segunda-feira, novembro 10, 2025

Após condenação, Flávio Bolsonaro reage com narrativa de perseguição ao STF


Flávio Bolsonaro classificou a ocasião como uma “farsa”.

Bruna Rocha
Estadão

Após a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitar por unanimidade, na última sexta-feira, 7, o recurso da defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) classificou a ocasião como uma “farsa”.

“Uma farsa em que já se sabe o resultado final antes mesmo de o processo começar, não pelo que está nos autos, mas em função de quem está julgando”, disse o filho do ex-presidente à CNN Brasil. A decisão mantém a condenação de 27 anos e 3 meses do ex-presidente.

“BOM SENSO” – Flávio afirmou ainda que o resultado não o surpreende e que aguarda “bom senso” em relação à prisão do pai, lembrando que no país não há prisão específica para ex-presidentes. “Já que ele foi condenado sem ter feito absolutamente nada de errado, o mínimo que se espera é bom senso e que ele fique em casa”, declarou.

O senador acusou o ministro Alexandre de Moraes de agir por uma “vingança pessoal e insana” contra o pai e alegou que, se fosse o ex-presidente Michel Temer (MDB) responsável pelo atual posto de Moraes, o tratamento da Suprema Corte seria diferente.

“Trata-se de uma vingança pessoal e insana, sem nenhuma justificativa. Se fosse com o ex-presidente Temer, ele jamais faria o que está fazendo com Bolsonaro. É público e notório que Bolsonaro precisa de cuidados médicos permanentes e, às vezes, imediatos. Como todos sabem disso, inclusive o ditador, só posso concluir que ele quer que Bolsonaro morra”, afirmou Flávio.

INOCÊNCIA – Flávio acrescentou que “não vão calar Bolsonaro nunca. Condenar o maior líder da direita na mão grande, num processo ilegal em que as provas atestam a sua inocência, é o sepultamento da democracia”.

A Primeira Turma do STF começou e concluiu hoje, no plenário virtual, a análise dos primeiros recursos do ex-presidente e de outros seis réus do núcleo crucial do plano de golpe: Walter Braga Netto (ex-ministro da Defesa e da Casa Civil), Anderson Torres (ex-ministro da Justiça), Almir Garnier (ex-comandante da Marinha), Augusto Heleno (ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional), Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa) e Alexandre Ramagem (deputado federal e ex-diretor da Abin).

Apenas o tenente-coronel Mauro Cid, que firmou acordo de colaboração premiada, abriu mão de recorrer. O Estadão procurou o STF para saber se a Corte ou o ministro desejam se manifestar, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

PT tenta reconquistar terreno em Minas enquanto a direita racha seu próprio palanque

 


Pacheco e Kalil são as apostas do PT para candidatura ao governo

Bernardo Mello
O Globo

Restando um ano para a corrida eleitoral de 2026, o PT reconhece ter perdido espaço e o bolsonarismo mostra dificuldades para se unificar em Minas Gerais, estado considerado um “termômetro” da eleição presidencial. Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tentam resgatar a popularidade do governo entre os mineiros, que hoje é inferior à média nacional, algo incomum para o PT nas outras ocasiões em que buscava a reeleição.

Já o grupo mais alinhado ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), embora tenha hoje palanques considerados mais competitivos, vive rusgas entre as principais lideranças que podem afetar o desempenho eleitoral.

APOSTAS – As duas principais apostas do PT para uma candidatura ao governo, na avaliação de lideranças, são o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) e o ex-prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PDT). Ambos, porém, têm hesitado em participar de uma aliança com Lula no estado, por diferentes motivos.

Kalil, que disputou o governo estadual em 2022, avalia que dividir palanque com Lula na ocasião não surtiu o resultado esperado. Em vez de nacionalizar a disputa de 2026, ele sinaliza que prefere discutir o saldo de oito anos de mandato de Romeu Zema (Novo).

Pacheco, além de mostrar preferência por uma indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF), teria que mudar de partido para concorrer ao governo, já que o PSD se aliou a Zema. Uma das opções do senador era o MDB, que lançou a pré-candidatura do ex-vereador Gabriel Azevedo. Apesar de Azevedo ser considerado próximo a Pacheco, aliados de ambos avaliam reservadamente que o movimento é mais um sinal de que o senador não será candidato.

DISPOSIÇÃO – Azevedo tampouco mostra disposição para receber Lula em seu palanque. Ele defende uma candidatura afastada da polarização nacional, que define como “estupidez”. “Não é bom brigar, mas também não adianta ser puxa-saco de presidente. Quando era Dilma e o PT tinha o (Fernando) Pimentel de governador, só nos ferramos. Com Zema e Bolsonaro, a mesma coisa”, afirmou.

Já a candidatura de Kalil desperta resistências no PT mineiro, que não enviou seus dirigentes a um jantar de apoio ao ex-prefeito, anteontem. A aliança é costurada pelo presidente nacional do PT, Edinho Silva, e pela ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, que ainda apostam no ex-prefeito como alternativa de palanque a Lula. Além da costura política, aliados do presidente defendem que o governo federal lance “o máximo de programas possíveis” no estado.

“Foi importante Lula ter vindo a Belo Horizonte para lançar o Gás do Povo, que vai atender mais de 35 milhões de famílias. Precisamos acelerar essas entregas, porque a popularidade do presidente crescer no nosso estado significa também crescer no país”, disse o vereador Pedro Rousseff (PT), sobrinho de Dilma.

VOTAÇÕES EXPRESSIVAS – Entre a primeira eleição de Lula, em 2002, e a onda bolsonarista de 2018, o PT acumulou um histórico de votações expressivas em Minas, sempre ligeiramente acima do resultado nacional. Além de emplacar a maior bancada na Câmara em todos esses anos, o partido também derrotou o PSDB na eleição ao governo em 2014.Naquele ano, Dilma disputou a reeleição mais bem avaliada em Minas do que na média nacional, mesmo enfrentando um rival “da casa”, o ex-governador Aécio Neves. Em 2006, Lula também desfrutava de melhor avaliação lá do que no Rio e em São Paulo.

Desde 2018, porém, o cenário político no estado passou a pender mais à direita. Neste ano, segundo a Quaest, Lula chegou a 46% de avaliação negativa em Minas, acima dos 39% de reprovação nacionalmente. Nesse contexto, a prefeita de Contagem, Marília Campos (PT), cotada para concorrer ao Senado, diz que a prioridade tem que ser compor um palanque não encabeçado pela esquerda:

“Esta não é uma eleição para o PT disputar o governo. O cenário requer um perfil mais de centro, especialmente para governar depois. Minas é um estado que não está saneado financeiramente, o que exigirá o enfrentamento de temas como a dívida com a União, e o perfil do PT teria mais dificuldade para isso”, afirmou.

DIREITA DIVIDIDA –  Já a direita, apesar de estar hoje mais robusta no estado, tem problemas para unificar seu palanque, o que pode atrapalhar a competitividade de candidatos. O atual vice-governador Mateus Simões, indicado por Zema como sucessor, se filiou ao PSD. Simões também busca ampliar sua aliança, mas ainda esbarra em resistências de PL e Republicanos a uma composição. “Continuo entendendo que a unificação é o melhor cenário para garantirmos a continuidade desse trabalho”, declarou o vice-governador após sua filiação ao PSD.

O PL avalia lançar ao governo uma candidatura do deputado federal Nikolas Ferreira. Já o Republicanos alimenta planos de uma chapa ao governo encabeçada pelo senador Cleitinho Azevedo. Bastante atuantes nas redes sociais, ambos são considerados as lideranças mais populares da direita hoje no estado.

Reservadamente, integrantes do PL avaliam que uma composição com Simões dependerá do desenho nacional: o vice-governador apoia Zema à Presidência, o que não é a preferência de Bolsonaro. Interlocutores de Cleitinho, por sua vez, vêm mostrando incômodo com movimentos de Simões para minar a candidatura do senador.

ATRITOS – Cleitinho também teve atritos recentes com o PL, após ter se posicionado a favor do fim da escala 6×1 e contra a PEC da Blindagem, na contramão dos posicionamentos de lideranças bolsonaristas, como Nikolas. O senador ainda foi criticado pelo bolsonarismo por não garantir apoio ao candidato à Presidência escolhido por Bolsonaro.

Os movimentos esfriaram a chance de uma composição entre ele e o PL, que tampouco tem a garantia de que Nikolas disputará o governo. Interlocutores do deputado, que tem 29 anos, avaliam que ele prefere “se preservar” de um movimento precipitado ao Executivo estadual e se concentrar em uma futura candidatura ao Senado — ele ainda não tem a idade mínima de 35 anos para disputar o cargo.

Uma das alternativas já aventadas no PL é filiar novamente o senador Carlos Viana (Podemos-MG), que disputou a eleição de 2022 pelo partido, e lançá-lo ao governo. O plano, porém, depende da atuação de Viana como presidente da CPI do INSS, vista pelo bolsonarismo como plataforma para fustigar o governo Lula.


Projeto que equipara facções ao terrorismo é freado por risco à soberania


Hugo Motta ‘escanteia’ projeto e cita soberania

Luiz Felipe Barbiéri
Paloma Rodrigues
G1

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), após escolher o deputado Guilherme Derrite (PP-SP) para relatar o projeto antifacção do governo federal, fez outro movimento paralelo na prática. Ele “escanteou” a proposta que pretendia equiparar facções criminosas a organizações terroristas.

Havia expectativa de que Derrite — que também é secretário de Segurança Pública de São Paulo — relatasse a proposta sobre terrorismo, mas a ideia não avançou. Motta afirmou que é preciso ter “um cuidado grande de não colocar a soberania nacional em risco com a aprovação de leis”.

INTERVENÇÕES – O governo federal argumenta que equiparar as facções a organizações terroristas poderia abrir espaço para intervenções estrangeiras, principalmente dos Estados Unidos. Além da questão da soberania, especialistas alertam que a proposta poderia afetar o turismo, o comércio internacional e o mercado de seguros.

O texto é de autoria do deputado Danilo Forte (União-CE) e aguarda votação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara. A proposta foi pautada nesta semana pelo presidente do colegiado, Paulo Azi (União-BA), mas não chegou a ser votada.

Azi afirmou que a comissão precisa avaliar a constitucionalidade da matéria, já que governistas e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, questionam a adequação da proposta à Constituição.

REDAÇÃO VAGA – A Rede Justiça Criminal, coalizão formada por nove organizações da sociedade civil, afirmou em nota que a aprovação do projeto “levaria o Brasil de um país sem problemas relevantes de terrorismo para uma nação com mais de 80 organizações terroristas em operação”. Segundo a entidade, a redação do texto é vaga e contém expressões como “grupos criminosos” e “tendentes à prática de crimes”, o que viola o princípio da taxatividade e abre margem para interpretações abusivas.

A coalizão também apontou riscos de: mudança de competência, com diminuição do papel da Justiça e da Polícia Federal e ampliação do protagonismo de polícias estaduais; equiparação indevida entre organizações movidas por lucro e grupos motivados por ideologias ou discriminação; ameaça à soberania nacional, com a possibilidade de ingerência internacional sob o pretexto de combate ao terrorismo.

“O texto enseja riscos à soberania nacional, ao Estado democrático de direito e à saúde do sistema de justiça criminal, abrindo precedentes perigosos e minando garantias individuais e processuais”, afirmou a Rede Justiça Criminal.

IMPACTOS –  Especialistas apontam que a proposta poderia afetar o turismo e o comércio exterior ao criar a percepção de que o Brasil abriga grupos terroristas. O sociólogo Rafael Oliveira afirmou que a classificação teria reflexos diretos sobre a imagem do país. “Pesquisas mostram que, após os ataques em Paris, a ocupação dos hotéis caiu 30%. Um país associado ao terrorismo afasta turistas e investidores”, disse.

Ele também destacou efeitos nas relações comerciais, com potenciais barreiras impostas por outros países. “Um país pensaria duas vezes antes de liberar uma carga para um porto dominado por organizações tidas como terroristas”, afirmou.

No setor de seguros, a medida poderia elevar preços e gerar incertezas sobre coberturas de sinistros. “Essa mistura vai fazer com que tenham que ser revistos os termos dos seguros, aumentando o preço e criando dúvidas sobre o que seria considerado terrorismo”, avaliou Oliveira.

Por que tanta gente apoia uma chacina como a do Rio de Janeiro?

 

Por AGÊNCIA PÚBLICA

Publicado em 10/11/2025 às 08:20

Alterado em 10/11/2025 às 08:20


Por Andrea DiP, Ricardo Terto, Stela Diogo, Rafaela de Oliveira - Logo após a Operação Contenção, que deixou 121 mortos no Rio de Janeiro, pesquisas de opinião mostraram um dado alarmante: ainda que parte da população avalie como uma chacina executada pelo Estado, a maioria da população aprova a ação policial. Segundo a Genial/Quaest, 64% dos fluminenses consideraram a operação positiva; a Atlas/Intel registrou apoio ainda maior, com 87% de aprovação entre moradores de favelas cariocas.

Com objetivo de atacar pontos estratégicos da facção Comando Vermelho em bairros dos complexos do Alemão e da Penha, a operação realizada em 28 de outubro foi a mais letal da história do Brasil. As imagens de tiroteios e corpos enfileirados na Praça São Lucas chocaram parte do país, mas também foram celebradas por muitos como símbolo de eficiência no combate ao crime.

Para analisar esse cenário e as atuais políticas de combate às facções criminosas, o Pauta Pública desta semana recebe Daniel Hirata, sociólogo, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana. Para ele, a percepção de insegurança e o cotidiano de medo ajudam a explicar por que tantas pessoas passaram a ver operações letais como a única resposta possível à violência, mesmo entendendo que não soluciona o real problema.

“Uma das perguntas da Quest era sobre onde acha que estão os chefes, as lideranças dos grupos criminais do Brasil e 80% dizia que não era em favelas. Porque isso é evidente. A pessoa morando ou não morando na favela, sabe que quem tem as posições mais importantes de redes políticas e econômicas tão poderosas está em outros lugares, e que ali você está só atuando na ponta pobre e precária, racializada, dessa história toda.”

Leia os principais pontos e ouça o podcast completo abaixo.

No dia seguinte à operação, vimos imagens brutais de corpos expostos em praça pública. Familiares desesperados, depoimentos comoventes de moradores da Penha e do Alemão, mas essa dor parece não sensibilizar grande parte da sociedade, como mostram os números revelados nas pesquisas. Por que e como a gente chegou nesse ponto?

Em primeiro lugar, temos uma adesão por parte das pessoas mais abastadas. Normalmente brancas, que moram em lugares onde esse tipo de violência não ocorre e o que aparece na televisão é uma espécie de espetáculo para elas. Tanto no momento durante quanto no pós-operação daquele tamanho, com aquele nível de brutalidade. Essas pessoas fazem uma associação entre o que elas têm como percepção para a segurança pública, como, por exemplo, ter o celular roubado, e aquilo que elas estão vendo na televisão. É muito estranho, mas essa questão da percepção de segurança pública, isso, diversas pesquisas já mostraram que está diretamente relacionada à violência objetiva.

Tem lugares mais abastados, mais ricos e mais brancos que têm taxas de roubos, de furtos, de homicídios, que são muito mais baixas do que outros locais. Mas, a percepção de uma violência fora do controle é maior do que em áreas que têm crimes objetivamente observáveis.

Então, tem toda uma relação de exotização e, mais do que exotização, de quebra da alteridade dessas pessoas com relação a outros lugares que elas não conhecem, ignoram. Tem uma série de preconceitos que a gente sabe muito bem que estruturam a sociedade brasileira.

Por outro lado, tem uma coisa que é, do meu ponto de vista, até mais preocupante: a adesão de pessoas que moram em favelas e periferias urbanas. Parece que tem alguma coisa que se relaciona ao cotidiano dessas pessoas que tem a ver, muito concretamente, com o controle do território armado, com a violência dos grupos armados. Muitas vezes eu já conversei com mulheres, mães nesses locais, que vão reiteradamente falar da seguinte maneira: o meu filho não sai na rua. Ela está querendo dizer, por um lado, que ela está protegendo o filho da violência que está do lado de fora da casa. Por outro lado, que ela tem medo do filho também se aproximar muito desse mundo do crime.

Por uma razão ou outra, o que nós estamos falando aqui é que a casa se torna uma prisão, que as pessoas estão com medo, que as pessoas têm raiva, que as pessoas não gostam da maneira pela qual esses grupos atuam sobre a sua vida mais rotineira. Isso sem falar de outras coisas. Como o preço do botijão de gás, que é sobretaxado por esses grupos (facções e milícias), os serviços também que, muitas vezes, são prestados por esses grupos na internet etc. Tem uma série de coisas que eu acho que explica uma reação a esses grupos que é bastante violenta e não há muito outra alternativa que [não seja a que] está posta na mesa nesse momento.

Acaba que essas operações aparecem para essas pessoas como a única alternativa. Alguém está fazendo alguma coisa. E como a gente sabe que nesse estado de desespero fazer alguma coisa parece melhor do que não fazer, eu acho que é por aí que caminha um pouco as respostas dessas pessoas a essas pesquisas de opinião que foram feitas. De um lado, uma classe média assustada e extremamente preconceituosa, e, de outro lado, classes mais baixas, negras, que vivem um cotidiano que é de terror.

 

Como você está vendo a cobertura da imprensa sobre a chacina no Rio?

Acho que é uma das piores coberturas que eu já vi na pior chacina da história do Brasil. Nós temos, claro, setores, mesmo dentro da grande imprensa, dedicados. Existem pessoas que têm trabalhado de forma a dar visibilidade para o que aconteceu. Mas, na maneira geral, quando a gente olha os editoriais, que é quando os jornais se posicionam, ou então, quando a gente olha, mais ou menos, a média do que vai sendo dito, do tipo de matéria que vai sendo produzida, me parece que a cobertura está sendo muito ruim. Ruim no sentido de não falar sobre a atrocidade que aconteceu.

Depois alguém tem que fazer uma análise com mais objetividade, mas sinto que essas pesquisas que saíram também acabaram induzindo a imprensa a atuar de forma cada vez mais recuada. Por um lado, temos um sistema político que se posiciona a partir das pesquisas, mas também a imprensa, de maneira geral, está atenta ao que está acontecendo e ao que as pessoas estão pensando.

Esse adesionismo à barbárie vai contaminando todo mundo. A imprensa, o sistema político, as pessoas que falam sobre o assunto. Fica todo mundo um pouco refém de dizer bom, veja, as pessoas estão aceitando, estão achando que a operação foi legal, que é isso mesmo que tem que ser feito. Agora, acho que tem também um papel, de todos nós, de defender posições mínimas. Não são posições políticas partidárias. Eu não tenho compromisso político partidário, por exemplo, mas tenho compromisso com o fato de que algumas garantias de direitos são conquistas civilizacionais que não tem como abrir mão disso.

Tem uma série de coisas que a gente esgarçou nos últimos anos no Brasil, por conta desse avanço do autoritarismo. Nós já esgarçamos uma série de pontos que são fundamentais, do meu ponto de vista, e agora isso vai ganhando adesão e base social. Tem um momento que não adianta, que não vai estar tudo bem, que a gente vai se esborrachar e, na hora em que sentir isso, vai ser importante olhar para trás. Não para fazer revanchismo, mas para olhar para quem se manteve firme na defesa dessas garantias e quem estava rifando em prol da conjuntura mais imediata.

 

O que ainda é capaz de mobilizar as pessoas diante dessa banalização da violência, especialmente quando as vítimas continuam sendo, em sua maioria, pessoas negras e periféricas? Como a gente consegue transformar essa fúria diante dos massacres e dessa espetacularização da morte em pressão política de segurança que seja efetiva, que não mate, que impeça que os mais jovens entrem para o crime?

Uma das perguntas da Quest que eu achei que oferece uma pista interessante, é uma pergunta sobre onde você acha que estão os chefes, as lideranças dos grupos criminais do Brasil e 80% dizia que não era em favelas. Porque isso é evidente. A pessoa morando ou não na favela, todo mundo sabe que quem tem as posições mais importantes de redes políticas e econômicas tão poderosas está em outros lugares, e que ali você está só atuando na ponta pobre e precária, racializada, dessa história toda. É uma coisa que me chamou atenção no meio dessa maré tão obscura que estamos atravessando agora. Isso é uma questão importante do ponto de vista do enfrentamento dos grupos criminais do Brasil.

Ou seja, como é que a gente atua de forma a desmantelar essas redes criminais? Primeiro, o que é uma rede criminal? Até onde vão as redes criminais? O que estruturam as redes criminais? Quais são as conexões que organizam essas redes criminais? E como é que a gente desmantela essas redes criminais? Fazer isso é o feijão com arroz da atividade policial. Porque, veja bem, todo mundo sabe, não adianta você matar essa ponta pobre e precária porque tem uma reposição muito rápida, Então, o que é que mantém esses grupos estruturados? O que faz essas redes criminosas terem tamanha resiliência ao longo do tempo?

Faz tempo que estamos insistindo, mas tem posições intermediárias, de intermediação com o sistema político, sistema político partidário especificamente, e com os grandes negócios formais e informais que têm que ser atacados. Esses são os locais de sustentação, são as bases políticas e econômicas desses grupos. Em resumo, é possível, sim, a gente atuar de forma efetiva no enfrentamento à criminalidade, e fazer com que a população entenda, concorde e apoie o que está sendo feito. Acho que isso é absolutamente possível. Agora, precisa botar a mão na massa e começar a trabalhar.

Segurança pública, tem muito uma lógica de apagar incêndio e situações conjunturais específicas que todo mundo discute e passa. Já não pensa mais no assunto. Tem uma outra situação específica, outro incêndio, aí se discute e saem essas soluções mágicas. Vamos falar o português claro, assim as coisas não caminham. Então, eu acho que atacar as redes criminais e pensar essas redes criminosas de uma maneira mais próxima de como elas funcionam de fato, seria alguma coisa bastante efetiva e que teria, sim, apoio na opinião pública, em geral. Tentando ser otimista.

https://www.jb.com.br/brasil/opiniao/artigos/2025/11/1057558-por-que-tanta-gente-apoia-uma-chacina-como-a-do-rio-de-janeiro.html

Somos uma região de paz e queremos continuar assim', diz Lula na IV Cúpula da Celac-UE

 Presidente discursou na Sessão Plenária de Chefes de Estado e de Governo e defendeu maior integração regional, cooperação em segurança e a democracia contra o extremismo político

Por POLÍTICA JB
redacao@jb.com.br

Publicado em 10/11/2025 às 06:06

Alterado em 10/11/2025 às 08:06


Encontro reuniu líderes europeus, latino-americanos e caribenhos para discutir uma ampla agenda global Foto: Ricardo Stuckert / PR

https://www.jb.com.br/brasil/politica/2025/11/1057557-somos-uma-regiao-de-paz-e-queremos-continuar-assim-diz-lula-na-iv-cupula-da-celac-ue.html

Exoneração de aliado de Ciro Nogueira antes de operação gera suspeita de vazamento

 

Exoneração de aliado de Ciro Nogueira antes de operação gera suspeita de vazamento

A Carbono Oculto 86 é um desdobramento de operação de Ministério Público de São Paulo e Polícia Federal que mira a relação entre a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), postos de gasolina e fintechs

Por Redação

10/11/2025 às 07:38

Foto: Divulgação/Câmara Municipal de Teresina/Arquivo

Imagem de Exoneração de aliado de Ciro Nogueira antes de operação gera suspeita de vazamento

Victor Linhares de Paiva

A exoneração de Victor Linhares de Paiva do cargo de secretário municipal de Articulação Institucional de Teresina na segunda-feira (3), dois dias antes da deflagração da operação Carbono Oculto 86, levantou suspeita por parte da Polícia Civil do Piauí de vazamento de informação privilegiada para um dos principais aliados do senador Ciro Nogueira (PI), presidente do PP.

A Polícia Civil, ligada ao governo Rafael Fonteles (PT), abriu inquérito para apurar o caso. A assessoria de comunicação do prefeito Silvio Mendes (União Brasil), apadrinhado de Ciro, afirma que a mudança foi técnica e política e já estava programada havia meses. O deputado federal Julio Arcoverde (PP) assumiu a pasta na vaga de Linhares.

A Carbono Oculto 86 é um desdobramento de operação de Ministério Público de São Paulo e Polícia Federal que mira a relação entre a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), postos de gasolina e fintechs.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Piauí, o grupo utilizava uma complexa estrutura de empresas de fachada, fundos de investimento e fintechs para lavar dinheiro e fraudar o setor. A estimativa é de que o esquema tenha movimentado R$ 5 bilhões.

Linhares foi alvo de busca e apreensão, mas não foi encontrado em sua residência e não foi ouvido pela Polícia Civil até o momento. A reportagem também não conseguiu entrar em contato com ele para um posicionamento.

A suspeita de vazamento de informação também está relacionada ao fato de que dois outros alvos, os empresários Haran Santhiago Girão Sampaio e Danillo Coelho de Sousa, viajaram para São Paulo e Brasília, respectivamente, na véspera da operação.

Além disso, caixas de relógio vazias foram encontradas nas casas dos alvos, o que levantou a suspeita de que tenham sido levados às pressas e escondidos.

Como mostrou reportagem do ICL Notícias, Linhares teria recebido R$ 230 mil de Haran Sampaio, antigo dono da rede de postos HD, que seria o epicentro do esquema criminoso no Piauí, e por isso a Polícia Civil pretende ouvi-lo.

A transferência aconteceu por uma conta aberta por Linhares no BK Bank, fintech que se tornou um dos principais alvos da Carbono Oculto em São Paulo.

Linhares trabalhou no gabinete de Ciro Nogueira entre 2018 e 2019 e na liderança do PP no Senado em 2020. O senador também é padrinho de uma das filhas do ex-secretário.

Procurado pelo Painel para comentar sua relação com Linhares e a investigação da Polícia Civil a respeito do vazamento da operação, o senador não se manifestou.

Reportagem de julho da revista piauí mostrou que Linhares recebeu R$ 625 mil de Fernando Oliveira Lima, o Fernandin OIG, empresário do setor de apostas online e amigo de Ciro Nogueira, entre dezembro de 2023 e setembro de 2024. No mesmo período, Linhares transferiu R$ 35 mil para a conta pessoal do senador.

Nogueira disse à revista que o valor era o reembolso de uma reserva de hotel em Capri, na Itália, e que os R$ 625 mil foram o pagamento por um relógio de luxo, negociado diretamente entre o empresário e o seu ex-assessor.

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