Alcides Amaral, jornalista e ex-presidente do Citibank no Brasil alcides.amaral@jb.com.br
No fim da década de 90, quando Fernando Henrique Cardoso era presidente e Pedro Malan o ministro da Fazenda, as conversas que tínhamos em Nova York eram interessantes. Vivíamos crises internacionais atrás de crises internacionais, até que a crise chegou ao Brasil no fim de 1988 e começo de 1999. Com o conhecimento que tínhamos, como presidente do Citibank, dos governantes brasileiros, tínhamos a certeza de que eles iriam cumprir os contratos da dívida externa recém- assinada, que não haveria calote interno e que as dificuldades iriam ser superadas sem "surpresas" desagradáveis.
Diante de nossa firme posição de continuar apoiando o Brasil mesmo depois da desvalorização do câmbio em 1999, os seniors de Nova York sempre nos indagavam: o que acontecerá com o Brasil quando tiver um governo de esquerda? As regras e os contratos serão honrados, ou teremos uma outra Argentina?
Era uma pergunta difícil de responder, pois o discurso do PT no país era "contra tudo que está aí". O temor ficou evidente quando, em meados de 2002, Lula subiu nas pesquisas e o dólar chegou a quase R$ 4. Era o "fantasma" de termos um governo de esquerda. Ninguém poderia imaginar o que iria acontecer.
Quando Lula assumiu o poder e deu continuidade ao Plano Real, o país acalmou. O dólar voltou rapidamente pois o "fantasma" desaparecera. Tínhamos um governo "de esquerda" e o Brasil continuava nos trilhos.
Vivemos um período de tranqüilidade com relação à continuidade do modelo econômico, o Brasil crescendo, os menos favorecidos felizes com o governo Lula. Tudo ia bem até que recentemente iniciaram-se os "boatos" com relação a um terceiro mandato do presidente Lula, prontamente desmentido por ele. No começo deste mês, o jornalista Boris Casoy escreveu, entre outros, na sua coluna do JB, que "ao mesmo tempo surge um parlamentar petista, Devanir Ribeiro, copa e cozinha de Lula, e, num ato de 'desobediência' ao amigo e ao patrão, lança a idéia de um terceiro mandato para nosso ilustre presidente".
Mais adiante, afirma ainda: "Não tenham dúvidas. Está no ar um processo golpista como nunca se viu antes neste país".
O assunto - terceiro mandato - começou a fazer parte das discussões políticas até que, na última quarta-feira, o presidente Lula saiu em defesa de Hugo Chávez, afirmando que o presidente venezuelano não pode ser atacado por falta de democracia. Não bastasse, voltou a defender o presidente venezuelano das críticas por querer permanecer no poder no terceiro mandato, cujo texto faz parte de reforma constitucional que será submetida a referendo popular em 15 dias. Isto é, Lula abraça todas as idéias e planos de Chávez de permanecer no poder o tempo que quiser.
Enfim, estamos vivendo uma fase de transformação na América Latina e que começa a chegar perto de nós. O que Chávez realmente busca é uma espécie de "ditadura" em forma de lei, e o nosso presidente Lula parece concordar com esse modelo. Será que o "fantasma" de um governo de esquerda voltou de novo ao nosso país? É simplesmente defesa a um amigo ou o apego ao poder esta fazendo com que nosso presidente queira também usufruir das delícias de Brasília por mais tempo?
O que preocupa, na realidade, não é uma mudança constitucional que daria poderes ao presidente para um terceiro mandato. O que nos deixa com um pé atrás (ou com os dois, se possível) é o porquê desse eventual interesse? Para continuar fazendo exatamente o mesmo? Parece que não. Seria a oportunidade de colocar em prática a velha ambição do PT de permanecer 20 anos como governo?
Vamos, pois, colocar as barbas de molho e ficar atentos aos movimentos futuros do PT e do presidente Lula. Seria um desastre para a economia se o "fantasma" voltasse novamente a nos assustar. O povo deste país não merece enfrentar nova crise gerada por nós mesmos.
PS - Por motivos de ordem pessoal, estamos terminando aqui nossa colaboração semanal a este prestigioso jornal. Grato pelo apoio de todos e pela simpatia dos leitores.
Fonte: JB Online
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