segunda-feira, novembro 10, 2025

Por que tanta gente apoia uma chacina como a do Rio de Janeiro?

 

Por AGÊNCIA PÚBLICA

Publicado em 10/11/2025 às 08:20

Alterado em 10/11/2025 às 08:20


Por Andrea DiP, Ricardo Terto, Stela Diogo, Rafaela de Oliveira - Logo após a Operação Contenção, que deixou 121 mortos no Rio de Janeiro, pesquisas de opinião mostraram um dado alarmante: ainda que parte da população avalie como uma chacina executada pelo Estado, a maioria da população aprova a ação policial. Segundo a Genial/Quaest, 64% dos fluminenses consideraram a operação positiva; a Atlas/Intel registrou apoio ainda maior, com 87% de aprovação entre moradores de favelas cariocas.

Com objetivo de atacar pontos estratégicos da facção Comando Vermelho em bairros dos complexos do Alemão e da Penha, a operação realizada em 28 de outubro foi a mais letal da história do Brasil. As imagens de tiroteios e corpos enfileirados na Praça São Lucas chocaram parte do país, mas também foram celebradas por muitos como símbolo de eficiência no combate ao crime.

Para analisar esse cenário e as atuais políticas de combate às facções criminosas, o Pauta Pública desta semana recebe Daniel Hirata, sociólogo, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana. Para ele, a percepção de insegurança e o cotidiano de medo ajudam a explicar por que tantas pessoas passaram a ver operações letais como a única resposta possível à violência, mesmo entendendo que não soluciona o real problema.

“Uma das perguntas da Quest era sobre onde acha que estão os chefes, as lideranças dos grupos criminais do Brasil e 80% dizia que não era em favelas. Porque isso é evidente. A pessoa morando ou não morando na favela, sabe que quem tem as posições mais importantes de redes políticas e econômicas tão poderosas está em outros lugares, e que ali você está só atuando na ponta pobre e precária, racializada, dessa história toda.”

Leia os principais pontos e ouça o podcast completo abaixo.

No dia seguinte à operação, vimos imagens brutais de corpos expostos em praça pública. Familiares desesperados, depoimentos comoventes de moradores da Penha e do Alemão, mas essa dor parece não sensibilizar grande parte da sociedade, como mostram os números revelados nas pesquisas. Por que e como a gente chegou nesse ponto?

Em primeiro lugar, temos uma adesão por parte das pessoas mais abastadas. Normalmente brancas, que moram em lugares onde esse tipo de violência não ocorre e o que aparece na televisão é uma espécie de espetáculo para elas. Tanto no momento durante quanto no pós-operação daquele tamanho, com aquele nível de brutalidade. Essas pessoas fazem uma associação entre o que elas têm como percepção para a segurança pública, como, por exemplo, ter o celular roubado, e aquilo que elas estão vendo na televisão. É muito estranho, mas essa questão da percepção de segurança pública, isso, diversas pesquisas já mostraram que está diretamente relacionada à violência objetiva.

Tem lugares mais abastados, mais ricos e mais brancos que têm taxas de roubos, de furtos, de homicídios, que são muito mais baixas do que outros locais. Mas, a percepção de uma violência fora do controle é maior do que em áreas que têm crimes objetivamente observáveis.

Então, tem toda uma relação de exotização e, mais do que exotização, de quebra da alteridade dessas pessoas com relação a outros lugares que elas não conhecem, ignoram. Tem uma série de preconceitos que a gente sabe muito bem que estruturam a sociedade brasileira.

Por outro lado, tem uma coisa que é, do meu ponto de vista, até mais preocupante: a adesão de pessoas que moram em favelas e periferias urbanas. Parece que tem alguma coisa que se relaciona ao cotidiano dessas pessoas que tem a ver, muito concretamente, com o controle do território armado, com a violência dos grupos armados. Muitas vezes eu já conversei com mulheres, mães nesses locais, que vão reiteradamente falar da seguinte maneira: o meu filho não sai na rua. Ela está querendo dizer, por um lado, que ela está protegendo o filho da violência que está do lado de fora da casa. Por outro lado, que ela tem medo do filho também se aproximar muito desse mundo do crime.

Por uma razão ou outra, o que nós estamos falando aqui é que a casa se torna uma prisão, que as pessoas estão com medo, que as pessoas têm raiva, que as pessoas não gostam da maneira pela qual esses grupos atuam sobre a sua vida mais rotineira. Isso sem falar de outras coisas. Como o preço do botijão de gás, que é sobretaxado por esses grupos (facções e milícias), os serviços também que, muitas vezes, são prestados por esses grupos na internet etc. Tem uma série de coisas que eu acho que explica uma reação a esses grupos que é bastante violenta e não há muito outra alternativa que [não seja a que] está posta na mesa nesse momento.

Acaba que essas operações aparecem para essas pessoas como a única alternativa. Alguém está fazendo alguma coisa. E como a gente sabe que nesse estado de desespero fazer alguma coisa parece melhor do que não fazer, eu acho que é por aí que caminha um pouco as respostas dessas pessoas a essas pesquisas de opinião que foram feitas. De um lado, uma classe média assustada e extremamente preconceituosa, e, de outro lado, classes mais baixas, negras, que vivem um cotidiano que é de terror.

 

Como você está vendo a cobertura da imprensa sobre a chacina no Rio?

Acho que é uma das piores coberturas que eu já vi na pior chacina da história do Brasil. Nós temos, claro, setores, mesmo dentro da grande imprensa, dedicados. Existem pessoas que têm trabalhado de forma a dar visibilidade para o que aconteceu. Mas, na maneira geral, quando a gente olha os editoriais, que é quando os jornais se posicionam, ou então, quando a gente olha, mais ou menos, a média do que vai sendo dito, do tipo de matéria que vai sendo produzida, me parece que a cobertura está sendo muito ruim. Ruim no sentido de não falar sobre a atrocidade que aconteceu.

Depois alguém tem que fazer uma análise com mais objetividade, mas sinto que essas pesquisas que saíram também acabaram induzindo a imprensa a atuar de forma cada vez mais recuada. Por um lado, temos um sistema político que se posiciona a partir das pesquisas, mas também a imprensa, de maneira geral, está atenta ao que está acontecendo e ao que as pessoas estão pensando.

Esse adesionismo à barbárie vai contaminando todo mundo. A imprensa, o sistema político, as pessoas que falam sobre o assunto. Fica todo mundo um pouco refém de dizer bom, veja, as pessoas estão aceitando, estão achando que a operação foi legal, que é isso mesmo que tem que ser feito. Agora, acho que tem também um papel, de todos nós, de defender posições mínimas. Não são posições políticas partidárias. Eu não tenho compromisso político partidário, por exemplo, mas tenho compromisso com o fato de que algumas garantias de direitos são conquistas civilizacionais que não tem como abrir mão disso.

Tem uma série de coisas que a gente esgarçou nos últimos anos no Brasil, por conta desse avanço do autoritarismo. Nós já esgarçamos uma série de pontos que são fundamentais, do meu ponto de vista, e agora isso vai ganhando adesão e base social. Tem um momento que não adianta, que não vai estar tudo bem, que a gente vai se esborrachar e, na hora em que sentir isso, vai ser importante olhar para trás. Não para fazer revanchismo, mas para olhar para quem se manteve firme na defesa dessas garantias e quem estava rifando em prol da conjuntura mais imediata.

 

O que ainda é capaz de mobilizar as pessoas diante dessa banalização da violência, especialmente quando as vítimas continuam sendo, em sua maioria, pessoas negras e periféricas? Como a gente consegue transformar essa fúria diante dos massacres e dessa espetacularização da morte em pressão política de segurança que seja efetiva, que não mate, que impeça que os mais jovens entrem para o crime?

Uma das perguntas da Quest que eu achei que oferece uma pista interessante, é uma pergunta sobre onde você acha que estão os chefes, as lideranças dos grupos criminais do Brasil e 80% dizia que não era em favelas. Porque isso é evidente. A pessoa morando ou não na favela, todo mundo sabe que quem tem as posições mais importantes de redes políticas e econômicas tão poderosas está em outros lugares, e que ali você está só atuando na ponta pobre e precária, racializada, dessa história toda. É uma coisa que me chamou atenção no meio dessa maré tão obscura que estamos atravessando agora. Isso é uma questão importante do ponto de vista do enfrentamento dos grupos criminais do Brasil.

Ou seja, como é que a gente atua de forma a desmantelar essas redes criminais? Primeiro, o que é uma rede criminal? Até onde vão as redes criminais? O que estruturam as redes criminais? Quais são as conexões que organizam essas redes criminais? E como é que a gente desmantela essas redes criminais? Fazer isso é o feijão com arroz da atividade policial. Porque, veja bem, todo mundo sabe, não adianta você matar essa ponta pobre e precária porque tem uma reposição muito rápida, Então, o que é que mantém esses grupos estruturados? O que faz essas redes criminosas terem tamanha resiliência ao longo do tempo?

Faz tempo que estamos insistindo, mas tem posições intermediárias, de intermediação com o sistema político, sistema político partidário especificamente, e com os grandes negócios formais e informais que têm que ser atacados. Esses são os locais de sustentação, são as bases políticas e econômicas desses grupos. Em resumo, é possível, sim, a gente atuar de forma efetiva no enfrentamento à criminalidade, e fazer com que a população entenda, concorde e apoie o que está sendo feito. Acho que isso é absolutamente possível. Agora, precisa botar a mão na massa e começar a trabalhar.

Segurança pública, tem muito uma lógica de apagar incêndio e situações conjunturais específicas que todo mundo discute e passa. Já não pensa mais no assunto. Tem uma outra situação específica, outro incêndio, aí se discute e saem essas soluções mágicas. Vamos falar o português claro, assim as coisas não caminham. Então, eu acho que atacar as redes criminais e pensar essas redes criminosas de uma maneira mais próxima de como elas funcionam de fato, seria alguma coisa bastante efetiva e que teria, sim, apoio na opinião pública, em geral. Tentando ser otimista.

https://www.jb.com.br/brasil/opiniao/artigos/2025/11/1057558-por-que-tanta-gente-apoia-uma-chacina-como-a-do-rio-de-janeiro.html

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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