Na economia vivemos em dois Brasis, o da ilusão de Brasília e o real, do restante do país
Por Paulo Paiva (foto)
Na economia vivemos em dois Brasis, o da ilusão de Brasília e o real, do restante do país.
No Brasil da ilusão, segue para a Câmara PEC, aprovada no Senado, que, sob a justificativa de garantir a continuidade do pagamento do Auxílio Brasil (ou Bolsa Família 4.0) de R$ 600 e adicional de R$ 150 por criança de até 6 anos, autoriza novos gastos até R$ 168 bilhões, sem previsão de receita. Qualquer que seja o resultado final de sua aprovação, o impacto futuro será aumento da dívida pública.
Não muito longe do Congresso, no Centro Cultural Banco do Brasil, a farra é maior. Os grupos de transição se organizam para exigir mais recursos para suas ambições. Imaginem vocês elaborar um orçamento agregando propostas de todas as áreas, sem nenhuma restrição orçamentária. Independentemente da relevância de cada uma delas, a soma ultrapassará muito a capacidade da arrecadação anual do país. Em Brasília, vive-se a euforia de festa de fim de ano. Imaginem se o Brasil fosse hexa!
No Brasil real, não há ilusão. O IBGE nos informa que a economia está se desacelerando. Tomando-se, por exemplo, a variação anualizada em quatro trimestres, comparados aos quatro trimestres imediatamente anteriores, vê-se que durante este ano, depois de atingir 5,2%, no primeiro trimestre, o crescimento caiu para 3,2%, no trimestre seguinte, e para 3%, no 3º trimestre. O relatório Focus estima crescimento de 3% neste ano. Ainda é uma expansão anual maior do que ocorria antes da pandemia (1,0%).
E há muito tempo a taxa de desemprego não esteve tão baixa, 8,5% no trimestre encerrado em outubro. Talvez, próxima do pleno emprego nas condições complexas do mercado de trabalho brasileiro. Esse cenário de mercado de trabalho aquecido, que o Banco Central denomina “estreito hiato do produto”, fecha as portas para estímulos ao crescimento do PIB. Ao contrário, é um alerta de risco maior para o aumento da inflação.
Na quarta-feira desta semana, os dois Brasis se encontraram. Enquanto no país da ilusão, sob palmas dos senadores, enterrava-se a responsabilidade fiscal, no país da racionalidade, o Banco Central mantinha a taxa Selic nos 13,75% ao ano e alertava sobre os riscos de alta futura da inflação, chamando a atenção, além da persistência das pressões inflacionárias globais, para a elevada incerteza sobre o futuro do arcabouço fiscal e para os estímulos fiscais adicionais que impliquem sustentação da demanda agregada, parcialmente incorporados nas expectativas de inflação e nos preços de ativos. Em bom português, irresponsabilidade fiscal gera inflação.
Por fim, vale lembrar que o horizonte estabelecido pelo Banco Central para reduzir a inflação do nível atual (6,5%) para o centro da meta (3%) é de dois anos. Nesse período, Lula terá em suas mãos somente a política fiscal. Se os Brasis não se conciliarem, qual devorará o outro?
O Tempo
