Publicado em 5 de julho de 2025 por Tribuna da Internet

Charge do Mário Aolfo (marioadolfo.com)
Pedro do Coutto
Com o anúncio da nova fase do Minha Casa, Minha Vida voltada à classe média, o presidente Lula deu início, de forma velada, à corrida eleitoral de 2026. A criação da chamada Faixa 4, que contempla famílias com renda entre R$ 8 mil e R$ 12 mil, permite o financiamento de imóveis de até R$ 500 mil, com prazos de até 35 anos e juros em torno de 10% ao ano — abaixo das taxas praticadas pelos bancos privados, que chegam a 12,5% anuais.
A medida representa uma tentativa clara do governo de dialogar com um eleitorado estratégico, frequentemente negligenciado nas políticas públicas habitacionais, e que sente, no bolso, os impactos da inflação e do encarecimento do crédito. Apesar de positiva no papel, a proposta esbarra em limitações estruturais do mercado brasileiro de habitação.
CUSTO – O primeiro obstáculo é o custo do crédito. Mesmo com taxas inferiores ao mercado, um financiamento a 10% ao ano ainda representa um custo elevado ao mutuário, principalmente quando se considera o efeito composto sobre um prazo tão longo. Na prática, a dívida pode dobrar ou até triplicar ao longo de três décadas.
O segundo entrave, e talvez o mais perverso, é a corrosão salarial provocada pela inflação. No Brasil, os reajustes salariais, em regra, ocorrem apenas após o fechamento do ano fiscal, o que significa que o trabalhador passa os primeiros onze meses do ciclo perdendo poder de compra, mês após mês, sem qualquer mecanismo de correção automática.
Quando finalmente é recompensado, a inflação já reiniciou seu ciclo de desgaste. É como correr atrás do próprio rabo: o assalariado até recupera o que perdeu, mas a defasagem constante impede qualquer avanço real. Esse fenômeno tem impacto direto sobre o sucesso de qualquer política de financiamento.
VALOR DAS PARCELAS – O brasileiro que contrai uma dívida longa precisa de previsibilidade — tanto em relação ao valor das parcelas quanto ao seu próprio salário. Em um país onde a inflação é persistente e o custo de vida sobe em ritmo desigual ao do rendimento médio, o risco de inadimplência é alto.
O que deveria ser um projeto de estabilidade e progresso — a casa própria — pode se transformar em um fardo financeiro. A situação é ainda mais agravada pela atual política monetária. Com a Selic elevada, os bancos encarecem suas linhas de crédito. A Caixa, principal agente do programa, já elevou em 2025 os juros de alguns contratos para até 12% ao ano, o que compromete a atratividade da medida, sobretudo para famílias que vivem no limite da renda e da expectativa.
O cenário revela um dilema clássico da política brasileira: boas intenções encalham nas amarras da realidade econômica. Não basta criar faixas de renda e linhas de crédito — é preciso garantir que essas linhas sejam viáveis. A inflação não é apenas um índice; ela é um fenômeno social que redistribui renda para cima, penalizando sistematicamente os assalariados.
CARNÊ – Ainda que o governo busque embates digitais e estratégias de comunicação para ampliar a aceitação da medida, como tem feito nas redes sociais, o que pesa no final das contas é o carnê. A classe média, acostumada a calcular no detalhe os impactos da inflação no supermercado, no transporte e na escola dos filhos, saberá se o projeto é sustentável ou apenas mais uma promessa de campanha travestida de política pública.
É inegável que o programa tem potencial transformador se bem calibrado. A ampliação do acesso ao crédito habitacional pode aquecer a construção civil, gerar empregos e estimular a economia local. Mas isso só será possível com juros realmente baixos, segurança contratual e políticas salariais que reconheçam o ritmo inflacionário com mais agilidade.
Enquanto o reajuste de salário vier com 12 meses de atraso e a inflação corroer o presente, o futuro da casa própria continuará distante — ainda que o governo já comece a pintá-la em suas propagandas.



