domingo, julho 31, 2022

Riscos da letargia - Editorial




Memória da tragédia da Covid faz temer a inação do governo diante da varíola dos macacos

O mundo está às voltas com uma nova ameaça, a varíola dos macacos. Nada que se compare com a Covid-19, decerto, porém o retrospecto desastroso do Brasil no enfrentamento do coronavírus suscita certa preocupação.

A doença, similar àquela erradicada na década de 1970 com vacinação em massa, não chamava tanta atenção enquanto foi endêmica na África. O vírus conhecido pelo nome em inglês da moléstia, monkeypox, ganhou manchetes ao se espalhar em países ricos, ainda que de maneira lenta e limitada.

Foram registrados até agora cerca de 17 mil casos globalmente. O país mais afetado, Espanha, ultrapassa 3.000 infecções, seguido pelos EUA e por outras três nações europeias, Alemanha, Reino Unido e França.

O Brasil figura em sexto lugar, com mais de 1.000 diagnósticos, 70% deles no estado de São Paulo. Entre o primeiro caso confirmado e essa cifra transcorreram apenas seis semanas, permitindo supor que a transmissão já seja comunitária e provavelmente haja subnotificação. A primeira morte foi anunciada nesta sexta (29).

Rosamund Lewis, responsável da Organização Mundial da Saúde, qualificou a situação brasileira como preocupante. No último dia 23, a OMS afirmou que a varíola dos macacos constitui uma "emergência pública de preocupação global", embora sem o potencial do coronavírus para desencadear uma pandemia.

Não há, por ora, motivo para alarme. A enfermidade difere muito da Covid, que ainda grassa e poderia influenciar a percepção social.

A transmissão se dá de modo preponderante por via sexual. A maioria dos casos até aqui ocorreu entre homens que fazem sexo com homens. Eles são em geral mais atentos a lesões de pele por sua experiência com o HIV e mais propensos a buscar cuidados médicos, o que facilita o rastreamento.

A letalidade alcança no máximo 6% dos infectados, contra 30% da extinta varíola. Há duas vacinas razoavelmente eficazes e dois antirretrovirais para tratamento.

Por outro lado, as lesões podem ser sutis e confundir o diagnóstico, dificultando o isolamento de portadores. As vacinas são poucas e disputadas, e os medicamentos não estão disponíveis no Brasil. Nada garante que a transmissão siga confinada ao grupo mais atingido até aqui. Já se registraram dezenas de crianças afetadas.

Na sombra da incúria do governo de Jair Bolsonaro diante da Covid, preocupa a reação algo letárgica de Brasília. Sem coordenação empenhada e eficaz do Ministério da Saúde, a ampliação da capacidade de testagem e o acesso a vacinas e antirretrovirais poderão não chegar de forma tempestiva. Já vimos esse filme, e ele termina mal.

Folha de São Paulo

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