Durval Mazzei Nogueira Filho, psiquiatra e psicanalista
O caso do padre Júlio Lancelotti é um ponto de convergência de uma série de proposições. Todas elas em discussão da academia às esquinas. São temas amplos. Da criminalidade à sexualidade, da autoridade ao permissivo, do preconceito à vingança. Da verdade e da mentira.
Como os jornais noticiaram de montão, padre Júlio denunciou ser objeto de extorsão. Ex-adolescente em conflito com a lei pede-lhe dinheiro para não divulgar um arroubo pedofílico do padre. Uma menininha teria sido o objeto sexual. Esta historinha, próxima daquelas para boi dormir, desaparece no meio de outra história, mais adulta, entre o padre e o ex-adolescente criminoso. Este não mais uma criança, mas um efebo cônscio dos poderes da sedução; aquele, o padre, um adulto, católico celibatário, às voltas com a incessante tentação da carne.
Aqui a história começa a obscurecer. Qual a razão da extorsão? É extorsão ou usual oferta de presentes entre amantes? Há a aposta na recuperação do criminoso, na reedição do bom selvagem de Rousseau na pele do onipresente perdão cristão? O delegado Pórrio, acusado de achaques a traficantes, quis desviar a atenção de seu caso?
Cartas de leitores a jornais salientam que, finalmente, o padre defensor dos bons modos naturais dos criminosos enfim vivesse na pele o efeito da bandidagem. Não deixaram de comentar o apoio ao padre e não ao criminoso, por figuras públicas reconhecidas como paladinas do oposto.
Como se vê, de todos os grandes temas que a história traz, a que chama mais atenção, a que produz efeitos, relaciona-se à criminalidade e à impunidade.
Há, verdadeira ou não, uma impressão que vivemos o país do tudo pode.
Aos com poder econômico e/ou político, a rede jurídica parece abrir brechas para que a punição não ocorra ou ocorra de uma forma tal que o cidadão que observa indignado não considera que a justiça tenha sido feita. O paradoxo é que este mesmo cidadão reelegeu renunciantes acusados de envolvimento no mensalão. Que cidadão é esse?
Aos sem poder econômico e/ou político, há um discurso de que a miséria e a falta de oportunidades em um Brasil globalizado e neoliberal justificam qualquer ação. De assassinar alguém no semáforo ou participar do tráfico de drogas. Afinal de contas, o pai sumiu, a mãe teve outros homens e outros filhos e a mídia onipresente oferece objetos de consumo inacessíveis ao grupo social que pertence. O paradoxo é que os presídios estão lotados e os governos planejam a construção de mais unidades prisionais.
A ocorrência dos paradoxos é o fenômeno a ser investigado. O paradoxo põe em xeque a verdade possível em cada proposição, em cada frase, em cada acontecimento, em cada ação, de tal forma que qualquer alternativa pode ser a verdadeira.
Daí passar como verdade que o presidente do país que teve a maioria dos colaboradores próximos envolvidos em falcatruas "não saber de nada". E passar como mentira que um devotado padre católico acredite, piamente, que obedece a um dos princípios mais caros ao cristianismo: a esperança.
Fonte: JB Online
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