domingo, março 12, 2023

Nem inadimplência segura inflação - Editorial




IPCA de fevereiro lança novas dúvidas sobre cenário econômico e sinaliza que é cedo para o BC reduzir os juros

O número de brasileiros inadimplentes bateu recorde histórico e chegou a 70,1 milhões de pessoas em janeiro, segundo dados da Serasa. O valor dos débitos também foi o mais alto da série e atingiu a marca de R$ 323,3 bilhões. No intervalo de um ano, o número de pessoas que ficaram com o nome sujo na praça subiu 8,3%, enquanto o volume das dívidas aumentou assombrosos 24%.

Esse quadro tenebroso no que diz respeito ao endividamento se deve a um conjunto de fatores. Além do aumento das taxas de juros, que por si só já retroalimenta o crescimento das dívidas, muitas famílias buscaram se financiar com linhas que já são tradicionalmente mais caras, como cheque especial e cartão de crédito.

Não há dúvidas, no entanto, de que a inflação tem contribuído para ampliar as agruras dos inadimplentes. “A inflação fez um estrago gigantesco no orçamento das famílias, especialmente nas de baixa renda, o que gerou esse crescimento no número de brasileiros inadimplentes”, explicou ao Estadão o economistachefe da Serasa, Luiz Rabi. E o pior é que a inflação insiste em não arrefecer.

Em fevereiro, o IPCA subiu 0,84%, ante 0,53% em janeiro, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A taxa de difusão, que mede a proporção dos 377 subitens do indicador que tiveram aumento de preços no período, avançou de 63% em janeiro para 65% em fevereiro. Dos nove grupos que compõem o índice, oito registraram altas no mês passado, com exceção de vestuário.

Tudo indica que a tendência de desaceleração que vinha sendo observada até o fim do ano passado está perdendo força. Isso já seria suficientemente preocupante, mas o problema é que esse movimento começou a ocorrer com a inflação ainda rodando em níveis bastante elevados. “Estamos em uma pausa na desinflação”, disse Anna Reis, economista da GAP Asset. A economista-chefe da CM Capital, Carla Argenta, mencionou os impactos positivos da política monetária em bens duráveis e alimentos, mas destacou que os serviços, que também costumam reagir às restrições geradas por juros altos, não apenas resistem a ceder, como subiram 1,41%.

Como não poderia ser diferente, o mercado financeiro ajustou as expectativas ao resultado do IPCA, e os juros futuros voltaram a subir imediatamente após o indicador. A despeito das incertezas sobre a política fiscal do governo e sobre o novo arcabouço, parte dos investidores avaliava que a piora no mercado de crédito para empresas – em razão da crise das Americanas – poderia estimular o Banco Central (BC) a antecipar o ciclo de redução dos juros, hoje em 13,75% ao ano.

No entanto, nem mesmo a inadimplência recorde das pessoas físicas tem sido suficiente para debelar a resiliência da inflação – e vale lembrar que controlar a inflação e garantir a estabilidade do poder de compra da moeda é a principal missão institucional do BC. Apesar de toda a pressão do governo de Lula da Silva e dos temores de vários setores sobre uma recessão, o cenário macroeconômico segue muito incerto e pouco favorável para motivar o BC a começar a reduzir a Selic.

O Estado de São Paulo

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