etc.

Kissinger foi sempre muito claro nas suas opiniões e decisões enquanto exerceu cargos nas presidências de Richard Nixon e Gerald Ford. E assim continuou, quando se transformou num consultor político internacional a partir de 1977. Mas sempre faltou um elemento nas suas equações: as pessoas, a consideração pelas pessoas que vivem nos países alvo das suas opiniões sobre estratégia. Como se o mundo se resumisse a um mapa, ou melhor, a um globo em cima de uma secretária.

Aqui neste país tivemos, pelo menos, dois tristes exemplos do factor Kissinger. Primeiro, quando ignorou em 1975 a tentativa de tomada do poder pelo Partido Comunista Português, considerando que Portugal não era estrategicamente relevante. O que nos poderia ter transformado num satélite da União Soviética até ao seu fim, durante mais de 25 anos. Segundo, quando aceitou tacitamente a ocupação de Timor pela Indonésia. Neste caso, com alguns requintes de cinismo, mandando dizer a Suharto que podia avançar sobre Timor, mas apenas depois de o Air Force One que transportava o presidente Gerald Ford de volta a Washington tivesse saído do espaço aéreo da Indonésia.

Noutro sector, no campo das artes, tivemos uma longa e exaustiva abordagem de temas sobre a Segunda Guerra Mundial, antes e depois, retratando o regime nazi, a guerra, os campos de concentração, o Holocausto, tanto no cinema, Hollywood e Europa, como na literatura de ficção, com escritores de quase todas as nacionalidades, incluindo alemães e austríacos. Esta intensa actividade artística à volta dos temas da guerra, nazismo, fascismo, racismo, foi fundamental para levar o conhecimento às pessoas e para formar gerações. E eficaz também, com a ajuda do cinema, desde “Casablanca” até à “Lista de Schindler” e ao “Pianista”.

Pelo contrário, o período soviético não deu origem a quase nenhumas obras de ficção sobre, por exemplo, a ditadura do partido, os Gulags, as purgas, a fome, as prisões, a tortura, o atraso económico, enfim, a vida das pessoas comuns na União Soviética e o naufrágio da experiência do comunismo, na Europa e no resto do mundo. E é estranho que isso tenha acontecido, mesmo depois da queda do Muro, porque a inspiração que daí emana parece ser inesgotável.

As excepções recentes são poucas. Relembro “House of Meetings”, de Martin Amis, e “A Vida dos Outros”, do realizador alemão Florian Henckel von Donnersmarck. Mesmo não sendo ficção, há também um escritor/jornalista inglês de origem russa, Peter Pomerantsev, que deve ser realçado pelo realismo e conhecimento directo. “Nothing is true and everything is possible”, um dos seus primeiros livros, faz uma descrição brutal, mas ao mesmo tempo construtiva da época actual que se vive na Rússia. Em sentido contrário, no lado oposto à realidade, podemos citar o filme “Reds”, dirigido e interpretado por Warren Beatty, com direito a Oscar em 1982, que tenta transmitir uma visão romântica da revolução de 1917. Talvez seja preciso uma nova “Novela de Xadrez” e um novo Stefan Zweig.

Parece, de facto, que há um afastamento silencioso, uma condescendência dos autores ocidentais de ficção sobre o que se passou em grande parte do século XX, sobre um dos períodos da história em que um regime, uma ideologia, tão mal fez a tanta gente, durante tanto tempo. Nota-se uma certa cerimónia para não mexer numa realidade que esteve oculta e que agora, mesmo depois de todas as revelações, continua a assombrar-nos com estas perguntas: “como foi possível?”; “tanta violência, em nome de quê?”.

Talvez a brutal invasão da Ucrânia pela Rússia venha alterar este estado de oblivião, infelizmente com custos humanos incomensuráveis. Para memória futura.

Para ouvir ao mesmo tempo recomenda-se: “God Only Knows”, Beach Boys

Observador (PT)

Em destaque

TJ-BA institui Sistema de Integridade para reforçar ética, transparência e controle interno

  TJ-BA institui Sistema de Integridade para reforçar ética, transparência e controle interno Por  Política Livre 29/01/2026 às 10:18 Foto: ...

Mais visitadas