domingo, maio 01, 2022

A culpa é do Centrão

 




Ali habitam profissionais, herdeiros e representantes de segmentos sociais, mas seu objetivo não é o bem do país

Por Ascânio Seleme (foto)

É gigantesca a distância que separa o centro democrático do malcheiroso Centrão. O centro não reúne apenas santos, mas em grande parte é formado por políticos que prezam o Brasil. Muitos são profissionais, vivem disso, o que não é crime, outros são herdeiros políticos de pais, tios e avós ou representantes de setores da sociedade. Entre estes há muitos com genuíno interesse em trabalhar para melhorar a vida dos brasileiros. No Centrão ninguém é santo. Também ali habitam profissionais, herdeiros e representantes de segmentos sociais, mas seu objetivo não é o bem do país. Nunca foi.

O Centrão é corrupto. Nasceu corrupto e permaneceu assim ao longo de mais de três décadas, servindo (e servindo-se de) todos os governos, com mais ou menos intensidade, mas sempre em troca de poder ou dinheiro público. Poder, aliás, para facilitar o caminho ao dinheiro público. Ou alguém acha que Ciro Nogueira e Valdemar Costa Neto querem ministérios, como Severino Cavalcanti queria a “diretoria que fura poço” da Petrobras, para melhorar o Brasil? O Centrão não controla necessariamente partidos, embora tenha em seus quadros líderes de siglas. O grupo não pune parlamentares que não seguem suas orientações, apenas corta suas mesadas ou o acesso ao cofre coletivo.

Na sua gênese, o Centrão atuou em favor do governo Sarney. Na Constituinte de 1987 e 1988, liderou o bloco que trabalhou em favor de um mandato de cinco anos para o presidente. Depois operou para Collor, FH, Lula, Dilma e Temer. Tentou sem sucesso barrar o impeachment de Collor. Na gestão de FH foi a favor da reforma constitucional que instituiu a reeleição. Com Lula, locupletou-se no mensalão. Liderado por Eduardo Cunha, traiu Dilma e trabalhou pelo seu afastamento. De Temer foi aliado desde a primeira hora e refestelou-se na Esplanada dos Ministérios.

O auge do empoderamento do Centrão ocorre agora, no governo hediondo de Jair Bolsonaro, no qual escalou até o posto mais alto, a Casa Civil. O agrupamento acha que emparedou o presidente porque nunca ouve um não ao seu apetite fisiológico. Claro, ele usa o Centrão para evitar que se encaminhe qualquer pedido de impeachment pelos mais de 30 crimes de responsabilidade que cometeu, para garantir alianças eleitorais na tentativa de se reeleger e, em última instância, para dar um golpe no caso de derrota eleitoral.

Além da firme aliança com o Executivo, o Centrão ocupa a presidência da Câmara. O orçamento secreto que repartiu R$ 16 bilhões (duas vezes e meia o que foi ressarcido à Petrobras pela Lava-Jato) dá a dimensão do seu poder. Por cargos, vantagens e dinheiro público, apoia qualquer um, até mesmo um chefe de milícia. Desavergonhados, os comandantes do Centrão operam à luz do dia desde que foram incorporados pelo bolsonarismo.

Você pode dizer tudo bem, o Centrão sempre foi assim. Ninguém discorda. Nem o general Heleno. Lembram dele cantando “Se gritar pega Centrão…”? O fato é que o Centrão abusado do passado virou escrachado agora. Nas gestões que se sucederam até desembarcar no governo Bolsonaro, apoiou tudo, menos arroubos antidemocráticos. Lula, por exemplo, não teve o seu aval quando Franklin Martins tentou instituir a censura à imprensa através do projeto que apelidou de controle externo da mídia.

Fechar os olhos para os atos criminosos do presidente porque nunca recebeu tantas bênçãos do Planalto ultrapassa todos os limites. Esta semana, Arthur Lira e Rodrigo Pacheco reagiram aos novos ataques de Bolsonaro às urnas eletrônicas. Mas ainda é pouco. Se ele tentar um golpe, a culpa não será só dos militares. Estes, apenas com o presidente, sem a leniência do Congresso, nada fariam. Não teriam coragem. Talvez ainda não tenham, mas a benevolência do Centrão lhes dá força. Se fosse somente com os parlamentares de extrema direita eleitos em 2018, como Daniel Silveira, Bia Kicis e o resto da tropa, tampouco se atentaria contra a democracia. Se a tragédia se der, a culpa será do Centrão.

Errar e seguir errando

O Brasil jamais deveria ter perdoado Jair Bolsonaro depois da tentativa de golpe do 7 de setembro do ano passado. O presidente chamou o ministro Alexandre de Moraes de canalha, disse que não respeitaria mais suas decisões e incitou a massa a invadir o Supremo Tribunal Federal. Não há crime mais explícito contra a Constituição e o estado de direito do que aquele. Depois, com a intervenção do ex-presidente Michel Temer e o pedido de desculpas esfarrapadas de Bolsonaro, as instituições esqueceram a agressão. Não cumpriram o seu papel. Agora, Bolsonaro diz outra vez que não respeitará decisão do STF no caso do marco temporal sobre as terras indígenas e pisoteia o tribunal ao indultar o deputado Daniel Silveira. O caldo pode engrossar ainda mais amanhã, nos atos que convocou para o 1º de maio. E daí? Daí, nada. Ele vai ser perdoado outra vez.

Esfarrapado

Ontem, Bolsonaro disse que não quis “peitar” o Supremo ao conceder indulto ao deputado condenado. Disse que houve um excesso e que ele apenas “corrigiu uma injustiça”. Ora, quem é ele para “corrigir” a última instância da Justiça brasileira? Trata-se de um arremedo de explicação do ato desgraçado.

Lugar de militar

Capitão, deixe que o TSE e os partidos políticos cuidam das eleições. Lugar de militar é no quartel. Isso aqui é uma democracia. Milico só se ocupa do sistema eleitoral na ditadura. Ou o elimina. Primeiro dê o golpe, depois coloque os generais para vigiar urnas e contar votos. A ideia é tão ridícula que, veja você, até o Arthur Lira se insurgiu contra.

Pacto de silêncio

Jornalista gosta quando as pessoas falam, sobretudo se elas são autoridades públicas que têm responsabilidades perante o Brasil e os brasileiros. No caso do Executivo, os servidores são obrigados por lei a dar publicidade aos seus atos. Nada deve ser secreto na administração pública. No Legislativo, o quadro é igual. Os homens e as mulheres que representam os cidadãos nacionais devem satisfação de cada um dos seus movimentos. No Judiciário é diferente, juiz não deve falar, a menos que seja nos autos. Esta deveria ser a regra para cada um dos Poderes, mas no Brasil a cantiga é outra. No Planalto, decreta-se sigilo de cem anos até para atos corriqueiros, o presidente fala o que quer e responde apenas às perguntas que acha convenientes. No Congresso, deputados e senadores fazem votações secretas e empenham orçamento público secretamente. Enquanto isso, no Supremo, ministros falam pelos cotovelos. Por isso soou estranho o pacto de silêncio que decretaram sobre o caso Daniel Silveira.

Racismo

O torcedor argentino racista que simulou um macaco para atacar a torcida brasileira adversária foi solto com pagamento de fiança. Pode? Sim. A lei brasileira sobre a questão, embora moderna e importante, tem brechas para que o crime inafiançável seja flexibilizado e o criminoso possa responder em liberdade. Trata-se do eufemismo que atende pelo nome de injúria racial. Pela lei, injúria é um gesto, racismo é um ato. O que se viu na Arena Corinthians, as imagens são evidentes, foi uma agressão racista. A autoridade policial usa este eufemismo para não se aborrecer e acabar logo com a querela. O criminoso foi embora zombando da lei e da Justiça brasileiras depois que o consulado argentino pagou a fiança. Aposto que ele jamais voltará para responder ao inquérito aberto e não pagará sua dívida com o condescendente serviço consular. Na semana, houve outros três episódios de racismo de torcedores argentinos, chilenos e equatorianos. E no Brasil? É a mesma coisa. Em alguns casos, pior.

Homofobia

Uma lanchonete que atende aos diplomatas no anexo do Itamaraty, em Brasília, recebeu há muitos anos o apelido pejorativo de “bichonete”. Não se trata de nenhuma referência a pets, mas uma ofensa homofóbica. O apelido está quase oficializado, apesar do constrangimento que causa nos servidores do Ministério das Relações Exteriores. Tanto que agora já aparece como referência no Google Maps, no FourSquare e até em guias de restaurantes de Brasília.

Mamãe cuida

O ex-secretário de Agricultura do Rio Grande do Sul, deputado Covatti Filho (Progressistas), desincompatibilizou-se em abril para poder candidatar-se a um novo mandato de deputado federal. O engraçado é que ele deixou o cargo mas o cargo não o abandonou. Ficou com sua mãe, dona Silvana Covatti, com o aval do ex-governador Eduardo Leite. Não podia ser mais descarado. No período que ocupou a cadeira parlamentar, antes de assumir a secretaria, votou 95% com o governo Bolsonaro. De volta a Brasília, o ruralista vai agora presidir a Comissão de Meio Ambiente da Câmara. Pode?

Exu neles

Os pastores evangélicos que vendem apoio a Jair Bolsonaro, os que dizem temer a Deus e sustentam um apologista da tortura, os que fazem lobby em troca de ouro, os que vendem vacinas e os que dão tiro em aeroporto deveriam ter visto o desfile da Grande Rio. Não viram. Se viram, não entenderam. O povo é soberano quando suas crenças religiosas são genuínas, quando sua fé é honesta.

O Globo

Em defesa do que nos é comum




Por Luiz Werneck Vianna* (foto)

Respira-se um ar carregado sob um céu sombrio desses que anunciam tempos de catástrofe. Dia e noite, instalados no poder político, personagens mal-intencionados conspiram para a ruina da democracia brasileira diante de uma sociedade desatenta e entregue às suas fainas habituais, não abdicando sequer de brincar os folguedos de carnaval como se não houvesse amanhã. Nos gabinetes de políticos falsamente atarefados cogita-se sobre qual candidato sem votos recairá a falsa benção de ser o representante de uma 3ª via que pretensamente nos livre disso que aí está, miragem com que se animam as pretensões ególatras de políticos liliputianos.

Embalados nessa cantilena, centrados em seus umbigos, deixam de reparar o abismo que se abre a seus pés e de toda a sociedade com o avanço do fascismo, que apura a sua mira em direção ao STF, até aqui o maior obstáculo aos intentos liberticidas, poder desarmado apenas detentor do bom direito. O cenário internacional com o transcorrer dessa infame guerra na Ucrânia é mais uma pedra no caminho dos que lutam contra os regimes autocráticos, como aqui nas posições favoráveis do atual governo ao regime discricionário russo, em claro desafio às melhores tradições da nossa política externa.

Nesse quadro, que ainda pode se agravar com uma eventual vitória dos republicanos nas eleições legislativas americanas, salvo a UE e a jurisdição benfazeja da ONU nas relações internacionais, somente devemos contar com forças próprias, em primeiro lugar numa articulação inédita das forças políticas, tão ampla quanto possível, a ser amparada por uma corajosa mobilização popular em defesa da economia popular sempre com foco na valorização das nossas instituições democráticas. Tal articulação deve necessariamente incluir o Centrão e todas as forças e personalidades que dependam do voto para a satisfação dos seus interesses. No caso, deve-se destacar a recente manifestação dos presidentes do Senado. Rodrigo Pacheco, e da Câmara dos Deputados, Artur Lira, em defesa do nosso sistema eleitoral, atacado pelo presidente Bolsonaro em sua estratégia de derruir as bases da nossa democracia.

Na verdade, o que se mantém sob ataque cerrado das hostes antidemocráticas não é um partido ou personalidades singulares, mas a própria conformação do país, com suas instituições, história, tradições e valores, alvos da fúria dos esbirros em sua sanha destrutiva da cultura e das manifestações da vida popular. O caso mais aberrante dessa delirante perseguição está na questão racial posta a Fundação Palmares sob a direção de um burocrata negro negacionista do racismo da sociedade brasileira.

Na questão indígena, num governo de militares abandona-se o legado do marechal Rondon para se investir de modo genocida com suas populações a fim de dar passagem livre em suas terras para os negócios da mineração, e a floresta amazônica é entregue à cobiça do agronegócio e dos madeireiros cuja obra já começa a ameaça-la tornar-se uma savana.

A herança comum que recebemos dos nossos maiores cada dia é degradada. Sob ameaças tão pesadas o que importa é defender o que nos é comum, desconhecendo barreiras entre regiões, classes, entre o moderno e o atraso, por que nada tem escapado do ímpeto de desnaturalizar o que faz Brasil Brasil. Aos Poderes Legislativo e ao Judiciário, investidos da sua alta representação cabe estabelecer um limite institucional às práticas deletérias que minam as nossas fontes de vida em comum. Aos políticos e às lideranças da sociedade civil é dever o procurar linhas de resistência consensuais, nas ruas e no voto, a fim de impor uma derrota ao arbítrio de um governo celerado que se comporta nos moldes de um exército de ocupação em nosso país.

*Luiz Werneck Vianna, Sociólogo, Puc-Rio 

UNISINOS

A serviço do golpismo

 




O golpismo de Bolsonaro tem a mesma cadência da politização das Forças Armadas

Por Vinicius Sassine (foto)

Jair Bolsonaro é um presidente com intenções e atos golpistas. Provou isso ao inflamar manifestação a favor de intervenção militar, em frente ao QG do Exército; ao usar o 7 de Setembro para um protesto pelo silenciamento do STF, quase invadido nos dias seguintes; ao confrontar o Judiciário com o perdão a Daniel Silveira; e ao atacar o sistema eleitoral.

O golpismo de Bolsonaro, para que tenha êxito pelo menos no campo da retórica, passa por um cargo estratégico no governo: o de ministro da Defesa. O presidente quer as Forças Armadas alinhadas ao seu projeto e, a seu modo, usa os generais colocados na Defesa –já foram três em três anos.

Por isso, quando o general Paulo Sérgio de Oliveira aceitou deixar o comando do Exército para comandar a Defesa, no ano em que Bolsonaro tentará a reeleição, a dúvida não era se seria arrastado ao golpismo, mas quando.

Bastaram 24 dias. O general, na noite do último domingo (24), divulgou uma nota para rebater o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, que afirmou existir orientação para as Forças Armadas atacarem o sistema eleitoral.

O texto de Oliveira, submetido previamente a Bolsonaro, fez críticas duras a um integrante do Supremo; citou a necessidade de mais segurança no processo eleitoral; e colocou as eleições como questão de "soberania e segurança nacional".

O gesto do ministro da Defesa municiou Bolsonaro em mais uma ofensiva golpista, apenas três dias após a nota. O presidente apontou possibilidade de suspeição da eleição e chegou a sugerir que as Forças Armadas participem de uma contagem paralela dos votos.

O golpismo de Bolsonaro tem a mesma cadência da politização das Forças. Os dois movimentos crescem em proporção igual.

O presidente segue sem ser incomodado, e ouve "sims" de seus generais para instrumentalização da Defesa, descredibilização das urnas eletrônicas e desfile de tanques enfumaçados em frente ao Planalto. Bolsonaro está à vontade para ser golpista.

Folha de São Paulo

Bolsonaro tem medo da democracia




O objetivo do nazifascista bolsonarista é de produzir o caos no processo eleitoral. Os extremistas não conseguem conviver com a pluralidade de ideias

Por Marco Antonio Villa (foto)

A campanha presidencial deste ano caminha, ao menos até o momento, a privilegiar temas que são instrumentais para obter a vitória eleitoral, mas não são os que realmente importam para o futuro do País. Os candidatos escolhem o terreno que preferem palmilhar, porém é fundamental redirecionar o debate eleitoral para os grandes problemas nacionais. O privilegiamento da pauta de costumes por parte de Jair Bolsonaro faz parte de uma estratégia de campanha que busca ocultar o desastre do combate à pandemia, os casos de corrupção e a falta de vitrine de realizações – afinal, o governo foi o pior da história republicana. Desviando para a pauta de costumes – e Lula já caiu recentemente nesta armadilha –, Bolsonaro reforça seus laços com sua base evangélica, legitima o discurso dos pastores e sinaliza para os bolsonaristas-raíz que ele continuará realizando o que eles chamam de “guerra ideológica.”

É importante destacar que a pauta de costumes tem sua relevância. Contudo, Bolsonaro rebaixa a discussão da questão com palavras vulgares e conclusões pueris. Demonstra uma ira pré-fabricada e constrói um passado que nunca existiu. A negação do presente e das novas contradições do mundo contemporâneo é um meio de buscar a polarização para fidelizar seus fanáticos seguidores. A eleição, portanto, é um mero pretexto para envenenar a sociedade brasileira com novos e velhos preconceitos distribuídos a esmo e sem nenhuma base científica.

Ao invés de tratar de milhões de crianças que passam fome, não têm acesso à escola, vivem em condições miseráveis e sem perspectivas de um futuro melhor, Bolsonaro vai, por exemplo, direcionar seu discurso para a proibição do aborto e a tentativa da “esquerda” de editar uma Bíblia gay – que deverá ser um dos motes da campanha desse ano substituindo o “kit gay” de 2018. Tudo sempre com muita mentira e temperado com teorias conspirativas e tendo no “gabinete do ódio” o instrumento para espalhar rapidamente as fakes news.

O objetivo central do nazifascista bolsonarista é de produzir o caos no processo eleitoral. Os extremistas não conseguem conviver com a pluralidade de ideias, com o debate democrático, com a divergência. Seu mundo é o do confronto, do ódio, da ignorância, do ressentimento, da vulgaridade. Teremos a eleição mais importante desde a redemocratização. O desafio aos democratas é de não cair na armadilha bolsonarista, que fará de tudo para transformar o processo eleitoral em uma guerra do Brasil consigo mesmo.

Revista IstoÉ

A disputa inédita entre o ex e o atual

 




Ao que tudo indica, o foco da campanha de 2022 será nos corações

Por João Gabriel de Lima* (foto)

Encontrei Antônio Lavareda em Lisboa no último 25 de abril, dia da Revolução dos Cravos. Na data nacional portuguesa, que comemora a vitória da democracia sobre uma ditadura, era natural que falássemos de eleições. Lavareda, um dos principais analistas políticos brasileiros, chamou a atenção para uma peculiaridade do pleito de outubro. Se o cenário mais provável se concretizar – com os votos convergindo para Lula e Bolsonaro, sem uma terceira via –, veremos a disputa entre um presidente em exercício e um ex. 

Trata-se de um caso inédito no Brasil e raro em democracias. Lavareda lembra que isso esteve perto de acontecer, recentemente, na Argentina e na França. Na Argentina, Cristina Kirchner preferiu ser vice de Alberto Fernández, exercendo seu poder nos bastidores, ainda que com incursões barulhentas à ribalta. Na França, Nicolas Sarkozy chegou a ensaiar uma candidatura pelos Republicanos, mas desistiu por enfrentar problemas na Justiça. 

O fenômeno tem suas implicações. “As campanhas elaborarão programas detalhados, mas eles terão um papel diminutíssimo na campanha, já que os eleitores conhecem bem os candidatos”, diz Antônio Lavareda. “Tudo isso explica a razão de as pesquisas espontâneas mostrarem uma convicção de voto tão precoce.” Lavareda é o entrevistado do minipodcast da semana – atravessado, com o perdão do leitor, pelos ruídos dos bondes de Lisboa. 

Lavareda analisa pesquisas desde 1985, quando colaborou com a campanha de Jarbas Vasconcelos à prefeitura do Recife. Ele é o autor do livro Emoções Ocultas e Estratégias Eleitorais, que mostra como as escolhas dos eleitores são muitas vezes guiadas pelos sentimentos – algo que, pelo que se viu até agora, poderá prevalecer no próximo pleito. 

Outro dado que as pesquisas mostram é a mudança da localização dos eleitores dentro do espectro político. O Brasil emergiu da ditadura militar com um viés à esquerda, até como reação aos anos de arbítrio. Hoje, a maior parte dos brasileiros a escolher um lado se define como de direita. 

Num país de partidos com pouca densidade ideológica, tal escolha também tem um forte componente emocional. Por isso, na avaliação de Lavareda, a presença de Geraldo Alckmin é tão importante para Lula. “Torna-se inverossímil que Lula atire um coquetel molotov se Alckmin estiver sempre ao lado dele com um extintor de incêndio”, diz Lavareda, de forma jocosa – até porque Lula, em seus oito anos de governo, nunca atirou coquetéis molotov. 

Uma eleição é uma disputa por corações e mentes. Ao que tudo indica, o foco da campanha de 2022 será nos corações.

*Escritor, professor da Faap e doutorando em ciência política na Universidade de Lisboa

O Estado de São Paulo

Fim de sanções contra Rússia é parte de negociações de paz com Ucrânia

 





Lavrov: "países discutem esboço de possível tratado de cessar-guerra"

Por Lidia Kelly 

Melbourne - O fim das sanções impostas à Rússia faz parte das negociações de paz entre Moscou e a Ucrânia, que são "difíceis", mas continuam diariamente, disse o ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, em comentários publicados no início deste sábado (30).

Kiev advertiu na sexta-feira que as conversações sobre o fim da invasão russa, agora em seu terceiro mês, estavam em perigo de colapso.

"No momento, as delegações russa e ucraniana estão realmente discutindo diariamente, via videoconferência, um esboço de um possível tratado", disse Lavrov em comentários à agência oficial de notícias Xinhua da China, publicados no site do Ministério das Relações Exteriores russo.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskiy, tem insistido desde o início da invasão, em 24 de fevereiro, que as sanções ocidentais à Rússia precisavam ser reforçadas e não podiam fazer parte das negociações.

A Ucrânia e a Rússia não mantêm conversações de paz cara-a-cara desde 29 de março, e a atmosfera tem se deteriorado por causa das alegações ucranianas de que as tropas russas cometeram atrocidades ao se retirarem de áreas próximas a Kiev. Moscou negou as alegações

Moscou chama suas ações na Ucrânia de uma "operação especial" para desmilitarizar e "desnazificar" seu vizinho. A Ucrânia e o Ocidente dizem que a Rússia lançou uma guerra de agressão não provocada.

"A agenda das conversações também inclui, entre outros, as questões de desnazificação, o reconhecimento de novas realidades geopolíticas, o levantamento de sanções, o status da língua russa", disse Lavrov, sem elaborar.

"Somos a favor da continuação das negociações, embora elas sejam difíceis", disse Lavrov.

Reuters / Agência Brasil

Prepare seu coração

 




Por Carlos Brickmann (foto)

E há muita coisa que eu vou contar. Comecemos com os aluguéis: a alta oficial, em maio, é de 14,66%. Pode negociar com o dono, mas ele só aceita se quiser. A política econômica de Bolsocaro e do Imposto Ipiranga levou a inflação a níveis que nem Dilma tinha conseguido alcançar. Talvez por isso o presidente Bolsocaro esteja falando em não realizar eleições: como dizia o ex-ministro Delfim Netto, o bolso é o órgão mais sensível do ser humano.

O governador da Bahia, Rui Costa, do PT, explicou que não é muito bom de inglês. Por isso, disse, comprou de uma microempresa especializada em produtos derivados de maconha 300 respiradores – não sabia que Hempcare, o nome da empresa, quer dizer Tratamento com Maconha. Não sabia também que, como não há respiradores à base de maconha, a empresa não os tinha. E não entregou nenhum dos 300 respiradores que vendeu e pelos quais Costa pagou adiantado R$ 48 milhões. A propósito, além de não dominar bem o idioma inglês, também não sabia que o pagamento já tinha sido feito – talvez o contrato mencionasse algo como “payment in advance”. Agora está sendo investigado pela Polícia Federal por não saber inglês! Que injustiça! Como saberia que Pay Day era o dia do pagamento e bem antes do dia da entrega? Deve até ter morrido de rir quando alguém leu o texto para ele.

O petista Rui Costa deve ser tão injustiçado quanto o bolsonarista Daniel Pereira. Perseguidos porque não tiveram oportunidade de aprender nada.

Chove lá fora

A nota acima fala de petistas e bolsonaristas. Agora citemos alguém que funde as duas qualidades: o ex-ministro Tarcisio de Freiras, diretor do DNIT, Departamento Nacional da Infraestrutura de Transportes, com Dilma, e logo depois ministro da Infraestrutura, com Bolsonaro. Bolsonaro inaugurou, no início de abril, uma obra de R$ 690 milhões no km. 526 da BR-116, pertinho de Pelotas, Rio Grande do Sul. A obra monumental foi tocada por Tarciso até 30 de março, quando deixou o cargo para se candidatar a governador de São Paulo.

Só que choveu. E a obra desabou 21 dias depois de inaugurada.

Como dizia Juca Chaves, “cai, cai, cai, cai, outra construção civil”. Mas quem podia imaginar que algum dia iria chover por lá? Um detalhe especial: segundo o DNIT, o tráfego não precisou ser interrompido. Ora: se o tráfego andava sem a obra monumental, por que gastaram nela R$ 690 milhões?

Segredo é pra quatro paredes

Como diria Silvio Santos, quem procura acha. Certamente haverá um bom motivo para o presidente Bolsonaro querer adiar as eleições. Mas qual seria o problema? Trump perdeu as eleições, o presidente que ficou em seu lugar, Joe Biden, não gosta dele – e daí? Daí que Trump continua vivendo em sua bela casa de Mar-a-Lago, na Florida, liderando os republicanos para tomar o controle do Congresso, preparando sua própria candidatura presidencial.

Mas Bolsonaro não pensa em Trump: pensa na presidente interina da Bolívia, Jeanine Añez, presa e enfrentando julgamento por terrorismo, conspiração e traição. “Sabe do que foi acusada?”, perguntou aos pastores que festejavam o indulto ao deputado Daniel Pereira. “Atos antidemocráticos. Entenderam? É o que vivemos no Brasil atualmente”. Por isso Bolsonaro teme ser vencido.

Mentira também é verdade

A dupla caipira Milionário e José Rico sabia das coisas: há coisas que pegam mal, sejam verdadeiras ou mentirosas. O presidente da República, antes de cair sentado no chão, já havia escorregado nas palavras, quando quis falar mal de algum ministro do STF. “Se militar mente, acabou a carreira dele (...) E temos um chefe do Executivo que mente”.

Político e jornalista são chatos. Pois não é que criticam Bolsonaro por finalmente ter dito a verdade?

Muito corpo que cai

Na Rússia estão morrendo alguns dos homens mais ricos do país. Não se pode dizer que foram assassinados, mas as coincidências são grandes. E, levando-se em conta o passado, quando adversários de Putin cultivaram o hábito de aparecer mortos ou gravemente atingidos por veneno, a coisa fica ainda mais estranha (Bóris Berezovski, ex-aliado de Putin, enforcado; Aleksandr Litvinenko, ex-membro do serviço secreto russo, amigo de Berezovski, envenenado; Alex Navalny, opositor de Putin, sobrevive após longo tratamento para curá-lo de envenenamento).

Neste ano, seis magnatas já morreram. O primeiro foi Aleksander Tyulyakov, da Gazprom, maior empresa russa, maior exportadora de gás natural do mundo, achado morto na garagem de sua casa. Mikhail Watford, empresário de petróleo e gás, morreu em casa. Vasily Melnikov suicidou-se na Rússia, e antes matou a facadas a esposa e dois filhos. Ex-diretor do Gazprombank, Vladislav Avayev se suicidou após matar esposa e filha. Sergei Protosenya, ex-Novatech, de gás natural, esfaqueou esposa e filha e se matou. Leonid Schuman, diretor da Gazprom, deixou até carta de suicídio.

Brickmann.com.br

Culpas no cartório

 





A alta ansiedade que assola a República tem razões que os poderes não deveriam ignorar

Por Dora Kramer (foto)

O Brasil tem um presidente atrevido, todo mundo vê; disso nem seus adoradores discordam. O que não se mostra evidente à primeira vista é a seletividade da ousadia. Quando sente o frio do perigo na nuca, Jair Bolsonaro recua para simular trégua. Se avalia o risco como de baixo custo com possibilidade de alto ganho, se atreve e avança para o confronto.

Fez agora ao se escudar na Constituição para derrubar uma decisão de dez dos onze ministros do Supremo Tribunal Federal pela condenação do deputado Daniel Silveira a oito anos e nove meses de prisão por incitação à violência contra o STF e alguns de seus integrantes.

E por que agiu assim, inclusive recusando de maneira debochada uma sugestão do ex-presidente Michel Temer, a quem havia ouvido para recuar lá no dia 7 de setembro de 2021? A Bolsonaro só interessa o jogo do próprio destino. A República que se vire. Naquela ocasião, o presidente soube que o Supremo estava disposto a endossar um pedido de impeachment, tornando difícil de o presidente da Câmara ignorá-lo.

O endosso do STF daria ao requerimento um peso diferente em relação àqueles outros mais de 100 aos quais Arthur Lira reservara, e ainda reserva, completa indiferença. Passados sete meses e faltando menos de meio ano para as eleições, a conjuntura é outra. Além de não comportar condições objetivas para processo de impedimento, a maior parte do Congresso está dominada pela entrega do manejo do Orçamento da União aos parlamentares do Centrão, hoje ampliado e majoritário.

Bolsonaro deixou isso muito claro quando explicou a seus interlocutores nas internas no Palácio que um dos fatores para a concessão do perdão a Silveira foi a certeza de que o Legislativo não teria “força para reagir”. Força teria se houvesse vontade, mas na ausência desta prevalece a fragilidade conveniente evidenciada pela via da omissão. Há vários exemplos, mas, como o caso em tela é o de Daniel Silveira, lembremos: há nove meses dorme no Conselho de Ética um pedido de abertura de processo por quebra de decoro parlamentar.

Sem a sombra da mais ínfima dúvida, o presidente da República é o principal responsável pelo ambiente de confrontação institucional que se caracteriza pelo desequilíbrio entre os três poderes, seja por ações ou omissões lastreadas no excesso. Mas a alta ansiedade que assola o país tem razões que, além do Executivo, o Legislativo e o Judiciário não poderiam desconhecer pela própria razão de suas atribuições.

Há disputa onde a Constituição manda que impere a equivalência das potências de cada um sob o rito da harmonia. A necessidade de respostas firmes de um lado (o do Judiciário) e a conveniência da cautela de outro (o do Legislativo) não justificam o embarque na onda do presidente sem o devido senso tático sobre os efeitos dessa ou daquela atitude. O critério serve para avanços e recuos.

O Supremo Tribunal clama por respeito e reclama de ser desrespeitado. Tem razão, mas nem sempre contribui para se dar ao respeito. Diferentemente do Legislativo e do Executivo, é (ou seria) inerente à atividade do Judiciário ser o menos falante fora dos limites dos autos, até pelo seu poder de dar a última palavra.

A despeito dos méritos do embate que trava sozinho na defesa do estado de direito, o STF tem se deixado atrair por aquilo que o ministro Luís Roberto Barroso chamou recentemente de “fogueira das paixões políticas” para apontar um desvio institucional que muitas vezes a Corte tem cometido, dando combustível ao confronto. Com isso expõe o caráter autoritário do governo, mas chega aonde?

A nenhum lugar. Ou, por outra, senta praça no centro do terreno do conflito, quando seu papel é o de promover o entendimento conforme o imperativo da lei. O desmonte da Operação Lava-Jato, a revisão de condenações anteriormente confirmadas por três instâncias, ministros absolutamente parciais anulando decisões por alegada ausência de imparcialidade, nada disso ajuda o STF a atrair a confiança da sociedade. Pior, alimenta a desconfiança.

Reagir, sim, é preciso, mas é imprescindível ter frieza e consciência sobre o papel de cada um. Sob pena de cair numa dinâmica de extrapolações mútuas, cujo produto é a instituição de um cenário de incivilidade geral com resultados nefastos ao bom andamento dos trabalhos democráticos.

Revista Veja

Rússia atacou 389 alvos ucranianos durante a noite

 




Mísseis atingiram quatro instalações militares ucranianas

Lisboa - As forças armadas da Rússia atacaram 389 alvos ucranianos na noite de ontem (29), incluindo 15 depósitos de armas e munições, disse hoje o porta-voz do Ministério da Defesa russo, Igor Konashenkov.

"Durante a noite, unidades de artilharia destruíram 389 objetivos inimigos. Entre eles, 35 postos de comando, 41 bastiões, 169 áreas de concentração de soldados e equipes militares, 33 posições de artilharia, assim como 15 armazéns de foguetes e armas de artilharia e munições", disse Konashenkov seu relatório matutino.

Nesta sexta-feira, a aviação operacional tática e militar das forças aeroespaciais russas atingiu nove áreas de concentração de militares, matando mais de 20 "nacionalistas", quatro tanques e seis veículos blindados, acrescentou o porta-voz.

Mísseis atingiram quatro instalações militares ucranianas, dos quais dois postos de comando das Forças Armadas da Ucrânia, uma bateria de lançamento de foguetes e uma estação de radar.

Mísseis de alta precisão alcançaram quatro armazéns de munições e combustível.

A Rússia lançou em 24 de fevereiro uma ofensiva militar na Ucrânia que já matou cerca de 3 mil civis, segundo a ONU, que alerta para a probabilidade de o número real ser muito maior.

A ofensiva militar causou a fuga de mais de 12 milhões de pessoas, das quais mais de 5,4 milhões para fora do país, de acordo com os mais recentes dados da ONU.

A invasão russa foi condenada pela maioria da comunidade internacional, que respondeu com o envio de armamento para a Ucrânia e o reforço de sanções econômicas e políticas a Moscou.

RTP - Rádio e Televisão de Portugal

Agência Brasil

Kiev acusa russos de roubo de milhares de toneladas de grãos

 




Ministério da Agricultura ucraniano receia que maior parte do estoque de 1,5 milhão de tonelada de grãos em áreas ocupadas pelos russos tenha sido levada. Próxima colheita também está ameaçada.

Militares russos roubaram "centenas de milhares de toneladas" de grãos nas áreas que ocupam na Ucrânia, afirmou neste sábado (30/04) o vice-ministro da Agricultura ucraniano, Taras Vysotskiy.

Em um pronunciamento na TV estatal ucraniana, ele expressou preocupação de que a maioria do estoque de grãos armazenados em território ocupado, que segundo ele soma 1,5 milhão de tonelada, poderia ter sido roubada pelos invasores.

O Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia já havia acusado a Rússia, na quinta-feira, de roubar grãos no território ocupado. O ministro da Agricultura, Mykola Solskyi, disse que o roubo de grãos havia se intensificado nas últimas duas semanas. "Ouço isso de muitos proprietários de silos no território ocupado. É um roubo escancarado. E está acontecendo em todos os lugares do território ocupado", afirmou.

Ele também disse que tal situação poderia criar problemas de insegurança alimentar em áreas que atualmente não são controladas pelos russos. "Haverá em breve a colheita de trigo no sul. Mas os agricultores nessa situação podem dizer: 'Aqui estão as chaves do trator, vá colhê-lo você mesmo, se você quiser'", disse Solskyi.

O Kremlin negou as alegações da Ucrânia e disse que não sabia de onde vinham essas informações.

Queda na produção

O ministério da Agricultura ucraniano informou na sexta-feira que seis das 24 regiões administrativas da Ucrânia haviam completado a semeadura de grãos do início da primavera, apesar da invasão russa.

Não há planos de semear grãos na região de Lugansk, no leste, devido aos intensos combates que ocorrem na área.

A pasta não fez nenhuma previsão de colheita de grãos para 2022, mas analistas projetam uma colheita de 41,4 milhões de toneladas neste ano, menos da metade da colheita de 2021, que foi de 86 milhões de toneladas.

A empresa de consultoria APK-Inform afirmou que as exportações ucranianas de grãos em 2022/23 poderiam totalizar 33,2 milhões de toneladas, contra 45,5 milhões esperados para a temporada 2021/22, que termina em junho.

A Ucrânia é o quinto maior exportador de trigo do mundo, e a Rússia é o primeiro. A guerra entre os dois países provocou alta nos preços do grão, com reflexo na insegurança alimentar mundial.

Deutsche Welle

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