BRASÍLIA - A rede de interesses que levou um grupo de 12 senadores do PMDB a se manter agarrado à sobrevivência política do presidente do Senado e correligionário, Renan Calheiros (AL), teve os seus nós desatados com a incapacidade do alagoano em atender aos mais secretos desejos de seus aliados.
Entre todos os companheiros de ocasião política, o senador Almeida Lima (PMDB-SE) figura como símbolo maior dessa fidelidade aparentemente estóica. O parlamentar tinha a promessa de Renan de que seria o comandante político do PMDB em Sergipe. Como não foi atendido, Lima se afastou da tropa de choque do peemedebista alagoano.
Em Sergipe, ele mantinha uma disputa dura com os caciques locais em torno do mando do partido. Por mais que tenha realmente se esforçado, o apoio de Renan não foi de grande valia - Almeida Lima conseguiu o Diretório Municipal, mas terá que se submeter ainda a um sistema de prévias para dominar a máquina partidária.
"Ele não conseguiu o que pleiteava porque Renan não teve força política", resumiu um senador. Na terça-feira, dia em que Lima, com a coragem de sempre, poderia ter defendido Renan da acusação de espionar dois colegas da oposição, o parlamentar sergipano não compareceu ao Plenário e foi a ausência mais sentida da tropa de choque do presidente da Casa.
"Estou de licença, cuidando dos meus interesses partidários em Sergipe", avisou ele, que vai relatar, porém, a quarta representação contra Renan. Em sua retirada de cena, Lima não está sozinho. Suplente do ministro das Comunicações, Hélio Costa, o senador Wellington Salgado (PMDB-MG), que nunca dependeu diretamente de votos para chegar ao Congresso, sinalizou que deverá se licenciar.
A exposição à radiação da crise Renan já estava intoxicando a vida privada do empresário Salgado, que chegou a relatar (por um dia apenas) o primeiro processo contra o presidente do Senado. Além disso, com o peemedebista alagoano combalido, o projeto de se tornar figura de proa do Legislativo acabou naufragando.
Muito antes da cena de ontem, quando Renan anunciou a licença de 45 dias, Gilvam Borges (PMDB-AP) já profetizava que a sobrevivência do presidente do Senado passava pela licença do cargo.
Após a votação que o livrou da primeira acusação, a de usar um lobista de uma empreiteira para pagar a pensão de sua filha de 3 anos com a jornalista Mônica Velloso, Renan avaliou que, com o apoio obtido, estava forte o suficiente para enterrar as outras três representações que existiam à época contra ele no Conselho de Ética.
O cenário ontem era pior, pois o número de processos no colegiado aumentou: já são quatro em andamento. "Eu sobrevivi", desabafou à época da absolvição a um interlocutor. Em suas contas, ao seu lado - além de Lima, Salgado e Borges - estariam outros oito senadores, os desejos deles, além das circunstâncias políticas.
Esses oito parlamentares, todos peemedebistas, em que o presidente do Senado se apoiava eram José Sarney (AP), Romero Jucá (RR), Leomar Quintanilha (TO), José Maranhão (PB), Roseana Sarney (MA), Waldir Raupp (RO), Paulo Duque (RJ) e Valter Pereira (MS). A realidade mostrou que esse apoio era mesmo muito circunstancial.
Fonte: Tribuna da Imprensa
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