segunda-feira, agosto 04, 2025

Lula aposta na queda de braços com Trump em 2026

 

Congresso do PT conjuga resistência democrática, nacionalismo e candidatura à reeleição enquanto a oposição liberal-conservadora vive o paradoxo de apoiar um líder desgastado pelo tarifaço de 50%

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Presidente Lula durante participação ontem (3/8) do 17º Encontro Nacional do PT, em Brasília - (crédito: Ed Alves /CB/DA.Press)

O discurso de Luiz Inácio Lula da Silva no 17º Encontro Nacional do PT incorporou a queda de braços com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à sua estratégica eleitoral para 2026. Em meio à crise diplomática com os Estados Unidos, agravada pelo tarifaço de 50% imposto pela Casa Branca, com apoio de Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados, o petista elevou o tom na retórica nacionalista e partiu para a disputa simbólica dos valores nacionais.

Ao atacar Bolsonaro por "abraçar a bandeira americana para pedir sanções contra o próprio país", Lula recupera o patriotismo no campo progressista. A apropriação dos símbolos nacionais — bandeira, camisa da Seleção, cores da pátria — foi central na ascensão política de Bolsonaro. Lula agora tenta ressignificar esses valores associando-os à democracia e sus instituições, como o Supremo Tribunal Federal (STF)

A crítica duríssima à "excrescência política" de parlamentares que pedem ao governo Trump para taxar o Brasil é, além de contundente, eficaz do ponto de vista eleitoral. A bandada do PL atuava como vanguarda da direita no Congresso com muita desenvoltura, porém, agora caiu no isolamento, por causa da atuação do deputado licenciado Eduardo Bolsonaro, que atua nos Estados Unidos com objetivo de criar uma crise diplomática e comercial capaz de colapsar a economia brasileira.

A sociedade é reativa à subordinação externa e à instabilidade institucional. O apoio direto de Trump ao pedido de anistia para Bolsonaro fortalece a tese de Lula de que há interferência estrangeira contra o STF e contra a soberania nacional e que o povo precisa reagir a isso. No campo interno, a crise diplomática e comercial serviu para a legenda recuperar a sua narrativa do rechaço, cuja centralidade é questionável devido ao fato de a legenda está no governo.

Pesquisas

Entretanto, o PT precisa de renovação programática. O novo presidente da sigla, Edinho Silva, foi enfático sobre isso ao afirmar que a sucessão não será apenas de nomes, mas de projeto. Lula ainda lidera com folga as pesquisas eleitorais — 39% contra 33% de Bolsonaro —, mas tudo pode mudar se não concorrer à reeleição por razões de saúde. Os cenários sem sua presença mostram um PT enfraquecido e vulnerável diante de nomes, como os do governador de São paulo, Tarcísio Freitas (PR-SP), e da ex-primeira dama Michelle Bolsonaro. O PT entará na eleição enfraquecido na disputa de cadeiras para o Congresso, ao Senado.

A crise com Trump, até agora, atrapalha mais do que ajuda a oposição. Ao defenderem a anistia a Bolsonaro — rejeitada por 61% da população, segundo o Datafolha —, governadores como Tarcísio, Zema e Caiado enfrentam desgaste. A vinculação explícita de Bolsonaro com Trump e a consequente retaliação comercial aos interesses brasileiros expuseram a incoerência das forças que se colocaram contra o país.

Bolsonaro, por sua vez, mantém certa capacidade de mobilização, mas está encurralado. A proposta de anistia aos golpistas do 8 de janeiro de 2023 perdeu apoio interno, ironicamente, ao ser apoiada por Trump. O próprio Tarcísio, em aparente ambivalência, evita confronto direto e aposta em um discurso de responsabilidade fiscal e reforma administrativa para se projetar como "gestor viável" no pós-Bolsonaro.

No Congresso realizado ontem, Lula e o PT conjugaram resistência democrática, nacionalismo e projeto eleitoral, enquanto a oposição liberal-conservadora vive o paradoxo de apoiar um líder desgastado pelo tarifaço. Estão em jogo propostas antagônicas de país: democracia ou regressão autoritária, soberania ou submissão.

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Não se trata apenas de uma polarização política.

 


Não se trata apenas de uma polarização política. 

O bolsonarismo é a expressão mais nítida de como parte da sociedade brasileira adoeceu  mentalmente.  O que vemos é um surto coletivo que rompeu laços familiares, destruiu amizades e empobreceu o debate público.

Não estamos falando apenas de divergências políticas estamos falando de pessoas que perderam a conexão com a realidade, que rezam para pneus, pregam o ódio, acreditam em falsos messias , negam a ciência, defendem o genocidio em Gaza, acreditam que a Terra é plana e que idolatram a bandeira americana, são o reflexo de uma sociedade doente e fragilizada, manipulada e sustentada pela ignorância e fanatismo religioso. 

Esse delírio não é espontâneo. Ele é cuidadosamente cultivado por políticos da extrema direita, que  se aproveitam da fragilidade emocional de muitos para usá-los como massa de manobra, que não busca o bem do país, mas apenas a manutenção do poder e do controle.

Só um Brasil soberano e democrático será capaz de frear o avanço do abismo entre razão e delírio.

.Inteligência Brasil Imprensa

domingo, agosto 03, 2025

Não há saída brilhante para a crise criada por Trump, diz Francisco Rezek


FRANCISCO REZEK – Academia Líbano BrasilVicente Limongi Netto

A jornalista Ana Dubeux (Correio Braziliense- 03/08) brindou os leitores e assinantes com expressiva entrevista com o ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal (STF) e ex-ministro das Relações Exteriores, Francisco Rezek.

Voz firme, competente e respeitada na luta do bem contra a crescente e avassaladora intolerância dos poderosos mundiais de plantão. Para Rezek, “Donald Trump não entende por que seu devoto Jair Bolsonaro enfrenta aqui consequências que ele próprio não teve que enfrentar perante a justiça norte-americana”.

A seu ver, “não há como imaginar uma saída brilhante para o impasse em que Trump coloca o Brasil de caso pensado e com dolo intenso”.

Trump acha que pode dirigir o mundo, sem ter o suco de laranja do Brasil?

Krugman: Trump acha que governa o mundo, mas não tem o suco do Brasil |  Metrópoles

Krugman aponta as idiotices que Trump está fazendo

Aline Bronzati
(Broadcast)

O economista americano Paul Krugman, vencedor do prêmio Nobel de 2008, afirmou que a isenção ao suco de laranja do Brasil é um sinal de que os Estados Unidos precisam do País. Ele voltou a tecer críticas à nova política comercial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quando entraria em vigor a cobrança das taxas ao mundo. A tarifação acabou sendo adiada para a próxima semana.

Para Krugman, a taxação do chefe da Casa Branca ao Brasil é um “flagrante” ao querer influenciar sua política interna e ilustra a “ilegalidade” do tarifaço. “Trump pode achar que pode governar o mundo, mas ele não tem o suco de laranja ou de outro tipo”, afirma, em análise divulgada nesta sexta-feira.

LIÇÃO AO MUNDO – Trump está, sem querer, dando ao mundo uma lição sobre os limites do poder dos EUA, diz Krugman. O economista diz que as negociações de Trump com o Brasil são “excepcionais” e suas exigências são “diferentes” do que as feitas a qualquer outro país, cuja taxação de 50% é “consideravelmente mais alta”.

“Trump vinculou explicitamente as tarifas ao Brasil à ousadia da nação em julgar o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentar reverter uma eleição que ele perdeu”, destaca.

O Nobel acusa Trump de ser um “inimigo da democracia e da responsabilidade de aspirantes a autoritários”. “Mas nós sabíamos disso”, afirma.

TOTALMENTE ILEGAL – O economista americano também observa que é “totalmente ilegal” os EUA usarem tarifas para tentar influenciar a política interna de outro país. “Praticamente tudo o que Trump tem feito em termos de comércio é ilegal, mas no caso do Brasil é completamente flagrante”, reforça.

Conforme ele, as razões para a imposição de tarifas são limitadas, como, por exemplo, uma situação de emergência econômica, mas esse não é o caso dos EUA, que “estão indo muito bem”, nas palavras do chefe da Casa Branca.

“Portanto, o confronto com o Brasil ilustra de forma especialmente clara a ilegalidade da onda de tarifas de Trump”, afirma.

LIMITE AO PODER – Por outro lado, a taxação aos produtos brasileiros, na sua visão, também ilustra a “diferença entre a quantidade de poder que Trump aparentemente pensa que tem e a realidade”. Um sinal claro é a isenção ao suco de laranja fresco, 90% do qual é fornecido pelo Brasil.

“Aparentemente, precisamos do que o Brasil nos vende. E isso é uma admissão implícita de que, ao contrário das constantes afirmações de Trump, os consumidores dos EUA, e não os exportadores estrangeiros, pagam as tarifas”, avalia.

O Nobel cita ainda o café, que ficou fora da lista de cerca de 700 isenções dos EUA ao Brasil. “O que alguns de nós queremos saber é por que o suco de laranja, do qual as pessoas podem viver sem, está recebendo uma folga, enquanto o café, um nutriente absolutamente essencial, não está”, questiona.

EFEITOS CONTRÁRIOS – Já na política, Krugman observa que a taxação de Trump ao Brasil está tendo “efeitos contrários”, com a melhora da aprovação do governo petista no País.

“Em um eco do que aconteceu no Canadá, onde a pressão de Trump claramente salvou o governo Liberal de perdas eleitorais massivas, as ameaças contra o Brasil fizeram maravilhas pela popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva, o atual presidente”, diz.

E discorda do critério que aponta os EUA como o segundo parceiro comercial mais importante do Brasil. Quando considerados todos os países europeus somados, a China segue na liderança isolada, respondendo por 28% das exportações do Brasil, mas a União Europeia (UE) sobe para a segunda posição, com uma fatia de 13,2%, enquanto que os EUA cairiam para a terceira, com 12,1%, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – 
Disse Krugman: “Trump e seus assessores realmente acham que podem usar tarifas para intimidar uma nação de mais de 200 milhões de pessoas a abandonar seus esforços para defender a democracia, quando ela vende 88% de suas exportações para países que não são os Estados Unidos?”. Bem, vê-se por que Krugman foi Nobel de Economia aos 61 anos. (C.N.)


Fracasso brasileiro é o novo estilo administrativo adotado pelos EUA


Trump declines witness stand as testimony in his first trial concludes •  Oregon Capital Chronicle

Sem perceber, Trump repete os mesmos erros do Brasil

Vinicius Mota
Folha

A liberdade invocada pelos representantes dos vândalos que destruíram palácios em Washington e Brasília é praticada no Brasil há séculos. Trata-se da escassez de limites para infligir danos e sofrimento aos outros em nome da autenticidade e da sacralidade do interesse e do desejo próprio.

Se é possível extrair uma teoria desse emaranhado, ela opera sob o pressuposto de que os grupos humanos são diferentes nas suas capacidades materiais e intelectuais —por uma condição natural ou histórica ou porque apenas alguns teriam sido abençoados pela graça divina— e predica que não deve haver barreiras psicológicas, sociais nem legais para obstar o atropelo dos mais fracos pelos mais fortes.

ASPIRADOR DE RENDA – Seria como colocar Hobbes do avesso, tirar o Leviatã da sala e deixar o couro comer, mas nem tanto. O Estado tem essa característica de servir como porrete e aspirador de renda nas mãos de alguns e desse elemento não se abre mão. O poder político se torna um meio para proteger e enriquecer quem o conquista e para cooptar, perseguir e enfraquecer adversários. Eis o Brasil de anteontem, ontem e hoje.

Sobre o aspecto de deixar o couro comer, poucos fatores são mais típicos de uma sociedade civilizada do que a proteção da esfera íntima, a começar do corpo. Abster-se de ferir alguém cristaliza-se numa interdição tão enraizada como as regras que inibem o incesto em comunidades tribais.

Era dessa fronteira invisível e impenetrável que Sérgio Buarque de Holanda se ressentia ao identificar e criticar a “cordialidade” brasileira. Cordialidade também quer dizer violência.

TODOS MATAM – O cotidiano brasileiro é violento. A polícia mata, os civis matam e os motoristas matam. Comemora-se a tendência de queda generalizada dos crimes violentos no país, o que é um fato. Ainda assim foram assassinadas mais de 45 mil pessoas no Brasil em 2023 e outras quase 35 mil morreram no trânsito.

São mais de 80 mil em 12 meses, cerca de 40 mortes violentas para cada grupo de 100 mil habitantes e 1 milhão de óbitos de 2013 a 2023. Ucrânia, Síria e Gaza são aqui.

Sociedades civilizadas também instruem a totalidade das crianças e dos jovens como se educação fosse alimento vital. Outras coisas podem faltar, mas não aluno na sala aprendendo com a aula mais eficiente, o horário marcado, o professor preparado, durante vários milhares de horas desde a primeira infância.

ENSINO FALHO – Aqui isso funciona apenas para os filhos da elite e olhe lá. Nove milhões de jovens de 15 a 29 anos nem sequer completaram o ensino básico. O que deveria ser denunciado como crime contra o futuro da população mais vulnerável passa como elemento da paisagem.

A “liberdade” de extrair renda dos outros à custa do bem-estar da maioria também é longeva e disseminada. Não há saneamento, tecnologia do século 19, para todos por causa disso.

A conta de energia de mansões com placas solares é subsidiada pelos mais pobres, grupos profissionais têm privilégios na aposentadoria, na tributação e nos salários custeados pela camada mal remediada da população, mercadorias e serviços encarecem porque a lei atende a lobbies influentes. O descontrole dos orçamentos públicos compromete programas sociais e eleva os juros que remuneram o andar de cima.

PROFECIA DE RICUPERO – Vem do ex-ministro Rubens Ricupero uma profecia incômoda sobre a aspiração civilizatória no Brasil, onde décadas e gerações se sucedem sem nenhuma hecatombe bélica ou natural, mas também sem que o país alcance o bem-estar material e espiritual das nações ricas. É o que ele chamou de suave fracasso.

A novidade que agora vem do norte é a elite política que conquistou a Casa Branca pretender transformar os EUA num grande Brasil.

Famílias e oligarquias se apossam do poder de Estado para defender seus interesses e negócios particulares, proscrevem adversários, desmontam burocracias de mediação, sabotam o cânone acadêmico e educacional, fecham a economia e desestabilizam as relações internacionais motivadas pelo próprio fígado e pelo próprio bolso.

Datafolha: 61% dizem não votar em candidato que promete livrar Bolsonaro

 Foto: Reprodução/X/Arquivo

Governadores Zema, Ratinho Jr. Tarcísio e Caiado em ato de apoio à anistia do 8 de Janeiro promovido por Bolsonaro em SP, em abril03 de agosto de 2025 | 15:19

Datafolha: 61% dizem não votar em candidato que promete livrar Bolsonaro

brasil

A quase um ano do início da campanha presidencial, o tema do golpismo ressoa com força entre os eleitores. Segundo o Datafolha, 61% dos brasileiros não votariam em um candidato que prometesse livrar de qualquer pena ou punição Jair Bolsonaro (PL), seus aliados acusados de tramar contra a democracia e os condenados pelo 8 de Janeiro.

Na pesquisa realizada nos dias 29 e 30 de julho, que ouviu 2.004 pessoas e tem margem de erro de dois pontos para mais ou menos, o instituto aferiu que 19% dos ouvidos votariam com certeza em um nome com essa agenda, e 14% talvez o fizessem. Já 6% não souberam responder.

O tema é uma pedra no sapato da direita. Presidentes podem indultar presos, mas a jurisprudência estabelecida no Supremo Tribunal Federal indica que isso não vale para crimes contra a democracia e o Estado de Direito —foi o que ocorreu quando a corte derrubou o perdão de Bolsonaro ao ex-deputado Daniel Silveira, condenado por ameaça às instituições que hoje está em regime semiaberto.

Bolsonaro está no banco dos réus do julgamento da trama golpista no STF, que para ele e o presidente americano Donald Trump é uma farsa persecutória.

O aliado em Washington até deu ao ex-mandatário um duvidoso presente ao usar sua situação jurídica como uma das razões para colocar o Brasil no topo de sua guerra comercial, aumentando tarifas de importação de produtos brasileiros a 50%.

Isso deixou aliados de Bolsonaro no poder nos estados, como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), em apuros. O governador, assim como Romeu Zema (Novo-MG), saiu em defesa de Bolsonaro, e acabou tendo de mudar o discurso de apoio a uma medida contrária ao Brasil.

A reviravolta levou o fogo do bolsonarismo contra Tarcísio, que buscou submergir na crise após se colocar como interlocutor de quem quisesse. Com efeito, ele marcou um procedimento médico para este domingo (3), quando defensores da anistia o queriam no palanque na avenida Paulista.

Mas ele já foi claro ao dizer, assim como Zema, Ronaldo Caiado (União Brasil-GO) e também outros mandatários sem as pretensões presidenciais do trio, que anistiaria Bolsonaro, que foi seu chefe no governo passado e o lançou do nada para a disputa que o levou ao Palácio dos Bandeirantes.

Numa faixa intermediária corre Ratinho Jr., o governador do Paraná pelo PSD, que já defendeu anistiar os envolvidos nos atos golpistas do 8 de Janeiro.

No Congresso Nacional, os bolsonaristas já viram perder ímpeto um projeto de lei visando a anistia dos 480 condenados em 1.500 ações penais no Supremo acerca do episódio, que na prática estenderia o perdão ao ex-presidente.

A rejeição popular à anistia, que já era clara em pesquisas anteriores do Datafolha sem vincular a ideia ao perdão específico a Bolsonaro por um candidato eleito presidente, e o desgaste da crise com Trump enterraram por ora a ideia.

Igor Gielow, Folhapress

Trump, Lula e o tarifaço: um telefonema entre a farsa e a diplomacia


Trump: ‘Lula pode falar comigo quando quiser’

Pedro do Coutto

A diplomacia é feita tanto de gestos quanto de silêncios. E, no momento, o silêncio do presidente Lula da Silva diante do convite informal de Donald Trump para um telefonema tem mais força do que palavras. Em entrevista recente nos jardins da Casa Branca, Trump afirmou que está pronto para conversar e que Lula pode ligar “quando quiser”.

Mas esse gesto aparentemente amigável soa, no mínimo, contraditório. Afinal, o mesmo presidente impôs, sem qualquer aviso prévio, tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros como aço, alumínio, carne, café e etanol. Como confiar em um interlocutor que age unilateralmente, punindo um parceiro comercial de forma tão agressiva, e depois diz estar “aberto ao diálogo”?

GESTO POLÍTICO – Esse é o cerne da hesitação de Lula. O presidente brasileiro sabe que não se trata apenas de uma ligação telefônica. Trata-se de um gesto político com implicações amplas. Um telefonema, nesse contexto, poderia ser interpretado como submissão, como uma tentativa desesperada de reverter uma punição que nunca deveria ter existido.

Trump tem se caracterizado por um estilo errático e performático, onde decisões extremas são tomadas de forma impulsiva e revertidas com igual velocidade, dependendo do cálculo político do momento. Um dia impõe tarifas draconianas, no outro, insinua que pode recuar — sem explicar quanto, quando ou como.

A dúvida central é: até onde Trump estaria disposto a recuar? O tarifaço foi amplo e agressivo. Um recuo parcial não resolveria o problema. Mas Trump não é conhecido por oferecer concessões completas. Lula, por sua vez, mede com cuidado os prós e contras de aceitar o contato.

SOBERANIA – Não se trata apenas de economia — é também uma questão de soberania e dignidade nacional. Falar por falar pode alimentar a narrativa de que o Brasil aceitou calado uma punição e agora se submete a um jogo de cena.

Nos bastidores, cresce também a suspeita de que figuras ligadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, como seu filho Eduardo Bolsonaro, estejam articulando pressões junto ao governo Trump para dificultar a vida do atual governo brasileiro. Seria uma espécie de sabotagem diplomática, feita em silêncio, mas com repercussões concretas.

RUÍDOS – Não é coincidência que, ao mesmo tempo em que as tarifas são impostas, surgem ruídos na relação entre os dois países e se multiplicam ataques velados à condução da política externa brasileira.

A situação coloca Lula diante de uma escolha delicada: manter-se firme e esperar que os Estados Unidos ofereçam um gesto concreto de recuo — o que reforçaria sua posição interna e internacional — ou aceitar o diálogo em condições desfavoráveis, correndo o risco de ser usado como figurante em mais um episódio do espetáculo trumpista. Não é uma decisão simples. A balança entre a diplomacia estratégica e a defesa da soberania nacional é sempre sensível.

Por ora, o telefone permanece no gancho. E talvez esse silêncio diga mais do que qualquer conversa apressada. Se Trump quer, de fato, negociar, precisa demonstrar isso com medidas reais, não com frases de efeito. O Brasil não pode ser tratado como um parceiro de segunda categoria, sujeito a humores e cálculos eleitorais. A confiança, nesse caso, é uma via de mão dupla — e quem quebrou esse vínculo primeiro não foi Lula.


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