| Por: Reinaldo Azevedo (Primeira Leitura) Ocupamo-nos todos, na mídia, de tantas irrelevâncias — nem Primeira Leitura está fora desse pecado —, que, quando uma coisa verdadeiramente grandiosa acontece, já não nos damos conta. Pior: se, por grandiosa, passa por corriqueira, então é sinal de que aquele mundo que daria a sua real dimensão pode já não existir. E essa é uma hipótese um pouco desanimadora. No domingo, o papa Bento 16, um “filho da Alemanha”, como disse de si mesmo, rezou no antigo campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, e verdadeiramente apostrofou Deus, indagando-o, sem resposta, em meio à humana perplexidade, como pôde, naquele lugar, se perpetrar tamanho horror, diante do silêncio do Criador. E o líder máximo da Igreja Católica, a mais tolerante e generosa das grandes religiões do mundo — dado que não exclui ninguém; antes procura incluir —, revelou que também ele ignorava as respostas. Foi um grande momento de um líder religioso, de quem julgamos esperar respostas para tudo, e não indagações que nos jogam numa espécie de vazio. Bento 16 fez o que a dignidade humana lhe impunha e exerceu a humildade do pastor. Não tendo como responder a uma aflição que ceifou milhões de vidas, 1,5 milhão só ali em Auschwitz, cobrou do Criador uma resposta. Que sabia não vir. É preciso ter coragem para fazê-lo. Naquele momento, ele se igualava a alguns dos símbolos maiores do catolicismo, que ousavam propor ao Divino questões geradas por nossa precária humanidade. Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, para citar dois gigantes, o fizeram antes. Entre nós, em magnífico português, padre Antônio Vieira, como afirmou Drummond num poema, “dizia poucas e boas” a Deus, embora a sua matéria acabasse sendo mais literária do que teológica. Não bastava a Bento 16, desta feita, dizer que Deus houvera escolhido um caminho insondável e difícil. Jó não pode se multiplicar em 6 milhões de vidas, numa tragédia sem precedentes. E o pastor disse sem reservas: “Em um lugar como este, faltam palavras. No fim, pode haver apenas um silêncio no qual um coração clama por Deus. Por que, Deus, o senhor permaneceu em silêncio? Como pôde tolerar tudo isso? Onde estava Deus naqueles dias? Por que ficou ele em silêncio? Como pôde ele permitir esse massacre sem fim, esse triunfo do mal?" Ninguém tem resposta para tanto. Uma coisa, no entanto, é certa: antes que, diante do silêncio de Deus e dos homens, se consumasse o horror, houve aqueles que tergiversaram; houve aqueles que condescenderam com a violência; houve aqueles que julgaram poder fazer um pacto transitório com o mal. A figura de Bento 16, como pastor, se agiganta com essas palavras. Confesso que andava um pouco chateado — e até decepcionado — com seu pontificado até aqui. As medidas de reforma da Igreja Católica parecem-me frouxas, lentas, em compasso de espera. É como se estivesse sendo, e acho que está em muitos casos, leniente com o laicismo que toma conta da religião. Basta verificar como se comportam alguns bispos no Brasil. Muitos não apenas silenciam diante da violência de alguns grupos, como a coonestam ou mesmo a promovem. E tudo diante do silêncio cúmplice não de Deus, mas da hierarquia católica nativa. Torço para que as coisas acabem entrando nos eixos nessa área. De todo modo, deixo aqui registrado o grande momento de Bento 16. Ele tem autoridade moral, espiritual e religiosa para indagar Deus. Um bom sinal e uma luz até para o Brasil, onde mal se consegue fazer uma apóstrofe nem diria atrevida, mas profissional, a um simples Apedeuta. Mas não quero manchar este texto com bobagens e minoridades. Bento 16 foi de uma ousadia que estes dias já não conseguem reconhecer. E sua pergunta permanece e permanecerá sem resposta. [reinaldo@primeiraleitura.com.br] |
sexta-feira, junho 02, 2006
Bento 16 e a apóstrofe atrevida
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