sexta-feira, abril 01, 2022

Biden fala grosso com Putin para aplacar o público norte-americano?

 




O presidente não vai nada bem nas pesquisas de opinião e declarações destemperadas podem ser forma de “ganhar a guerra” no gogó.

Por Vilma Gryzinski

Três afirmações aparentemente fora de propósito levaram muitos especialistas em política externa a erguer, metaforicamente, as mãos para o céu e implorar: “Alguém tem que cortar o microfone de Joe Biden”.

Nas declarações feitas ao longo da semana passada, Biden disse que os Estados Unidos “responderiam à altura” se a Rússia usasse armas químicas e que soldados americanos baseados na Polônia logo veriam como estão as coisas na Ucrânia. Na mais impactante delas, clamou: “Pelo amor de Deus, esse homem não pode continuar no poder”.

Como o homem é Vladimir Putin e implicar um envolvimento direto de forças americanas contra a Rússia é anátema, pelas consequências catastróficas que engolfariam os dois países detentores de 90% das armas nucleares do planeta, as frases de Biden ficaram parecendo coisa de um político sem noção, ou pior ainda, afetado por sinais de senilidade.

Existe, ainda, uma terceira hipótese: Biden, com mais de cinco décadas de vida na política e olhos sempre grudados nas pesquisas, estaria buscando um jeito fácil de conquistar a parcela da opinião pública americana que não aprova o modo como está conduzindo os Estados Unidos frente à agressão russa contra a Ucrânia.

E não é uma parcela pequena. Segundo uma pesquisa NPR/Ipsos, 56% acham que Biden não está sendo “suficientemente duro” com a Rússia, 39% acham que deveria fazer mais para ajudar a Ucrânia e só 7% acham que deve fazer menos. E 55% aprovam um aperto nas sanções contra a Rússia, mesmo que isso afete a economia americana, uma prova de que as imagens de um país invadido, com milhões de mulheres e crianças em fuga e patrióticos combatentes defendendo a liberdade, têm um efeito poderoso.

Parênteses: as teses ensandecidas de uma parte da direita americana, de que tudo não passa de uma conspiração globalista e que a Ucrânia realmente é governada por neonazistas, segundo os delírios de Putin, são endossadas por apenas 2%.

Mais pesquisa: a maior preocupação dos americanos – na faixa dos 40% – é com a inflação. Como nem o presidente dos Estados Unidos tem a varinha de condão para acabar magicamente com o complexo mecanismo do aumento de preços, Biden pode olhar para as pesquisas e ver que seu campo de ação para influenciar a opinião pública é no gogó, falando grosso com o maior de todos os vilões, Vladimir Putin.

O presidente provavelmente sabe que a atenção do público é caprichosa e, na falta de desdobramentos dramáticos, a guerra vai virar “mais do mesmo”. As próximas etapas também estão cheias de armadilhas: em algum momento, o governo americano terá que exercer pressão i sobre a Ucrânia para avançar num acordo com a Rússia.

Por mais que desejemos ver tanques ucranianos estacionando nas muralhas do Kremlin, isso não vai acontecer. A Ucrânia não vai ganhar dos russos e sofrerá algum tipo de perda territorial.

Vladimir Putin não pode parecer que ganhou, mas também não pode parecer que sofreu uma humilhação insuportável, que o transforme numa espécie de Kim Jong-un muito mais letalmente equipado, argumenta o analista Samuel Charap, da Rand, para a Foreign Affairs.

“No curto prazo, as prioridades dos Estados Unidos devem continuar a ser impedir uma vitória de Putin no campo de batalha, evitar a escalada do conflito e limitar seu custo econômico e humanitário”.

“No longo prazo, os Estados Unidos querem formatar o comportamento da Rússia de forma que minimize os riscos para os interesses geopolíticos americanos e a estabilidade internacional e reduza o potencial para futuros conflitos regionais”.

“Sem algum tipo de acordo com o Kremlin, o resultado mais provável é uma guerra longa e penosa que a Rússia, de qualquer maneira, provavelmente vai ganhar”.

Ao contrário dos defensores da tese de deixar a Rússia “sangrando” numa guerra que imaginou equivocadamente ganhar logo nos primeiros dias, Charap acha que o prolongamento do conflito, além de aumentar a escala de destruição da Ucrânia, insuflaria o fluxo de refugiados de tal forma que poderiam desencadear crises políticas nos países vizinhos que os recebem. Sem contar que as consequências econômicas poderiam provocar uma recessão mundial.

Outro analista, o inglês Sam Ashworth-Hayes, diretor da Henry Jackson Society, defende uma tese parecida: nenhuma das partes pode ter uma vitória incontestável.

“O avanço da Rússia empacou e o exército não tem tropas para uma ocupação total. As forças ucranianas não têm condições de forçar a Rússia a se retirar do país. Nenhum dos lados parece suficientemente exaurido pelo conflito para simplesmente entregar os pontos”.

O domínio da narrativa alcançado pela Ucrânia, segundo ele, vai acabar se exaurindo e o jeito vai ser negociar – o que exigirá, inelutavelmente, a influência dos Estados Unidos.

Não vai ser um espetáculo fácil ou bonito. Joe Biden sabe disso. Firmar-se como o líder que proclamou que “esse homem não pode continuar no poder” talvez aumente sua estatura moral junto ao público americano antes de ser levado à desconfortável posição de forçar concessões da Ucrânia.

A hipótese de que o presidente tenha dito o que disse por descontrole verbal contrasta com o modo equilibrado, na prática, com que vem conduzido uma crise, até agora boa para os Estados Unidos: a Rússia não ganhou, a Ucrânia não perdeu, aliados relutantes correram para se abrigar sob a bandeira de listas e estrelas e tem fila de clientes europeus disputando o gás americano.

“Ao atacar um país soberano e horrorizar o mundo, Putin deu a Biden uma oportunidade rara de unir o que costumava ser chamado de mundo livre”, escreveu Matt Purple na Spectator. “Se ele é fisicamente ou mentalmente competente para aproveitar essa oportunidade, é outra questão”.

Revista Veja

Em destaque

Aliados de Lula defendem que ele não indique novo nome ao STF neste ano

  Aliados de Lula defendem que ele não indique novo nome ao STF neste ano Ala teme que o presidente sofra nova derrota e sugere que cadeira ...

Mais visitadas