Publicado em 18 de dezembro de 2022 por Tribuna da Internet

Ilustração de Caio Gomez (C. Braziliense)
Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
É natural que todas as atenções estejam voltadas para a montagem do governo Lula e suas relações com o Congresso, mas é um equívoco tratar o presidente Jair Bolsonaro como cachorro morto, ainda que ande chorando em solenidades militares, em silêncio depressivo e com uma erisipela, um processo infeccioso da pele, que pode atingir a gordura do tecido celular, causado por uma bactéria que se propaga pelos vasos linfáticos, comum nos diabéticos, obesos e nos portadores de varizes.
Na sua primeira fala política após as eleições, na sexta-feira, Bolsonaro passou recibo da depressão, ao falar com apoiadores na saída do Palácio da Alvorada: “Estou há praticamente 40 dias calado. Dói, dói na alma. Sempre fui uma pessoa feliz no meio de vocês, mesmo arriscando a minha vida no meio do povo”, disse, numa alusão à facada que levou em Juiz de Fora (MG) em 2018.
SEM REAGIR – Sua postura é de derrotado, Bolsonaro já não reage como aquele lutador de boxe nocauteado que se levanta querendo lutar. Mas é um erro avaliar que não tem condições de se manter como o líder de direita com ampla base popular. A pesquisa do Ipec divulgada na quinta-feira mostra isso.
No início de outubro, 35% consideravam a gestão Bolsonaro ótima ou boa. Agora, são 39%. Regular: 22%, 19%, 23%, 24% e 23% em duas rodadas. Também em outubro, 42% avaliaram a administração Bolsonaro como ruim ou péssima. Agora, caiu para, 36%. Na primeira pesquisa, 40% aprovaram sua maneira de governar. Agora, são, 46%.
A pesquisa não teve muita repercussão porque os principais atores políticos de centro e a elite econômica do país não querem mais marola em relação à posse de Lula.
GOLPISMO EM BAIXA – As manifestações golpistas contra o resultado da eleição, que pedem intervenção militar, estão sendo esvaziadas e viraram um problema para os novos comandantes militares, que terão que pôr esse gênio de novo na garrafa.
De certa forma, a agitação dentro e fora dos quartéis foi uma variável “dialética”, digamos assim, para que Lula escolhesse como novo ministro da Defesa o político moderado José Múcio Monteiro, um legítimo representante da velha oligarquia pernambucana.
Além disso, critério de escolha por antiguidade fez do general de Engenharia Júlio César Arruda — próximo a Bolsonaro, mas legalista —, o futuro comandante do Exército. Foi decisão acertada, pois distensiona as relações com os militares e abre caminho para a reconstrução de pontes entre as Forças Armadas e o presidente eleito.
ISOLAR O EXTREMISMO – As pesquisas mostram que isolar a extrema-direita e seu líder carismático, o “mito” Jair Bolsonaro, não será nada fácil. Passa também por uma disputa moral na sociedade, na qual a bandeira da democracia está nas mãos de Lula, mas a da ética na política continua com a extrema-direita. O que pode desequilibrar esse jogo é um bom governo.
Lula precisa alterar a correlação de forças no mundo dos interesses; os da cultura e do trabalho estão firmes com o PT, desde o primeiro turno.
A montagem de um governo com uma área meio empoderada, com Rui Costa na Casa Civil e Flávio Dino na Justiça, ex-governadores da Bahia e Maranhão, respectivamente, mostra que Lula pretende cuidar mais da política, auxiliado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, do que da gestão administrativa.