Publicado em 19 de junho de 2021 por Tribuna da Internet
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Covas abertas em cemitério de Sorocaba, em São Paulo
Fábio Zanini
Folha
Classificar a tragédia brasileira da Covid-19 como genocídio enfrenta resistência da maior parte dos especialistas em direito internacional, mas não há dúvida de que a escala seja compatível com eventos do tipo. O patamar de 500 mil mortos na pandemia, que acaba de ser alcançado neste sábado (19), é maior que o de pelo menos oito genocídios ocorridos desde o início do século 20, algo que choca mesmo quem está acostumado a estudar eventos com alta mortalidade.
“A cifra de 500 mil mortos chama a atenção pela enormidade. É realmente terrível, apesar de não ser genocídio como estudamos na sala de aula”, diz Roland Kostic, professor de Estudos de Holocausto e Genocídio da Universidade de Uppsala (Suécia).
ESTIMATIVAS – A comparação permanece válida ainda que se leve em conta as estimativas mais altas de vítimas para cada caso.
“Contabilizar o impacto de genocídios nem sempre é simples, porque há as vítimas diretas e as indiretas, que morreram por fome, doenças, deslocamentos forçados ou até suicídios”, afirma Kostic.
O genocídio cometido por forças sérvias na Bósnia, por exemplo, na década de 1990, resultou em estimados 30 mil a 40 mil mortos, ou menos de 10% da perda atual com a Covid-19. No episódio mais traumático do conflito, o massacre de Srebrenica, em 1995 (que muitos consideram um “genocídio dentro do genocídio”), foram mortos cerca de 8.000 muçulmanos, ou 1,6% das vítimas do coronavírus no Brasil até aqui.
SADDAM E OS CURDOS – –Outra matança que marcou o século 20, o genocídio cometido contra curdos no norte do Iraque pelo então ditador Saddam Hussein, deixou até 150 mil mortos no final dos anos 1980, muitos com o uso de armas químicas.
A Covid-19 no Brasil também já deixou mais mortos do que os dois principais genocídios do século 21. Os massacres de populações de etnias negras em Darfur, no oeste do Sudão, por milícias árabes a serviço do governo, deixaram entre 100 mil e 400 mil desde 2003, dependendo da estimativa. Já a perseguição ao grupo étnico dos rohingya, uma minoria muçulmana que vive no oeste de Mianmar, resultou em até 30 mil mortos desde seu início, em 2016.
Para que pandemia brasileira ultrapasse a mortalidade de outros genocídios, será necessário que o ritmo de mortes se mantenha em alta ainda por muitos meses, o que parece improvável à medida em que a vacinação avança.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Acho aceitável dizer que Bolsonaro é genocida, diante da irresponsabilidade que demonstra no enfrentamento da pandemia. No entanto, é um total exagero fazer comparações com o que aconteceu com outros povos, que foram massacrados manu militari, em genocídios reais. Lembremos que, no início da pandemia, ninguém sabia tratar. Os médicos usaram a velha técnica da tentativa e erro, até começarem os acertos. Muita gente se curou com antibiótico e julgou que tinha sido a cloroquina. (C.N.)